Você já ouviu falar no Implante Híbrido? Basicamente, é um implante coclear que, diferente do tradicional, é indicado para quem tem boa audição residual nas frequências médias e/ou graves. E, por conta dessa boa audição residual, o Implante Coclear não é indicado, sob risco de prejudicar a audição que a pessoa tem naturalmente.
A diferença entre o IC convencional e o híbrido está no fato que o feixe de eletrodos do híbrido é mais curto que o tradicional, estimulando apenas a área de frequências mais altas (sons agudos) que o AASI não consegue ampliar o suficiente, para que o som seja ouvido sem distorções. O implante híbrido também tem uma parte externa, assim como IC comum, mas essa parte inclui também um aparelho convencional que simplesmente amplia os sons graves, estimulando a audição natural, tal como qualquer AASI faz. Ou seja, literalmente uma versão ‘híbrida’ de IC e AASI num mesmo ouvido.
Parte externa do Implante Híbidro: processador e AASI ligados
Parte interna, com feixe de eletrodos mais curto que o convencional
E, como não existe nada melhor que um depoimento de um usuário, para a gente saber mais sobre um determinado aparelho, segue uma entrevista com Reginaldo Pancini Delallibera, o primeiro usuário desse tipo de implante que tive o prazer de conhecer:
1. Fale um pouco de você, de onde você é, qual sua idade, o que você faz da vida.
Eu sou de São João da Boa Vista SP, tenho 30 anos e trabalho como tec. em segurança do trabalho
2. Você nasceu surdo ou perdeu a audição? Com que idade?
Eu nasci com a audição perfeita, até hoje nenhum medico chegou na conclusão do meu problema, o que indica ser meu problema é uma doença auto-imune. Eu perdi a audição no lado esquerdo quando tinha 21 anos. Percebi que estava com um problema porque começou com um barulho (zumbido) no ouvido que não passava. Fui ao medico depois de uma semana, fiz uma audiometria e o resultado foi uma leve perda do lado direito. Passaram-se três meses até que fiz outra audiometria. Dessa vez o exame acusou uma perda bastante significativa. Aí, o médico receitou medicamento.
Três meses depois, fiz mais uma audiometria que indicou mais uma grande perda de audição, passei a ouvir só na freqüência baixa. O lado direito continuava com audição normal, sem perdas. Porém, uns 4 anos depois, tive uma perda no direito, que permaneceu estável por um bom tempo. Em 2009, perdi quase totalmente a audição no ouvido direito.
3. Como é a sua audição natural, antes de ter feito o IC híbrido? Você utilizava aparelho comum? Conseguia ouvir bem com eles? Ouvia música, falava ao telefone, etc?
A minha audição sem aparelho é praticamente nula, eu só escuto os sons grave (baixa freqüência) e a perda está em torno de 70 a 80 dB (as minhas audiometrias recentes ficaram na Unicamp).
Pra você ter uma idéia, não escuto nem um alarme disparado! E já aconteceu de o alarme do meu carro disparar à noite e eu não perceber. Isso porque ele estava bem no lado da minha janela do meu quarto…
Não consigo conversar com uma pessoa no meu lado mesmo numa sala silenciosa.
Até pouco tempo o aparelho ajudava muito, só no telefone que era complicado, mas de resto estava muito bem.
4 Como tomou conhecimento sobre o Implante Coclear? Você chegou a se candidatar ao IC convencional?
Eu já tinha um pouco de conhecimento a respeito do implante, pois pesquisei bastante sobre ele, mas quem me indicou mesmo foi um medico de Campinas.
E na época que comecei a fazer os exames não haviam lançado o IC hibrido.
No meu caso era meio complicado para me canditadar por seguinte motivo: como eu tinha boa audição residual nas frequências baixas e, por isso, eu não me encaixava para o IC convencional, embora houvesse alguns médicos que queriam fazer o convencional.
Mas nisso vai tempo e surgiu o hídrido e um medico que me atendeu logo no inicio que me falou desse implante.
5. Como ficou sabendo do IC híbidro? No que ele é diferente do IC convencional, você sabe?
Olha, foi um medico que me indicou para esse implante, eu não sei ao certo mas eu sou uns dos primeiros a ser feito na Unicamp. Não sei se já foi feito em outro lugar.
