Muita gente sabe, mas repetindo para quem não sabe. O DNO (este blog, “Desculpe, não ouvi!”) nasceu como uma ramificação do blog do Jairo Marques, assim como você, que é oficial do Jornal Folha de São Paulo.
Tudo porque eu ficava cobrando o Jairo de escrever sobre surdez. E implorando pra não dar ênfase só e unicamente em Líbras. E ele sempre dizia que não sabia o suficiente do assunto, para escrever sobre o tema com a frequência que eu pedia.
O tempo passou e, um dia, conversando com Edu, ele disse que eu deveria ter um blog meu, porque eu amo escrever (sou uma Lobato!!) e porque blogs são algo que a internet tem de melhor.
Confesso que sempre tive uma tremenda resistência para escrever sobre deficiência auditiva, porque nunca gostei que a surdez fosse maior que eu. Nunca quis ser “uma surda que…” ou “uma deficiente auditiva que…”. Quero sempre que a surdez seja vista como uma parte de mim e não o contrário.
Mas, acabei ultrapassando essa barreira para escrever o DNO, porque realmente não dava para eu passar a vida exigindo do Jairo o que era minha missão.
Quando o DNO nasceu, foi também quando começou os encontros do ACV. Porque afinal de contas, o maior milagre que Jairo fez ao criar o blog dele, foi criar uma ‘comunidade’ de gente da internet, do Brasil todo (até de outros países) que tem trocentas mil deficiências e até quem não tem nenhuma mas simpatiza com o tema. E com isso, quem estava ligado ao blog dele, acabava criando laços com outros leitores. Ao vivo, em redes sociais, em programas de bate papo, etc etc etc….
Hoje, vi-o comentar sobre a coluna quinzenal dele na Folha impressa, já que ele escreve a cada 15 dias para o caderno Cotidiano, no Facebook. Fui correndo contar que pretendia comprar o jornal pois fazia questão de ler a coluna dele, especialmente pelo tema abordado: Valentina.
Valentina é um bebê mais que especial para quem lê o ACV: ela é filha do casal Carlos (tetraplégico) e Maysa (fisioterapeuta), nasceu linda e saudável e já infiltrada (o termo que usado pelo Jairo para se referir às pessoas que simpatizam com a causa das deficiências).
Tive o prazer de conhecer pessoalmente Maysa ano passado, depois de conversar com ela desde antes de ser implantada…
Maysa sempre quis ser mãe e lutou pela realização desse sonho, já que a condição do Carlos não permite a concepção por vias comuns, mas nada que a medicina não permita que se realize.
Então, no segundo semestre do ano passado, começamos todos a acompanhar (de perto e de longe) a gestação da May. Lembro quando soube que ela estava grávida. E quando soube que era menina, Valentina.
Numa das nossas conversas, Maysa veio me perguntar quando o teste da orelhinha deveria ser feito.
Fiquei estupefada com a pergunta, porque o teste da orelhinha é fundamental, mas muitos pais deixam de fazer porque, apesar de ser obrigatório na rede pública, na rede privada nem sempre é coberto pelos convênios e muitos papais e mamães (segundo uma pediatra que conheço) deixam de fazer o exame porque acham que é desnecessário.
Esse teste detecta, logo nas primeiras horas de vida, se a criança tem ou não audição normal.
Há quem diga que isso é uma imposição da medicina para ‘recrutar crianças para o implante coclear, mas isso é bobagem. O fato de uma criança nascer surda não obriga os pais a implantá-la. O implante coclear não é uma condição obrigatória para surdos; embora seja comprovado que quanto mais cedo for feito o IC, melhor é o desenvolvimento auditivo da criança. Por outro lado, se os pais preferirem não implantar, mais cedo será feito o estímulo da comunicação através da Líbras. Portanto, é sim um exame fundamental, pois permite que a comunicação da criança com deficiência auditiva seja feita desde cedo, da forma que os pais acreditarem que seja melhor!
