Ana Luiza e seus amigos inseparáveis – História de uma recém implantada.
Não lembro bem quando conheci Priscila. Acho que foi aqui no DNO, no dia que ela veio comentar sobre a história do Bernardo, a primeira criança implanta a ilustrar a página do DNO, sob as palavras doces da mamãe Aline.
Ou talvez tenha sido nas comunidades Surdos Oralizados / Implante Coclear do Orkut…
Na verdade, acho que nem importa. Só sei que faz bastante tempo que a conheci virtualmente e que acompanho o caso da Ana Luiza. Portanto, confesso que a história de hoje é muito muito especial. Não apenas pelas palavras belas e fortes da narrativa. Mas porque as donas delas já tem um lugar super especial no meu coração!
Em novembro passado, na festa de 10 anos do FIC (Fórum do Implante Coclear) aqui em São Paulo, tive o prazer de conhecer Priscila e Ana Luiza. Ana estava recém implantada. Ainda tímida, naquele período entre a cirurgia e a ativação.
Quando veio a ser ativada, Priscila colocou o vídeo da ativação no perfil dela do Face e chorei lágrimas de alegria: Ana Luiza é um desses casos de total sucesso do IC, onde a criança já tem completa compreensão da fala, sem ajuda visual, logo durante a ativação.
Mas, acho que vou deixar Priscila contar a história, né? Divirtam-se….
“Ana Luiza nasceu em 01 de novembro de 2005. Embora eu tenha feito um certo repouso na gravidez, devido a um aborto espontâneo que eu tive em 2003, ocorreu tudo dentro da normalidade.
O parto e o nascimento da Ana foram ótimos, mas em 2005 não se falava muito em “teste da orelhinha”. Eu, pelo menos, nem sabia da existência, e o hospital também não disse nada.
Ana teve um desenvolvimento normal como qualquer outro bebê e, por volta de 1 ano de idade, começou balbuciar e falar algumas palavras como: papa(papai), mama (mamãe), au au, áua (água), gostava de ver tv, adorava as músicas do Barney. Porém, com o passar dos meses, o vocabulário e a fala não evoluíram. Fui conversar com a pediatra que atendia ela na época, e ela me disse que era normal, que tinha crianças que falavam mais cedo outras mais tarde.
Depois de mais algumas semanas, comecei a perceber que ela não se interessava mais nos desenhos que ela assistia. Quando começava as músicas, ela não tinha reação nenhuma. Comecei a ficar intrigada, até que um dia cheguei ao ponto de gritar atrás dela e ela não olhou. Naquele momento, tive certeza que alguma coisa estava acontecendo, entrei em contato com a pediatra novamente e ela a encaminhou para o otorrino. Procurei um otorrino do convênio, ele pediu os exames de Emissões Otoacusticas, Impedanciometria. Fizemos os exames e, quando retornei no otorrino, ele só disse para que repetíssemos os exames e também fizéssemos o BERA. Ok, fizemos todos os exames novamente mais o BERA, retornamos no otorrino e ele simplesmente olhou para mim e disse: “Procure uma fonoaudióloga, mas não se preocupe, sua filha vai ter uma vida normal.” Questionei: “Mas o que minha filha tem?” E ele me disse que ele preferia não dizer, só uma fono poderia me falar. Saí de lá “soltando os cachorros” como se diz…
Procurei uma fono, do mesmo consultório da pediatra e ninguém me falava nada, a própria fono disse que minha filha não tinha nada, mesmo com os exames nas mãos…
Na época, eu era leiga no assunto, mal sabia o significado daqueles exames…
Com toda essa maratona, se passaram uns 5 meses, mas é claro que não me contentei com aquelas respostas. E fui pesquisar na internet, passei um dia inteiro, pesquisando por “situações “semelhantes ao que minha filha apresentava, até que encontrei o site da DERDIC. Nem sabia o que era, mas liguei, expliquei todo o caso para o atendente, e prontamente ele marcou uma consulta para semana seguinte. Tivemos muita sorte, pois muitas pessoas que conheci esperaram muito mais por uma consulta na DERDIC.
