Esses dias, Sô, do blog SULP (Surdos Usuários da Lingua Portuguesa <- termo usado para todo e qualquer deficiente auditivo, a revelia do momento em que se deu a perda auditiva e o grau desta perda, que tem a Língua Portuguesa como primeiro ou único idioma) escreveu um post sobre os equívocos dos Legisladores que resolvem abraçar a causa de acessibilidade e inclusão, sem ter conhecimento da diversidade das pessoas com deficiência.
Eu canso de bater na tecla que não existe um modelo único de deficiente auditivo, porque são cinco graus de perda auditiva, além dela poder ocorrer em várias etapas da vida, o que resulta em uma diversidade grande entre as pessoas acometidas por essa privação sensorial. E, no entanto, TODOS precisam de adaptações e essas adaptações não podem se resumir as necessidades de apenas um grupo, porque outro grupo terá suas necessidades negligenciadas e no final das contas, haverá gente sem acesso a determinadas coisas.
Para quem não tem deficiência auditiva compreender a situação, pense no caso da legendagem de filmes, há quem tente convencer que todo e qualquer programa/filme/seriado/documentário estrangeiro deveria ser dublado, alegando que parte da população é analfabeta. Isso é um desrepeito às pessoas que estudaram e que preferem ouvir no idioma original, tendo apoio da legenda. O certo é haver as duas opções. O que tem sido permitido oferecendo-se copias dubladas e legendadas, uso da Tecla Sap e Closed Caption dos televisores. Então, por quê reduzir a população a um único modelo de cidadão não-alfabetizado que não sabe ler legenda? Você concorda com isso?
Pois então, segundo o post da Sô, existe um projeto de lei que visa substituir a legenda descritiva para deficientes auditivos – uma legenda especial que, além de traduzir por escrito os diálogos, traduz também os sons ambientes, tais como sirene, buzina, latidos, miados, janela quebrando e até o tipo de trilha sonora – por janelas de interpretes de Líbras, acreditando que todo deficiente auditivo domina perfeitamente essa forma de comunicação.
Antes que alguém se irrite com essa dominação que dei, isso está na Lei da Libras, Lei nº10,436, Decreto nº 5.236 de 24/04/2002, Parágrafo Único: “Entende-se como Língua Brasileira de Sinais – Libras a forma de comunicação e expressão, em que o sistema lingüístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constituem um sistema lingüístico de transmissão de idéias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil.”
E isso é um desrespeito à diversidade dos Deficientes Auditivos, já que deduz que todo deficiente auditivo seja fluente na Língua de Sinais, o que não é o caso. Nem adianta discutir que todo surdo deve aprender Libras e ser fluente nela, porque existem casos diferentes demais para se homogenizar. E pra quem fala, para quem ouve (ainda que sem discriminar auditivamente a fala com clareza) por próteses externas e internas, para quem tem português como Primeiro ou Único idioma, a Líbras não pode ser imposta como única opção. No máximo, oferecida, sem que se crie expectativa de que todos irão se tornar fluente nela a ponto de abdicar o português escrito para compreensão de programa/filme/seriado/documentário estrangeiro e nacionais, na televisão ou cinema.
Da mesma forma que sou contra a oralização obrigatória de todo deficiente auditivo. Sou a favor da escolha. Há espaço suficiente no mundo para co-existência de Surdos que usam Libras apenas, surdos que usam português apenas e surdos bimodais/bilingues.
Eu concordo que os usuários da Libras precisem de janela de interprete e que a legenda não contempla as necessidades deles. Mas não concordo que essas tais janelas sejam a forma de tradução ideal para todo deficiente auditivo. Progamação adaptada deve ser oferecida nos dois tipos de tradução: Legenda em português E Janela de Intérpretes.
Do contrário, não está sendo feita a Inclusão e tão pouco pode-se chamar isso de Acessibilidade!
Sonia , no post do SULP, pede para escreverem para o Senador explicando sobre os dois tipos de deficientes auditivos: Os que usam a Língua Portuguesa e os que usam a Língua de Sinais.
Eu apoio esse manifesto, porque é errado falar em acessibilidade preocupando-se com apenas um lado. Acessibilidade é para todos!