Conversando com a Maysa, pedi para que ela realizasse, se possível, o exame ainda na maternidade. Mas caso não fosse, até os 2 meses de idade é aceitável. Mas insisti que ela fizesse (de bobeira, porque em momento algum May se opôs ao exame), porque é um exame rápido, indolor e fundamental.
Pouca gente sabe, mas uma outra amiga pediatra me explicou que 50% dos casos de surdez neonatal não tem qualquer histórico de surdez hereditária e, muitas vezes, os pais só descobrem depois dos 2 anos de idade!! Portanto, não existe desculpa para achar que esse exame é bobagem.
Maysa, ao ver meu comentário no facebook do Jairo, me mandou o seguinte recado “Olha no album da Valentina, que tem uma foto especial para você” Valentina fazendo teste da orelhinha. Com direito a foto para Tia Lak!
Nem preciso dizer o quanto fiquei emocionada de ver essa foto, né? Até chorei….
Bem vinda ao mundo, Valentina!
Beijinhos sonoros,
Lak
Fui na fono hoje – juro que quando conseguir receber aumento, a primeira coisa que farei é fonoterapia 2x por semana, porque a consulta vale cada segundo.
Entreguei o relatório que a Dra. Valéria fez sobre os mapeamentos e conversamos a respeito.
Aline teve toda a paciência do mundo de me explicar porquê eu acertei 60% das frases com apelo visual (vide o post anterior A-E-I-O-U) e 0% sem apelo nenhum. Até agora, meu cérebro se concentra em discriminar o que ouve, não propriamente reconhecer. É o que, com 4 meses de implantada, consigo fazer. Como sempre digo, cada caso é um caso e eu fiquei 23 anos sem ouvir. Portanto, ter discriminação de 60% de frases, em 4 meses, é um ganho EXCELENTE pro meu caso. Pleno reconhecimento auditivo, nem seria esperado, portanto, estou indo muito bem.
Além disso, ela acha que já estou reconhecendo muito bem as vogais, portanto, decidiu que hoje é pra eu passar a prestar atenção nas consoantes.
Vocês se lembram das aulas da pré-escola (eu tive isso, pelo menos) as vogais são poucas, porque basicamente, é o estreitamento das cordas vocais x lábios em relação ao som que sai. No português, temos 8 sons de vogais: AH, ÃH, Ê, É, I, Ô, Ó, U.
Já as consoantes, são as barreiras que se coloca no som. Existem as consoantes nasais, tipo “mmmm”, as consoantes labiais, tio “ffff” , as consoantes gurutais, tipo “ggggg” e as consoantes linguais, tipo “rrrrr”.
Quem ouve bem, dificilmente confunde as consoantes, mas uma pequena perda auditiva leve, já pode dificultar a discriminação entre “faca” e “vaca” porque a diferença entre ambos é exclusivamente sonora.
É justamente esse os impasses da leitura labial, como eu já expliquei.
Até a consulta de hoje, a fono me dizia para reconhecer as vogais das palavras. E, dessa forma, diferenciar uma palavra de outra. Porém, palavras com vogais similiares, tipo “batata” e “salada” não era algo que eu conseguia diferenciar.
Hoje, demos entrada na percepção das consoantes. Qual a diferença entre “sapato” e “macaco”, para quem só discrimina as vogais?
O que a Aline fez? Prolongou o som das consoantes iniciais… SSSSSSSapato e MMMMMacaco. Dessa forma, eu conseguia discriminar as palavras perfeitamente!
O problema é que temos mais de 20 sons de consoantes em português, socorro! hihihi Deu medo, admito. Mas, eu preciso aprender isso um dia, né? Ai ai…
Ah, de quebra, com o novo mapa, a primeira coisa que ela me falou hoje foi: Nossa, como a sua voz mudou da semana passada pra cá!
Tá, eu já notei que vocês preferem fofocas da minha vida, do que textos informativos, videos e etc… Mas tudo bem, eu também amo vocês. E só não falo mais da minha vida, porque realmente não tenho tanto assunto assim.