No dia e hora marcada estávamos lá, contei tudo que estava acontecendo, inclusive sobre os médicos anteriores, e também levei os exames que já tinha.
Repetiram todos os exames, passamos a tarde inteira lá, mas me lembro como se fosse hoje, eram umas 17:00h, nos chamaram para conversar sobre os resultados. Fui com o coração na mão, embora fosse difícil aceitar, sabia que alguma coisa estava acontecendo com a Ana.
Eu, meu marido e a Ana fomos recebidos por uma equipe de fonoaudiólogas, que nos deram o diagnóstico de surdez profunda bilateral, naquele momento foi como se tivessem aberto um buraco sob meus pés e eu estivesse caindo.
Lembro que ali mesmo chorei muito, mas 5 minutos depois comecei a fazer várias perguntas, afinal precisava ajudar minha filha. Uma das minhas perguntas foi: “Ela vai conseguir falar?”. Eu, leiga no assunto, era uma daquelas pessoas que achava que surdo não falava, eis o problema da falta de informação.
Me passaram todas as informações possíveis, inclusive sobre o teste genético, afinal não sabíamos qual era a causa da surdez da Ana. No dia seguinte, a Ana já tinha feito o seu primeiro molde. Em duas semanas ela já estava com seu primeiro aparelho auditivo. Ela se adaptou muito bem, era como se estivéssemos a devolvendo ao mundo dos sons. Nesse mesmo dia, saímos da Derdic e fomos tomar um lanche num shopping ali perto. Quando chegamos na praça de alimentação, ela olhava tudo a sua volta, e em nenhum momento quis tirar seus novos amigos. E até levou um susto quando uma moça derrubou uma cadeira atrás de nós. Aliás acredito que aquela cadeira não caiu à toa, foi um empurrãozinho de Deus para mostrar que estávamos no caminho certo…
Dali em diante foram só descobertas, em 6 meses a Ana tinha um vocabulário de 60 palavras mais ou menos.
Nesse tempo fizemos o teste genético que também deu tudo normal, ainda era uma incógnita a causa da surdez. Claro que sabíamos que descobrir a causa não mudaria em nada, mas sempre tínhamos a curiosidade.
Pouco depois conhecemos o Dr. Robinson Koji, que através da tomografia conseguiu finalmente descobrir a causa, era Aqueduto Vestibular Alargado. E realmente as descrições sobre Aqueduto Alargado eram exatamente tudo aquilo que tinha acontecido com a Ana. Mesmo não tendo feito o teste da orelhinha na maternidade, tudo indica que a Ana nasceu sim ouvindo, e pouco depois de 1 ano de idade ela teve uma perda súbita da audição.
Através do HC de São Paulo, ficamos conhecendo o implante coclear, mas eu e meu marido não achamos que seria o momento, afinal a Ana estava se desenvolvendo bem.
Em 2010, trocamos o aparelho da Ana por um mais moderno, o Naída V UP (Phonak), e também trocamos de fono, nossa querida amiga e parceira Vanessa Ribeiro. Nesse mesmo ano, a convite da Sheila Carvalho, eu e a Ana participamos do Programa Papo de Mãe, e que por uma coincidência divina, o dr Koji e a dra Valéria Goffi também estavam lá, e mais uma vez pude conversar com eles sobre a Ana. Dr. Koji pediu para eu marcar uma consulta para avaliá-la novamente com calma, para saber se era caso de implante ou não.
Acabei marcando uma consulta, e para minha alegria ouvi o dr Koji dizer que a Ana estava ótima, e no caso dela a idade não fazia diferença porque ela já era oralizada, e que a equipe iria avaliar o caso da Ana com calma, para ter certeza do que fazer.
Embora a surdez da Ana seja bilateral profunda, ela tem um ganho excelente do lado direito (30dbs/40dbs), e mesmo o esquerdo sendo pior, ela conseguia ouvir em 50dbs/60dbs, por isso ela conseguiu ser oralizada só com AASI.
Enfim, no final da avaliação, conversamos muito com a dra Valéria, e ela disse que o implante faria com que o desenvolvimento da Ana fosse melhor ainda. Não me esqueço de uma frase dela dizendo: “Corto meus pulsos se a Ana não for um sucesso com IC”!