A diferença (isso foi que me pararam) seria no próprio (feixe de) eletrodos que vai no coclea. Outra diferença que recebo som tanto no implante como no ouvido implantado. Se quiser ver mais sobre o modelo do aparelho: http://www.medel.com/int/show/index/id/86/titel/EAS e http://www.medel.com/int/show/index/id/63/title/Types+of+Hearing+Loss#sensorineural-hearing-loss(vídeos nesta página)
6. Teve dúvidas antes de decidir quanto a cirurgia? Se sim, o que você temia?
Eu cheguei numa situação que pensava o seguinte, “pior que está minha audição não fica”. Então não tive muitas duvidas não, fiquei muito feliz quanto fiz o implante.
7. Quais são os resultados do IC híbidro? Demorou para atingí-los? Precisou de fonoterapia para se adaptar à audição através dele?
Olha para essa pergunta ainda não vou ter como responder bem ainda, ele foi ativado há menos de duas semanas. Mas, por hora, está muito bem. Já compreendo a TV (claro que não 100%); vou na missa e já entendo bastante, não fico mais perdido. Só nos lugares com muita gente falando que eu estou apanhando ainda, porque é o seguinte: o som que vem do implante ele é bem diferente do som “acústico“ no hídrido, ele une os dois tipos de sons. Por isso, no começo confunde pra caramba, mas o som deve ser muito melhor do que o convencional tanto é que eu não estou precisando fazer fono.
Reginaldo e sobrinho
Curti pra caramba essa nova versão do implante coclear. E vocês?
Torcendo para que o Implante Híbrido beneficie muita gente!!
recebi por email o convite e tomei a liberdade de divulgar, porque é da equipe que cuida do meu caso e posso atestar a competência e dedicação dos profissionais.
Segue o texto que acompanha o convite:
“Convido vocês a participarem do I ENCONTRO DA EQUIPE DE IMPLANTES AUDITIVOS DO HC-FMUSP COM PAIS COM PACIENTES COM SURDEZ no dia 02/07/2011.
É um curso voltado para pacientes com deficiência auditiva, pais e familiares de crianças com surdez.
É um curso muito importante pois orienta as famílias como educar e conseguir atingir o máximo no desenvolvimento de seus filhos com deficiência auditiva.
Além disso, será apresentado as alternativas tecnológicas para o tratamento dos diferentes tipos e graus de surdez.
As aulas serão ministradas pelos professores e profissionais do grupo de implante coclear do Hospital das Clínicas de São Paulo e contará com a presença da convidada especial Prof Dra Beatriz Novaes.
Para maiores informações veja o folder em anexo”
Abraço a todos, Dr Robinson Koji Tsuji
Médico otorrinolaringologista do grupo de otologia do HCFMUSP.Grupo de Implante Coclear do HCFMUSP – Equipe do Prof Dr Ricardo Ferreira Bento.Professor Colaborador da Faculdade de Medicina da USP
Já tinha colocado o link pro texto original aqui, mas queria trazê-lo para o DNO, então faço isso hoje:
Surdos oralizados
Por Lak Lobato
De vez em quando, alguém me pergunta o que é um surdo oralizado.
Afinal, todo mundo já ouviu falar de surdos que se comunicam por sinais (e até acham que isso é comum de todo deficiente auditivo) e de gente que ouve usando aqueles aparelhos pendurados na orelha.
Por conta dessa falta de divulgação sobre o nosso grupo, dos surdos oralizados, decidi que precisava fazer um blog contando a minha experiência, o “Desculpe, não ouvi!“. Minha preocupação principal era esclarecer sobre a diversidade que existe entre as pessoas que têm essa deficiência.
Atualmente, com a divulgação da Libras, muita gente fica deslumbrada com a Língua de Sinais e acha que este idioma é comum a todo deficiente auditivo. A Libras é um idioma belíssimo e reconhecido oficialmente como segundo idioma oficial do Brasil, mas ela não contempla as necessidades de todo deficiente auditivo.
Essa idéia de que deficiente auditivo é sempre sinônimo de Libras ocorre muito porque, quando se aborda o tema da deficiência auditiva, rapidamente se vem à mente o estereótipo (e o termo errado) do surdo-mudo. Alguém que não fala, porque não ouve. E se não ouve, não poderia falar e, por isso a solução para se comunicar é a Libras.
Existem vários tipos pessoas que convivem com a limitação auditiva. Há quem consiga driblar a deficiência com aparelhos auditivos comuns. A pessoa vai lá, coloca um aparelhinho na orelha, passa a ouvir com essa ajuda e resolve tudo. Essas pessoas são chamadas de deficientes auditivos e, normalmente, possuem perda em grau leve ou moderado.