Bom, hoje foi o meu segundo mapeamento. Definitivamente sou uma negação pra explicar que raios é o mapeamento, mas basicamente é quando aumentam, equalizam e ajustam o som que o aparelho manda pros eletrodos, tornando o som cada vez mais adequado à minha perda auditiva.
Antes, eu fiz a primeira audiometria pós-cirurgica. Realmente, o ganho do IC está a anos-luz da prótese (AASI) convencional (e nem falo da minha audição residual, que do lado o IC ficou insignificante). Com o AASI, eu ouço mal e porcarmente sons em frequencia até 4000 mhz, mas teria que ser um barulho altíssimo, do tipo impossivel, só se considerava mesmo até 2000 mhz (quanto mais alta a frequência, mais agudo é o som). Com o IC, eu ouço até 8000 mhz a 20decibeis, o que significa que ouço muito mais do que ouvia!!
Também fiz alguns testes de compreensão auditiva. Veja, eram três testes, um de vogais, um de sílabas e outro de palavas.
No teste de vogais, eu fui mal pacas, porque não diferencio bem e eo foi um troço meio vergonhoso, mas como eu não faço fonoterapia, faz de conta que é isso mesmo.
No teste de síbalas, que basicamente falam palavras com números de sílabas diferentes, algo como SOL, BOTA, ALFACE, ABACATE. Esse, eu acertei 91% das palavras, porque, obvio contar sílaba é algo que eu sempre tive tremenda facilidade de fazer.
Por fim, veio o teste que é meu pesadelo. Palavras aleatorias com o mesmo número de sílabas. Eu sempre ia pavorosamemte mal nesse teste, porque realmente requer sensibilidade auditiva, porque sem pista visual ou de contagem de sílabas, não tem como diferenciar palavras se não pelo som delas. Eu sempre acertava o limite de chute-acerto. Mas hoje… tcham tcham tcham: acertei 83% das palavras!
Eu fiquei tão feliz, mas tão feliz, que vim correndo contar aqui no blog!!
Claro que eu tinha uma noção do que poderia ser tal palavra. Tô longe de poder falar no telefone ainda…
Mas, pra quem não entendia uma palavra auditivamente há decadas, qualquer compreensão é bem vinda!
Beijinhos sonoros,
Lak
Antes de tudo, peço desculpas pelo sumiço. Tá, confesso, a ansiedade tem consumido os resquícios de sanidade que ainda havia na minha pessoa. Ultimamente, só tenho pensado na cirurgia e nas portas que serão abertas com o passar do tempo, quando o IC estiver fazendo parte do meu cotidiano.
O que tem me deixado cada vez mais animada são os comentários dos implantados. A Sun Melody, do blog Ouvido Biônico fez um comentário lindo: “caem estrelas sonoras”. Essa poesia é exatamente da cor dos meus sonhos, engraçado. Busco muito mais do que meros sons, quero que eles tenham significado que toque no fundo do coração: as vozes das pessoas amadas. Todo o resto são bônus…
Outra pessoa que fez um comentário estimulante foi a Olivia, do blog Olivia Castro Cranwell, que deixou de lado a subjetividade para ser objetiva: “O AASI amplifica o resto de audição que a gente tem mas o implante é uma parabolica, ele capta todos os sons vibram pelo ar. O som é alto, muito alto enquanto o AASI não é. É impossível comparar um com o outro.”
E, no meio disso tudo, ainda estou esperando o alvará do cardiologista, porque meu coração adora um #mimimi e preciso de um exame extra pra verificar se a alteração que deu no eletrocardiograma é algo sério ou se meu coração é só esquisito mesmo. Hehehe e ainda tive o desprazer de tomar uma chuvarada na saída do médico, que me fez voltar pra casa hoje, na hora do almoço, pra tomar um banho, antes que eu tivesse uma crise de hipotermia. Enfim, os dias tem sido, pra mim, um verdadeiro teste de paciência.
Mas como eu adoro duvidar que as pessoas tem tão boa audição quanto dizem (estou sempre falando: “Você não ouve bem, fala a verdade!” hihihi) achei supimpa – é, essa gíria ainda existe – esse teste de audição que pode ser baixado na internet: uHear.