Estava eu no metrô, olhando as estações fofíssimas de Paris, quando reparei numa propaganda que chamou a minha atenção. Mas vi-a rápido demais e não deu para ler o que ela dizia. Passei as estações seguintes procurando o mesmo cartaz, porque quando algo desperta a minha curiosidade, faz cócegas até que eu elucide a questão.
Algumas estações depois, o trem parou bem em frente a outro cartaz similar e pude lê-lo…
Era propaganda da Associação de Deficientes Físicos da França, falando sobre inclusão social, de uma maneira bastante criativa.
Vaguei pelos corredores das estações subterrâneas de Paris afim de achar um cartaz indoor em bom estado, para fotografá-lo. Eis o resultado mais abaixo.
O termo ‘inclusão social’ faz muito politicamentecorretofóbico (que é uma raça que parece crescer a olhos vistos, em bando) torcer o nariz e muito mais gente ainda ter idéias equivocadas do que se trata.
Incluir não significa apenas tornar meia duzia de lugares acessíveis e fazer bonitinho na fita, dando direito do aluno com deficiência se matricular em qualquer escola (mas não dar nenhuma condição de igualdade para o aluno lá dentro, apenas enfiá-lo na escola e esperar que ele se resolva sozinho) ou colocar meia duzia de vagas exclusivas à deficientes físicos e pessoas com mobilidade reduzida feitas de qualquer jeito (sem faixa lateral necessaria) ou sem nenhuma fiscalização.
Incluir significa permitir que o mundo seja tão acessivel à qualquer pessoa, a despeito de suas condições físicas, sensoriais ou intelectuais, por uma razão muito simples: Não existe elas e nós, eu e você. Qualquer pessoa pode se tornar deficiente temporaria ou permanentemente a qualquer segundo. Nada, mas nada mesmo, impede que qualquer pessoa quebre uma perna, a coluna ou contraia uma doença que deixa sequelas.
Logo, ninguém faz inclusão social pelos outros, faz-se inclusão social por todos nós.
O erro crasso que se comete é segmentar a sociedade achando que a vaga exclusiva é um privilegio de alguns. Ela é uma necessidade de todos, porque ninguém sabe se ou quando irá necessitar daquelas vagas.
Portanto, a propaganda perguntava, de forma criativa e até bem humorada “Nossa vida deve ser limitada aos lugares que nos são reservados?”
E não, não deve, o mundo é um lugar para todos e deve ser acessivel a todos. Rampas, elevadores, banheiros adaptados, placas em braile, atendentes que saibam no mínimo o básico da Libras e que estejam também conscientes de que existe surdos oralizados e deficientes auditivos e, portanto, saibam falar oralmente também de forma clara, virada pra pessoa e com paciência de compreender uma voz com sotaque. Respeito às particularidades pessoais e alheias.
Segue, então, a propaganda fofinha:
Nada mais que usar o símbolo da deficiência física se sentindo preso dentro de uma vaga demarcada. Hahaha adorei.
Desculpem a qualidade da imagem, é que bati a foto com o iPhone.
Apesar da briga de direitos humanos, além dos direitos específicos das pessoas com deficiência, ser de ordem mundial, eles variam conforme as cidades, estados e países, obviamente.
Aqui no Brasil, os direitos das pessoas com deficiência variam MUITO. Em geral, de acordo com a deficiência e necessidades. Por um lado, é bacana, porque não dá direitos desnecessários a ninguém. Por outro, deixa alguns deficientes em desvantagem geral, uma vez que ele tem menos condições que as pessoas sem deficiência e menos direitos que outras pessoas com deficiência.
Eu canso de bater na tecla de que as deficiências não são homogêneas. Especialmente a deficiência auditiva que é justamente a que menos causa limitações físicas, mas que mais isola em relação às outras deficiências. Apesar de tentarem pregar que existe um modelo de surdo universal, isso é mentira, porque existe diversos graus de perda auditiva e existe diversas maneiras de se lidar com ela. São pelo menos QUATRO subgrupos dentro deste universo:
- Surdos, surdos sinalizados ou usuários da língua de sinais: o estereótipo vulgar e errôneamente conhecido como surdo-mudo, que fala tão-somente a língua de sinais. (não acho que surdos sinalizados são vulgares ou errados, só o estereótipo de chama-los de ‘surdos-mudos’ considero errado, que fique claro)
- Surdos oralizados ou usuários da língua portuguesa: um subgrupo pouco conhecido da maioria, mas familiar de quem lê o DNO, blog do SULP ou o Crônicas da Surdez, pessoas que tem perda auditiva severa a profunda, que não se beneficiam pelas próteses auditivas convencionais a ponto de ter discriminação auditiva (mas que podem se beneficiar com o Implante Coclear ou o BaHa, podendo ou não ter discriminação auditiva da fala, satisfatória, com tais tecnologias), mas que não fazem uso ou não se interessam pela lingua de sinais, uma vez que falam oralmente – com pouco ou muito sotaque, mas falam através da voz – e lêem lábios e são fluentes na língua portuguesa falada e escrita.