Mas existe também quem tenha deficiência auditiva severa e/ou profunda e não faça uso da Língua de Sinais. Pessoas com deficiência auditiva que, apesar de não ouvirem nem mesmo com aparelhos, falam normalmente (ainda que com sotaque típico) e se comunicam valendo-se da leitura labial. São pessoas que perderam a audição depois da aquisição da fala através da audição (também chamados de surdos pós-linguais) ou cujos pais acreditaram na oralização através da fonoterapia. O que os diferencia dos deficientes auditivos de graus mais leves é justamente o fato de serem incapazes de discriminar a fala auditivamente, mesmo utilizando próteses auditivas. O termo usado para referir-se a essas pessoas, é surdo oralizado.
Os surdos oralizados, em geral, não costumam ter muito interesse pela língua de sinais, porque a língua que se tornou natural é o idioma comum, no caso do Brasil, o português. Quando um surdo fala português oral e Libras, é chamado de bilíngüe ou bimodal.
Hoje faço 18 meses de ativada. É engraçado, sabe? Passei o dia pensativa.
18 meses não é muito tempo, mas quando você recupera um sentido – mesmo que dependendo eternamente de uma prótese – o tempo se torna algo relativo. São 18 meses de (re)descobertas sonoras constantes. São 18 meses em que o silêncio não reinou sozinho.
Hoje em dia, me dou conta que começo a reclamar de algumas coisas que antigamente nem sabia que existiam. Sons que, quando ensurdecida, via as pessoas reclamando e achava que elas estavam reclamando de barriga cheia, porque tinham acesso a eles e eu não. Tenho as minhas preferências e meus repudios. Algumas coisas já começam a cair na rotina e os deslumbramentos vão se tornando cada vez mais espaçados.
Por outro lado, a vida se tornou muito mais rica, porque além de ouvir pura e simplesmente, eu tenho também consciência disso. Eu paro, ouço e aprecio um som.
Mas, o mais especial nesse tempo todo, não foi apenas o que eu vivi, do ponto de vista pessoal. Mas as coisas que eu compartilhei. As pessoas não sabem, mas quando elas se emocionam com algo que eu relato – quando dizem que alguma descoberta minha lhes soa como poesia – meu coração parece se expandir, como se aquilo fizesse muito mais sentido do que simplesmente ter um som.
Acima de tudo, quando percebo que esses relatos ajudam na decisão pelo Implante Coclear de algumas pessoas. E elas me tornam parte do processo pré e pós cirúrgico, compartilhando comigo todos os seus medos, seus anseios, seus receios e suas conquistas. Sinto-me fortemente ligada a cada pessoa que veio me contar (para si mesmo ou para um filho/parente/amigo) que pensava em fazer o IC, que estava em processo de fazer o IC, que seria operado em breve, que tinha sido operado e aguardava pela ativação, que havia sido ativado e tinha milhares de dúvidas. Gente que foi operado na mesma época, bem depois ou que irá ser operado em breve.
Com isso, vejo que as transformações do implante vão muito além de mera percepção sonora restaurada. É uma mudança como um todo.
Hoje, na aula de inglês, minha professora disse que fica encantada de ver que eu, que sempre reclamei de ter dificuldades com o idioma, estou apaixonada a tal ponto que prefiro ouvir inglês mais do que qualquer outro idioma (no caso, os que eu falo, português e francês). Tudo por causa da audição que me faltava e agora tenho.
Não posso falar por todas as pessoas do planeta, não posso garantir resultados do implante coclear, não posso dizer que é melhor do que assim ou assado, mas posso dizer com propriedade que, no meu caso, optar pelo Implante Coclear valeu demais a pena!
Sendo muito muito cara de pau (e com autorização devida) resolvi trazer dois depoimentos sequenciais publicados no blog da Paula Pfeiffer, Crônicas da Surdez, sobre uma menina nascida surda que cresceu implantada, Bianca, e sua mãe, Nailma, fonoaudióloga. O depoimento das duas é lindo e reforça a importância da família para o sucesso do Implante Coclear.