Claro que tinha medo, afinal, mesmo do lado pior, ela ouvia alguma coisa com AASI. Graças a Deus tive a ajuda de muitos amigos: Monica Mendonça, Carminda, Patricia Kadel, Lak Lobato e o DNO, Sheila Carvalho, Mari Siqueira, etc… Que sempre me esclareceram muitas dúvidas e estiveram do meu lado me dando força.
Resolvi acreditar e confiar que tudo daria certo. Sabia que minha filha estava nas mãos de uma equipe maravilhosa e competente, e o melhor de tudo a Ana já estava com quase 6 anos e já sabia o que queria. Ela me dizia: Mãe eu quero fazer o implante, eu quero ouvir melhor. Acho que essa determinação e confiança da própria Ana foi o que mais me encorajou!!!
Em 33 dias saiu a autorização do convênio, e na semana seguinte foi a marcada a cirurgia.
Senti uma total mistura de sentimentos, ansiedade, alegria, nervoso… tudo. Mas enfim, dia 14 de novembro de 2011 as 12:00h a Ana foi para a sala de cirurgia com a equipe do dr Koji, mas sem a dra Valéria, detalhe é que nessa semana ela estava em Paris, e não era certeza que ela poderia estar presente na cirurgia, isso me deixou mais apreensiva ainda. As 13:50h, vi o dr Koji e a dra Valéria vindo pelo corredor do hospital me trazer a notícia de que a cirurgia tinha sido um sucesso! Eu só conseguia chorar e agradecer a Deus e a esses médicos maravilhosos. A dra Valéria conseguiu chegar a tempo e todos os 22 eletrodos foram inseridos e estavam funcionando perfeitamente.
A recuperação foi ótima, a Ana não sentiu dor, nem enjoo, nada, só queria comer…rs.
Exatos 30 dias se passaram e dia 14 de dezembro de 2011 foi feita a ativação do seu N5 marrom do jeito que ela queria, para combinar com o cabelo..rs. Foi lindo, ela não se assustou pelo contrário, parecia que o IC já fazia parte dela. Hoje ela está com quase 2 meses de IC ativado e é nítida a melhora na discriminação, na compreensão, a fala já está melhorando e até música ela está ouvindo.
Essa foi a decisão mais difícil, mas também a melhor que tomei! Como a fono disse: Valeu muito a pena!!!
Esse ano ela iniciou no 1°ano do ensino fundamental, estuda em escola regular e é uma das melhores alunas da sala. Preconceito sempre tem e sempre terá por parte de pessoas desinformadas, mas acredito muito na educação que passo para minha filha, e ela se orgulha muito dos seus companheiros AASI e IC, e mesmo quando alguém pergunta o que é, ela mesmo explica.
Agradeço a Deus por ter me presenteado com uma filha tão maravilhosa! Mesmo com apenas 6 aninhos, Ana Luiza é uma guerreira, determinada, e sabe o que quer… Hoje ela chega no consultório da fga. Vanessa e diz: Preciso treinar o meu implante… eu vou ouvir melhor e vou falar melhor!… E realmente isso está acontecendo… ela está conseguindo surpreender à todos!”
Como Priscila disse que estavam pedindo o vídeo da ativação dela no perfil do Facebook, ela trouxe o link para cá e eu anexei no post:
Adorei ter essa história aqui no DNO!!
Beijinhos sonoros,
Lak
p.s. notaram que agora tem uma descrição da foto, quando passam o mouse sobre elas? São descrições para que os leitores com deficiência visual possam ‘ler’ as imagens.
Texto de autoria de Lakshmi Lobato e licenciado sob a Licença Creative Commons 3.0 Brasil:Sempre atribua a autoria - Vedado uso comercial - Proibido obras derivadas.
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Aos amigos deficientes visuais, ambas as fotos mostram nós quatro (Eu, Clarice Kammer e Carlos Perl, ambos do CMPD e doINIS e Adelino Azores da Rede Atitude, na Câmara dos Vereadores, durante uma audiência. Adelino com microfone em mãos, fazendo seu relato sobre acessibilidade.