- Surdos bilingues: seriam os surdos oralizados que também fazem uso da língua de sinais, com fluência em ambas.
- Deficientes auditivos: são aqueles que conseguem ter boa discriminação auditiva da fala (esse é o ponto chave, os surdos oralizados, em geral, conseguem até discriminar algumas coisas que ouvem, mas não conseguem discriminar uma conversa sem usar a leitura labial) com próteses convencionais. Ou que simplesmente têm perda leve ou moderada. Muitos sequer se consideram deficientes auditivos.
Aqui no Brasil, existe muita discussão de quais direitos são comuns das pessoas com deficiência. Por exemplo, as vagas preferenciais de estacionamento são exclusivas de deficientes físicos ou pessoas com mobilidade reduzida. Um deficiente auditivo não tem direito àquelas vagas (por mais que alguns tentem dizer que tem sim). Alguém me disse que nos EUA existem vagas demarcadas inclusive para deficientes auditivos (com o diferencial de que elas NÃO têm a faixa lateral, já que surdos e deficientes auditivos não têm necessidade de espaço extra).
As filas preferenciais, teoricamente, são para essas mesmas pessoas, além de gestantes, idosos e pessoas com crianças de colo. Mas, os deficientes auditivos PODEM usar sim essas filas, uma vez que, na necessidade de conversar com o caixa, o atendente da fila preferencial tem (ou deveria ter) mais paciência de falar com uma pessoa com dificuldade de comunicação. E, teoricamente, também deveria saber pelo menos o básico da língua de sinais (embora eu não saiba dizer se isso realmente é cumprido).
Aqui, em aeroportos, a gente vê somente o símbolo de deficiencia física nos lugares preferenciais para se sentar. Na Europa, esses assentos preferenciais tem o símbolo de TODAS as deficiências. Por quê? Porque todos os avisos de aeroporto são sonoros. Um deficiente auditivo tem alta probabilidade de perder um vôo simplesmente por não ouvir uma chamada. Por isso, ele se senta em lugares demarcados, onde os comissários de terra ou de bordo possam dar um atendimento especial para essas pessoas. Isso não é bacana?
Quando estive na Europa em novembro, testei todas essas praticidades. Realmente, deficientes auditivos são tratados como passageiros VIPs e entram na frente (aqui no Brasil também, basta avisar no balcão e pedir esse atendimento).
Só para vocês verem como é a demarcação por símbolo, uma foto minha num desses assentos especiais da sala de embarque:
Aeroporto Charles de Gaulle, Paris
Ah, outra coisa, também temos desconto nos ingressos de museus e monumentos da França. Basta avisar e mostrar o aparelho ou IC. Eventualmente, podem pedir algum comprovante. A carteirinha de Implantado vale como identificação junto com o passaporte.
Sabe o que é amizade, pra mim? É poder compartilhar e sentir junto com o outro….
O texto de hoje não é meu, embora eu tenha sido parte integrante deste acontecimento – por acaso, talvez, mesmo que eu não acredite no acaso!