Copiando o texto original do link (mas depois clica lá, pra ver o video):
“A empresa canadense Unitron, representada no país pelo Grupo Microsom, tornou livre o aplicativo uHear, um teste para detectar a perda de audição e que pode ser baixado direto da internet para o iPhone ou o iPod Touch.
O aplicativo está em inglês e realiza três testes básicos com o usuário: sensibilidade auditiva, audição em ambientes ruidosos e um questionário de 12 perguntas sobre situações auditivas comuns.
O teste de sensibilidade auditiva pede que o usuário dirija-se a um ambiente silencioso. Com os fones de ouvidos colocados, um som é emitido para cada um dos fones, a fim de avaliar o grau de sensibilidade do indivíduo. Em cerca de seis minutos, ele já tem os resultados na tela do seu aparelho, por meio de um gráfico que mostra a resposta auditiva de cada ouvido.
O teste de audição em ambientes ruidosos avalia o grau de conforto da pessoa para escutar e em meio a um ambiente com muito barulho. O aplicativo pede para que o usuário defina o volume de voz e o nível de ruído emitido no fone, para então, avaliar sua percepção auditiva. Os resultados são apresentados no formato de um gráfico simples de medição de decibéis.”
Acho que os médicos não vão curtir muito esse teste, mas que eu curti, curti sim. Porque desconfio que um monte de gente não ouve bem e não faz audiometria só de preguiça, viu?
Quem tem filho pequeno, já deve ter ouvido falar nesse teste. Mas que ainda está planejando um, vale a pena se informar sobre o teste de audição feito logo que o bebê nasce.
Esse teste é importantíssimo, pois quanto mais cedo se souber da perda auditiva do bebê, mais cedo se corrige a deficiência e menores serão as sequelas a longo prazo.
Hoje, li uma notícia (graças Leila) que explica bem o que é o esse exame:
Teste para evitar risco de surdez
Projeto nas mãos do prefeito Eduardo Paes propõe tornar ‘teste da orelhinha’ obrigatório na rede pública municipal
Rio – Fundamental para detectar problemas auditivos em recém-nascidos, o ‘teste da orelhinha’ pode se tornar obrigatório no Município do Rio. Projeto do vereador Bencardino (PRTB), aprovado dia 18 em segunda instância na Câmara, prevê que o exame seja feito em maternidades e hospitais municipais onde for realizado o parto. O projeto deve ser enviado esta semana para o prefeito Eduardo Paes. Assim que receber, Paes terá 13 dias para sancionar ou não.
Segundo Bencardino, estudo feito pela prefeitura aponta que uma das principais causas de reprovação escolar são os problemas auditivos. Com o projeto, o vereador pretende diagnosticar precocemente o mal e evitar que as crianças tenham problema na fala. Bebês com dificuldade de audição que recebam tratamento até os seis meses de idade conseguem desenvolver linguagem muito próxima a de uma criança ouvinte.
“O objetivo é que o bebê só saia da maternidade com o exame feito, assim como ocorre com o teste do pezinho. Se for aprovado, o projeto não vai ficar caro para os hospitais aderirem. É melhor resolver o problema logo no início, para não ficar mais caro depois”, disse.
Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) revelam que, a cada 10 mil bebês, 30 têm perda auditiva. No Brasil, em cada grupo de mil nascidos, um é surdo e entre dois a seis bebês nascem com problemas auditivos. De acordo com Cláudio Coelho, membro da Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia, o teste da orelhinha (emissão otoacústicas) é indolor e é feito com o bebê dormindo. Ele explica que o grau de audição é medido através de um fone que emite sons fracos e depois recolhe as respostas que a orelha do bebê produz.
“O teste da orelhinha pode descobrir no primeiro dia de vida se a criança apresenta algum problema auditivo. Se o exame for feito precocemente, possibilita uma maior reabilitação. Se o resultado do primeiro teste não for satisfatório, o exame pode ser repetido de 15 a 30 dias após o primeiro”, explica o especialista.