Um presente especial às mamães de implantados e pré-implantados que lêem o blog:
Depoimento da Bianca:
“Oi galera,
Também resolvi contar a minha história, pois acho muito interessante trocar experiências e informações com alguém parecido com a gente. Bom, nasci com surdez profunda em ambos ouvidos e assim meus pais buscaram o melhor para mim. Como minha mãe é fonoaudióloga (já estava nessa especialidade antes de eu nascer! Legal, né?) treinou bastante com a minha fala e a voz até implantar na minha cóclea aos quatro anos de idade. E agora, sou usuária do I.C. no ouvido esquerdo há 16 anos, sempre fui educada nas escolas regulares e convivi com os ouvintes. Por ter maior contato com sons e com os ouvintes, acabei sendo oralizada e admito que de Libras, na verdade só sei o alfabeto. Mas sempre consigo aprender alguma coisa com meus amigos que são bilíngües – só que eles moram longe e conseqüentemente não aprendo bastante por falta de prática. Mas com isso eu não tenho problema, porque tenho a minha fala e audição para me comunicar com qualquer um que seja graças ao Implante Coclear (I.C.). Já passei alguns momentos difíceis que foram identificados nas histórias de vocês, tive, sim, o preconceito, mas não acentuou, pois tenho amigos que sempre estiveram ao meu lado e também nunca liguei para as pessoas que pensam ou fofocam sobre mim porque não preciso saber disso, portanto sei o que sou e sei que eles são ignorantes.
Claro que tive alguma dificuldade por conta da timidez, pois tinha vergonha de falar por causa da diferença de minha voz e agora sou mais solta e não ligo para isso. Ficava perdida nos assuntos com o grupo ouvinte, mas perguntava para minha amiga o que eles estavam falando e já me entrosava na conversa, tentava acompanhar labialmente os professores. Isso tudo é só se esforçar com o tempo e fazendo a fonoterapia com determinação, é assim que faço até hoje.
Ah, eu não sou contra aos surdos sinalizados e não tenho preconceitos, pois nos dias de hoje ainda tem o atrito entre ouvintes e usuários de IC com os surdos sinalizados. Tenho amigos que são sinalizados e não usuários de Implante coclear e sempre respeitei-os, e também fiz a minha parte ajudando-os a entender melhor o implante coclear.Consegui sim encorajar alguns a fazer, mas tem outros que ainda não confiam no IC. Enfim, estou aqui sempre à disposição para ajudar alguém sobre isso.
Atualmente, faço curso de Farmácia, ainda no primeiro semestre, tenho 19 anos e sou muito feliz, tenho amigos verdadeiros, família maravilhosa e o I.C. já bastam para a minha vida ser boa! Ou seja, tenho muito orgulho de ser eu !
“A Bianca me pegou de surpresa, eita menina danada!!! Ela é muito saída, acho que essa auto-estima lá em cima foi decisiva na vida dela, que nunca se comportou como coitadinha. Nós (eu, o pai e o resto da família) sempre a tratamos igual à irmã. Quando nasceu, ela corria risco de vida por conta da hepatite, então a surdez (que descobri quando ela tinha 15 dias) passou a ser algo muito pequeno. Ela me ajudou na minha profissão, pois passei a ter a experiencia de mãe de deficiente auditivo e com isso pude lidar melhor com as mães de meus pacientes. Quando conheci o implante coclear ela tinha 2 anos, mas naquela ocasião só se implantava com 4 anos. A Bianca ela já falava quando fez o implante, mas a articulação era muito ruim, por falta do feedback auditivo, os aparelhos davam para ela apenas sons fortes, mas não percepção de fala.
Quando ela fez um ano de implante teve que retirar pois teve uma otite horrível! Foi muito sofrido, mas não nos fez desistir do IC. Seis meses depois ela implantou novamente. Bianca é uma garota totalmente antenada com o seu tempo, cheia de amigos, sabe inglês, dançou ballet, viaja sozinha, já foi pra fora do Brasil…enfim, tudo que todas as garotas da sua idade fazem. Ela é muito resolvida e feliz!
Atualmente faz fono para um trabalho específico de voz, com um colega. Usa o sistema FM na sala de aula, o que ajuda muito. Acho que o principal fator do sucesso de Bianca é a atitude dela frente ao mundo! Atuamente faço parte de um grupo de impalnte coclear em Itabuna, me coloco à disposição para qualquer ajuda ou informação. Parabenizo a iniciativa deste blog.
Achei uma das histórias mais lindas sobre o IC que já vi. Humana, poética, simples e um exemplo de sucesso!
E que espero, do fundo do coração, que seja um estímulo à muita gente!
Beijinhos sonoros,
Lak