Dessa vez, quando me vi com o coração quase explodindo de emoção, os olhos marejados pelas lágrimas difíceis de segurar, nem foi por mim. A melhor parte da minha aventura de resgate ao som é ter tanta gente especial para dividir as conquistas. Só que, agora, eu fui parte da conquista de outra pessoa e, nessas horas, eu compreendi o que muita gente sente quando lê este blog…
Amo Steve Jobs
*Raul Sinedino
Conversar pelo facetime – uma novidade do Iphone 4—pode ser banal para as pessoas acostumadas a falar ao telefone, mas é uma verdadeira revolução na vida dos surdos oralizados. A primeira “ligação” entre dois deles foi de uma emoção especial. Os dois falam e fazem leitura labial, mas sempre dependeram de alguém para resolver coisas rotineiras que complicam bastante a vida de quem não tem o recurso quebra galho do telefone. Por exemplo, desbloquear cartão de crédito. Os atendentes do outro lado exigem falar com o titular. Outra via crucis é cancelar um plano de telefonia. Só o titular pode fazer isso. Só na hora de solicitar o serviço, a exigência cai, liberam na hora, sem qualquer preocupação se falam com o dono da linha, ou não. Quem ouve também pode telefonar para alguém e contar qualquer bobagem, o que é muito bom. Nós, surdos, nunca pudemos.
Num passe de mágica, a invenção de Steve Jobs acabou com a dependência e o aprisionamento emocional dos surdos. Ou quase. O preço do Iphone cobrado aqui no Brasil é muito alto, devido aos impostos. Nos Estados Unidos, a operadora AT & T cobra U$ 199 dólares ( R$ 340). Aqui, o preço ainda gira em torno de R$ 1.200, o que impede que parentes e amigos próximos de pessoas surdas se comuniquem com elas. Outro entrave é o fato de ser necessário a rede wi-fi para falar através do facetime. Não funciona em 3G. Mas, Steve Jobs já é idolatrado pelos pessoas com deficiência auditiva até pelo que já promete: a videochamada em 3G.
Eu intuía a pequena revolução que o Iphone 4 iria me proporcionar. Por isso, nem me importei com o custo de fazer um plano Iphone, no qual está incluído pagar por 400 minutos de conversa que nunca vou ter, R$ 1.149 pelo aparelho e R$ 250 de mensalidade. Não me enganei. Moro em Porto Alegre e, hoje, recebi minha primeira ligação na vida. Era uma amiga surda, residente de São Paulo, querendo compartilhar o seu estado de graça pela compra do Iphone. O marido ouvinte sentia a falta de falar com ela ao telefone, por isso foram os dois resolver o problema, comprando o aparelho.
Confesso que fiquei sem reação durante a minha primeira videochamada. Não sabia se chorava ou se continuava a conversa. Não sabia nem como reagir, o que fazer ou responder, porque jamais falei desse jeito com ninguém ao telefone. Muita coisa passava minha cabeça – a briga cotidiana, desde criança, por autonomia, principal motivo de estresse entre os surdos. Pelo menos, dos que falam, fazem leitura labial e estão inseridos na sociedade ouvinte, mas se deparam com muitas barreiras, na maioria das vezes apenas criadas pela falta de bom senso de algumas empresas e órgãos governamentais ou de uma política voltada às necessidades específicas de uma nova geração de surdos – oralizados e implantados.
O Steve Jobs deve achar apenas que, mais uma vez, foi responsável por um avanço na tecnologia. Com certeza, jamais irá saber da pequena revolução pessoal que provocou na vida de dois surdos brasileiros no dia 20 de setembro de 2010. Sem qualquer exagero.
Você já conhece o SULP, o blog da comissão de Surdos Usuários da Lingua Portuguesa? (basicamente, os deficientes auditivos que tem portugues e não Libras, como lingua materna ou, como chamam L1.)
Eu faço parte do SULP porque não falo Líbras. Nada contra a Líbras, mas evito esse assunto aqui porque além de achar perpetuação de estereótipo um blog de surdo falar de Líbras, eu não tenho afinidade nenhuma com esse idioma já que fui alfabetizada em português e só uso esse idioma. No entanto, nada contra a Líbras, o lance é querer mostrar que existe surdos que não falam por sinais e portanto surdo não é igual a língua de sinais. Surdo pode ler lábios, usar prótese ou implante, falar oralmente ou até falar Líbras fluentemente, mas preferir ler e escrever em português (não, quem fala a língua de sinais nem sempre é familiarizado com o português, mas isso não vem ao caso agora). Enfim, todos esses casos são considerados SULP.
Daí, o blog do SULP acaba sendo um blog parceiro do DNO, já que de um jeito ou de outro, defende a mesma coisa.
Essa semana, eu estou meio sem assunto (por ora) e resolvi mandar vocês pro SULP, darem uma lida em duas noticias interessantes (na real, ruinzinhas pra nós, mas que vale a pena ler), caso se sintam a vontade para tanto: