A roupinha diz: Cão Ouvinte em Treinamento - Trabalhando. O fone de ouvido foi exigência do próprio Lupito, que compreendeu isso como isso como om "ouvinte" do nome.
Recentemente, vi várias reportagens sobre ampliação de projetos de cães guias, que até ano passado, eram apenas 60 no Brasil. Um absurdo, num país que tem, segundo o censo de 2000, 16,6 milhões de deficientes visuais, dentre os quais 150 mil declararam-se cegos. Não estou a par do Censo de 2010, não sei se houve perguntas sobre deficiência visual no questionário. Sei que de deficiência auditiva, não havia nada.
E, ao ver essas noticias, fiquei feliz por meus amigos DeVis, mas reconheço que meu coração sentiu aquela pontinha de aperto de perceber que ainda não existe nenhum projeto de treinamento para cães ‘cuidadores/acompanhantes’ de surdos, chamados de Cães Ouvintes ou Hearing Dogs. (se quiser saber mais, clica ali).
Mas, dizem que quando a gente pede algo aos deuses (sou hinduista!) com vontade, nossas preces são atendidas e, recentemente, recebi um email de um Cinotécnico e Consultor Comportamental que tem o interesse de trazer esse treinamento para o Brasil.
Marcamos de conversar, para me contar do projeto e eu falar um pouco sobre deficientes auditivos.
Da parte do projeto, ele me contou que o treinamento é relativamente simples, comparado ao treinamento dos cães guias. Leva em torno de 8 a 12 semanas (com até 6 meses de treinamento), conforme as necessidades do surdo (porque todo o treinamento é feito em cima do que o dono precisar). Também soube que, este projeto específico, é uma experiência de ajuda mútua, porque os cães treinados por eles são cães que estão disponíveis para doação, chamado Projeto Segunda Chance. Como o treinamento é bem mais simples, qualquer cão, de qualquer idade, raça (ou falta dela) e tamanho pode ser treinado para ser um cão assistente de surdos.
Da minha parte, expliquei que seriam necessários dois treinamento distintos: para obedecer comandos de voz (no caso dos oralizados e deficientes auditivos de menor grau, que queiram um cão treinado) e para obedecer comandos manuais (para surdos sinalizados/usuários da Líbras). Falei de algumas dificuldades que eu tenho no dia a dia, como por exemplo, poder ficar sem aparelho em casa, mas me preocupar com a campainha ou o interfone tocarem. Ou que não ouço o despertador (tem opção em vibracall, né? Mas acabo usando o celular dentro da fronha). Ou que me preocupo de não ouvir o alarme de incêndio, caso esteja sozinha em casa. Enfim, são coisas que a gente acaba sendo privado no dia a dia, mas que a maioria das pessoas nem percebe essa dificuldade que podemos ter…
Por enquanto, o projeto está em andamento e os cães ainda não começaram a ser treinados. Se quiser conhecer mais sobre o trabalho do Nucleo Pet.
Mas aproveito para perguntar: se você (deficiente auditivo ou que convive com um D.A.) pudesse ter um cão assistente, o que acha que gostaria que ele fosse apto a te ajudar?
Vou divulgando conforme tiver informações sobre o andamento do projeto, ok?!
Beijinhos sonoros
Lak
Como o objetivo do blog é divulgar a condição do surdo oralizado, com suas particularidades, seus problemas, esse texto não podia ficar de fora.
A autora é a estudante de fonoaudiologia Sheila Carvalho, mãe da Amanda, surda oralizada de 6 anos, que teve matrícula recusada numa escola por não utilizar a Líbras – já que ela tem perda progressiva, foi oralizada desde cedo, utiliza aparelhos auditivos e o Sistema FM supre suas necessidades. E, ainda assim, a escola só aceitava a matrícula dela, se ela fosse enviada para a unidade especial de surdos sinalizados.
Eu evito falar sobre surdos usuários da Líbras, porque não é um universo do qual faço parte e não quero de forma alguma desrespeitar as necessidades deles. Mas, acho que a diversidade que existe entre as pessoas com deficiência auditiva deve ser respeitada. E não é impondo que todo e qualquer deficiente auditivo utilize a Líbras no dia a dia que se respeita alguma coisa. Surdo oralizado existe e tem direito de não fazer uso da Líbras no seu dia a dia. Existe outros recursos que suprem as nossas necessidades e devemos ser respeitados pelas nossas particularidades.
Sheila não aceitou a imposição da escola e procurou outro colégio, onde Amanda foi bem aceita conforme sua condição.
Eu mesma perdi a audição em idade escolar e estudei até a faculdade usando somente a leitura labial e sempre fui uma aluna excelente, portanto, a condição do aluno deve ser respeitada conforme ele consiga acompanhar as aulas. Não, não houve perda nenhuma para a turma o fato de eu estar na sala de aula, porque eu não exigia atenção especial dos professores e tinha mais facilidade de compreender as coisas do que muito aluno ouvinte. Portanto, se o aluno com deficiência tem condição de acompanhar as aulas, ele tem o direito garantido por lei de estudar onde for melhor para ele e não se pode impor que ele vá para outro tipo de estabelecimento de ensino diferente do que ele precisa.
O porquê de tanta demora para postar sobre a audiência…
Infelizmente algumas vezes precisamos agir com cautela mesmo estando totalmente certos de nossos direitos e amparados legalmente.
Orientada judicialmente, aguardei alguns prazos e resoluções dentro do MP e hoje fui liberada para divulgar.
Bem, após minha denúncia ao Ministério Público Estadual – Direitos Humanos e do Deficiente recebi a comunicação da audiência com um representante do Colégio e na data marcada compareci ao MP juntamente com minha filha.
Qual foi minha surpresa pois ali na sala de espera estavam a diretora do Colégio Rio Branco unidade Higienópolis, Thaís Sant’Ana e pasmem, 2 advogados…
Me trataram com desdém e olhar petulante…
Sequer olharam para minha filha, desprezo total… Me fiz de desentendida e aguardei anunciarem nossos nomes.
Quando entramos na sala de audiência, enquanto nos acomodávamos o Promotor conheceu, conversou um pouco e brincou com minha filha e depois encaminhamos ela para outra sala para que ela não participasse da audiência.
A audiência começou da seguinte forma:
Promotor: “Se eu não entendesse tão bem de inclusão até ficaria acuado diante da senhora e dois advogados, então quero saber se vocês vieram para uma ‘boa briga’ ou uma ‘boa conversa’. “
Que clima !!!
O tempo todo na audiência a Sra. Thaís e seus advogados tentaram passar uma imagem de “mal entendido” e que não haviam discriminado e nem negaram vaga para minha filha na escola pelo fato dela ter deficiência auditiva.
Inventaram várias desculpas que a todo momento eram rebatidas pelo Promotor que inclusive notava o nervosismo dos representantes do Colégio Rio Branco em suas falas e suas mãos trêmulas em cima da mesa.
O discurso que a forma de inclusão deles é a melhor que existe pois todo surdo “precisa de LIBRAS pois sem ela eles ficam sem identidade” e não serão ninguém no futuro e todo aquele blablabla que bem conhecemos de cultura surda…
O Promotor perguntou quantas crianças com deficiência existem matriculadas na Unidade Higienópolis e a resposta foi: “Nenhuma, pois nunca tivemos procura…”
Posso ‘traduzir’ essa frase após ter conversado com outras pessoas que não quiseram denunciar mas que passaram pelo mesmo processo que eu naquela “instituição de ensino”: Não temos nenhum deficiente em nossa escola (embora nosso prédio é acessível – sim, o prédio e não as pessoas e nem a mentalidade delas) pois quando a família deles nos procuram nós com todo ‘jeitinho’ fazemos com que desistam da idéia de matricular em nosso colégio pois não teríamos as condições necessárias que esse deficiente necessita, o melhor para esse deficiente é que ele vá para uma instituição que tenha essa preparação e quem sabe, num outro momento poderemos lhe fazer o favor de aceitar seu filho deficiente em nosso tão pomposo colégio.
Logicamente o Promotor não aceitou tantas desculpas esfarrapadas e a todo momento repetia que se julgasse haver dolo, que a pena era de “x” anos de reclusão e ele aplicaria. Houve um momento que se não fosse tão asqueroso por parte da Sra. Thaís eu teria uma crise de riso. O Promotor perguntou: “Como é o processo de inclusão caso chegue uma criança deficiente e a família solicite a matrícula?” A Sra. Thaís começou neste momento a se perder nas palavras e formas de responder a esta pergunta, já que não possui inclusão nesta escola, e solta uma pérola digna de publicação internacional relatando que existe no Colégio Rio Branco uma profissional contratada exclusivamente para atender aos portadores de QUALQUER DISTÚRBIO e QUALQUER TIPO DE DEFICIÊNCIA, uma ESPECIALISTA e começou a inventar um nome para este cargo… Só me lembro que o nome do “cargo” tinha cinco palavras totalmente sem pé nem cabeça, o Promotor irritou-se e pediu para que ela respondesse novamente, então a diretora disse rapidamente e muito nervosa: “Esse é o nome do cargo que nós demos à ela…” Com certeza se ele pedisse para citar o nome novamente ela não saberia… Neste momento o Promotor repetiu que poderia mandar prendê-la e que ele estava espantado pois era “muito estranho” visto que em nenhum lugar do mundo existia esse profissional a qual a Sra Thais se referia… Acredito que esta falta de postura e atitude patética foi a que mais me chocou nesta audiência…
Os advogados então, cada um falava mais besteira que o outro… Num certo momento um deles questionou que na verdade o colégio não poderia aceitar minha filha pois precisaria usar o sistema FM na sala de aula e isso era um tipo de recurso que precisaria de uma pessoa treinada para tal (ele sequer deu-se ao trabalho de pesquisar o caso e o que era um sistema FM) e que a escola não era ‘obrigada’ a ter uma pessoa assim em seu corpo de funcionários…
Foi quando eu disse: Quer ver como sua escola NÃO CUMPRE A LEI e NÃO É INCLUSIVA???
E se minha filha fosse uma surda sinalizada, usasse LIBRAS? Ela seria aceita na unidade Higienópolis???
Ele disse: não, pois temos uma “UNIDADE PRÓPRIA E ESPECIALIZADA EM EDUCAÇÃO DE SURDOS”
Diante disso, pedi permissão ao Promotor para citar a Lei de Inclusão onde a escola teria que providenciar um intérprete em LIBRAS para ela em sala de aula caso ela usasse essa modalidade de comunicação e não segregá-la em um local somente para surdos usuários de LIBRAS e que, ao contrário do que ele havia citado, existem surdos que não utilizam LIBRAS e que usam a linguagem oral e que desta forma, o termo “unidade especializada em educação de surdos” está incorreto pois existem surdos usuários de LIBRAS, surdos bilingues e surdos oralizados e eles não prestam educação em todas estas modalidades de educação.
Encerrei perguntando se algum deles sabia se comunicar em LIBRAS, e se eles entendiam alguma coisa de verdade sobre surdez e suas implicações, o que os deixou constrangidos pois nenhum sabia e então propus a seguinte reflexão:
“Se nesta audiência existisse sentado de lado, sem poder fazer leitura labial, um surdo que somente usasse LIBRAS, diante da realidade que aqui nesta sala ninguém sabe se comunicar usando LIBRAS, ele estaria participando ativamente desta conversa?”
Todos permaneceram calados e acabaram por responder que esta ‘pessoa’ não teria participado e ficaria “complicado”. Então me virei ao Promotor e disse: Se nesta sala estivesse ainda minha filha, surda oralizada, colocada de costas para nós, ela teria participado ativamente da conversa, limitada ao vocabulário e discurso que não fazem parte ainda de seu cotidiano devido o teor aqui exposto. Então eu lhes pergunto: Onde está a inclusão de vocês? Pois o surdo oralizado pode ser discriminado em sua escola, mas ele convive em igualdade na sociedade que é maioria ouvinte e não sejamos hipócritas, um surdo sinalizado acaba muitas vezes dependendo de um intérprete e o surdo oralizado não depende de ninguém. Em um simples exemplo situacional dá para vocês entenderem aonde quero chegar e que a desculpa que minha filha não acompanharia a sala de vocês é ridícula e infundada.
Logicamente, deixei claro que nada tenho contra LIBRAS, cada qual tem o direito de escolher o que lhe acha mais conveniente, mas assim como hoje graças a Deus configura CRIME discriminar e rejeitar a matrícula de um surdo usuário de LIBRAS em qualquer instituição de ensino, não vou aceitar que façam isso também com o surdo oralizado.
É inadmissível esse tipo de pensamento retrógrado, ultrapassado e de pessoas com mentes fechadas, mentes segregacionistas escondidas atrás de um folder bonito.
O Promotor fez suas considerações finais onde fui orientada a procurar a Defensoria e entrar com um processo por danos, preconceito, discriminação e tantas outras coisas por tudo que ficou ali claramente caracterizado, entre elas a negativa da matrícula pelo fato da criança ser surda oralizada e também informou que o Ministério Público analisaria o Colégio e seguiria com o processo pois ele também entendeu que a denúncia procedia.
Ainda, lembrei-me agora, o Promotor disse que este sistema está ultrapassado e que a inclusão é um “caminho sem volta” e desta forma o colégio VAI TER que se adaptar e que passou da hora do colégio mudar essa “forma de inclusão” a que eles se referiam… A que eu ‘carinhosamente’ chamei de “A inclusão da exclusão”.
Concluindo, hoje recebi a notificação do GEDUC/MP onde o procedimento foi instruído e está em andamento e solicitei uma reunião com a nova Promotora que já está cuidando do processo.
O que mais posso dizer?
O País está movimentando-se a passos largos, em muitos estados mães de crianças surdas oralizadas começam a entender a força que temos e que somente usando a força da justiça e das leis em favor de nossos filhos é que mudamos normas, criamos jurisprudências e fazemos valer nossos direitos.
ONGs estão sendo criadas, grupos, encontros, listas de discussões, famílias engajadas não só pela causa de sua prole mas também em favor dos menos favorecidos e os com menos instrução e condições de conhecer melhor seus direitos, todos nós somos responsáveis pelas mudanças e pelas melhorias. Hoje são nossos filhos, amanhã teremos nossos netos e estamos também lutando por eles neste momento.
Uma sociedade justa se faz com leis sérias e que beneficiem a todos os indivíduos.
Não me importo se você quer usar LIBRAS, Implante, AASI, Leitura orofacial, ‘sinal de fumaça’, seja lá o que for, mas me importo que cada ser humano seja respeitado, cada um com suas individualidades e liberdade de escolhas e que suas escolhas possam ser atendidas.
Enquanto nossa sociedade cala-se diante de atos como esse do Colégio Rio Branco e de tantos outros, enquanto nossa sociedade torna-se conivente com esse tipo de ABUSO, milhões de dólares andam livremente pelas cuecas, bolsas, sapatos e outros lugares que prefiro não citar… Dinheiro PÚBLICO, dinheiro nosso, que serviria pra proporcionar muitos tratamentos médicos de qualidade, remuneração adequada aos médicos, pagamentos de tratamentos realizados através de convênios – SUS com valores ao menos mais aproximados dos reais, hospitais melhor equipados, educação de qualidade, professores mais qualificados e consequentemente melhor remunerados, menos impostos, mais segurança e melhor qualidade de vida…
Pense: Enquanto você for um ser que aceita todos os “nãos”, conivente e que conforma-se com atitudes injustas você não faz bem nem a si e nem aos outros. Calar-se e não lutar por seus direitos de cidadão não te faz uma pessoa melhor… É isso que você quer ensinar aos seus filhos? Que “o mundo é injusto e que não adianta lutar por nada” ???
A educação e a conscientização de nossos direitos deveria começar em casa e se estender como disciplina nas escolas.
beijos,
Sheila
Ela não é a primeira nem será a última mãe a passar por esse tipo de preconceito, portanto, precisamos divulgar ao máximo, para que outras pessoas tenham informações de como proceder, caso passem por uma situação similar.
Quem utiliza as próteses auditivas convencionais, sistema BaHa ou implante coclear, certamente já ouviu falar no Sistema FM. Mas, quem não é familiarizado com a coisa, pode estranhar o termo. “Ué, mas isso não é coisa de estação de rádio?”
Ao contrário do que se pensa, quem não ouve naturalmente e depende de próteses auditivas internas ou externas, sofre muito mais que ouvintes em ambientes barulhentos.
Pensa assim, você que tem audição natural, já sofre com ambientes barulhentos, tipo acompanhar o que a professora diz numa sala de aula onde outros alunos cochicham, onde dá para ouvir também o barulho do trânsito, das outras salas, etc etc etc..
Agora, some isso ao fato que qualquer sistema de reprodução de um sentido tem limitações. O IC, por exemplo, filtra parte dos barulhos ambientes, porque simplesmente não consegue processar todos os sons reproduzidos, muito menos separadamente, então o jeito é buscar alternativas para driblar esse impasse.
Por mais que a tecnologia venha avançando nas últimas décadas, ela está longe de reproduzir fielmente inclusive a capacidade cerebral de abstrair o excesso de informações que chegam ao mesmo tempo no córtex cerebral auditivo, além do fato que os aparelhos captam todos os sons ambientes, sem necessariamente conseguir reproduzir fielmente a altura exata de cada um deles, os sons muitas vezes ficam próximos demais e acabam meio mesclados…
Então, o que fazer?
A opção foi pensar uma maneira de restringir a quantidade de sons captados pelos aparelhos, de modo que os usuários possam ouvir apenas o necessário na ocasião. Seja a voz do professor numa sala de aula, seja o som que vem do telefone ou da televisão, etc. Para que isso seja possível, foi criado alguns aparelhos como por exemplo, o Sistema FM e o Hearing Loop, aqui chamado de “arco auditivo”.
Apesar de serem sistemas diferentes, ambos fazem a mesma coisa: captam o som e os convertem em ondas específicas para serem captadas por próteses como os AASIs, os Implantes Cocleares e o BaHa, através da bobina magnética (uma peça específica de captação de sons).
No caso do Sistema FM, trata-se de uma opção individual. O usuário pede para o professor, por exemplo, pendurar um pequeno microfone no pescoço e acrescenta uma peça no aparelho que utiliza. O som ambiente deixa de ser captado, dando ênfase exclusiva à voz do professor. Isso permite que alguém com limitação auditiva drible os ruídos e tenha facilidade de ouvir o que o professor diz.
Para ter uma idéia exata de como funciona o sistema:
Mas, nada melhor que um usuário do Sistema FM para explicar exatamente como ele funciona. Então, pedi à minha amiga Maíra Lenzi para nos contar como é usar tal tecnologia:
“A tecnologia do FM (Freqüência Modulada) consiste em um transmissor (smartlink) e um receptor. O transmissor tem a cara de um mini celular e o receptor pode ser ou o aparelho convencional (AASI) ou o implante coclear. No meu caso uso um AASI do modelo Eleva da Phonak. Juntamente com o aparelhinho convencional, há um encaixe (receptor) que fica logo abaixo do local onde se coloca a pilha. O transmissor eu posso utilizar em várias ocasiões e dependendo da situação, a maneira como utilizo se diferencia. Por exemplo, no caso de um professor/palestrante eu penduro o transmissor nele como se fosse um colar; no caso de uma reunião, eu coloco o transmissor na mesa; se quero ouvir uma música, plugo ele no computador (mas preciso também da letra em mãos para entender por completo), assim como na televisão, basta conectar na entrada do microfone. Há ainda a possibilidade de conectar o transmissor com o celular via bluetooth, então posso me comunicar pelo celular, sem colocar o celular diretamente no meu ouvido, mas estarei escutando via bluetooth. Isso colabora para a ausência das microfonias. Neste recurso eu não uso muito, pois prefiro o uso de torpedos.
Como funciona o FM? Basicamente sinto que o som externo, o som ambiente é praticamente eliminado, focando apenas aquilo que me interessa. Vejamos, no caso em que estou na sala de aula, eu recebo apenas o som da fala do professor e os demais ruídos são eliminados. Isso ocorre quando configuro o transmissor para ‘unilateral’. Se configuro para bilateral, aumento a “amplitude” do som podendo abranger o som para mais de uma pessoa e, assim sucessivamente. Porém, sempre uso o unilateral para captar apenas aquilo que me interessa.
Eu comecei a usar o FM no final de 2008 pelo fato de já estar cansada de ter usar praticamente a leitura labial durante as aulas da universidade. Fiz dois cursos de exatas na federal onde a maioria dos professores do departamento eram estrangeiros, então além disso, tinha que lidar com os distintos sotaques. Entrei na universidade em 2004 e até 2008 eu estudava praticamente sozinha ou tinha apoio de colegas, mas o conhecimento vindo do professor era ínfimo. A partir do uso do FM, confesso que no início eu fiquei mais perdida do que segura, pois era tanta informação que recebia que não sabia como lidar e organizar meus pensamentos. Com o tempo me acostumei muito bem e hoje sou completamente viciada nesta tecnologia. Carrego na bolsa para cima e para baixo, pois aonde eu julgar necessário, eu uso. De todos estes anos nunca tive problema de algum professor utilizar, apenas alguns são mais curiosos em relação a outros sobre qual a real finalidade do FM.
Questionei muito para meus pais o porquê de não ter usado esta tecnologia antes que já existia, porém um pouco mais robusta. A preocupação estava em eu poder participar como um todo na sala de aula, mesmo que não captasse os sons e as falas dos colegas, mas que percebesse que alguém falou. Com o FM (unidirecional) eu focaria exclusivamente no professor, o que não era a prioridade na época. Antes a socialização e a oralização era mais importante do que o simples fato de adquirir o conhecimento.
Assim, o FM juntamente com a leitura labial me permite uma maior compreensão do conteúdo, do que se passa e que na ausência dele me faz uma pessoa mais ausente também. Infelizmente é pouco conhecido entre os próprios surdos e é uma tecnologia disponível em várias marcas de aparelhos auditivos.”
O mesmo aparelho pode ser acoplado ao televisor, rádio ou telefone, livrando-nos de vez dos ruídos que dificultam a compreensão do som.
Mais uma vez, a tecnologia atuando na superação de uma dificuldade!!
Vale lembrar que o aparelho do Sistema FM precisa ser programado especificamente para cada aparelho auditivo (seja o AASI ou o IC), portanto, é imprescindível conversar com a fonoaudióloga que acompanha o seu caso (ou do seu filho, parente, amigo, etc).
O preço pode parecer meio salgado (não sai por menos de R$2000,00), mas existe facilidades de pagamento e até quem recorra no MP para conseguir o aparelho do governo.
É altamente recomendado para crianças implantadas e/ou que utilizam AASI. Quem usa o FM, diz que vale muitíssimo a pena!!
Beijinhos sonoros,
Lak
Esses dias, Sô, do blog SULP (Surdos Usuários da Lingua Portuguesa <- termo usado para todo e qualquer deficiente auditivo, a revelia do momento em que se deu a perda auditiva e o grau desta perda, que tem a Língua Portuguesa como primeiro ou único idioma) escreveu um post sobre os equívocos dos Legisladores que resolvem abraçar a causa de acessibilidade e inclusão, sem ter conhecimento da diversidade das pessoas com deficiência.
Eu canso de bater na tecla que não existe um modelo único de deficiente auditivo, porque são cinco graus de perda auditiva, além dela poder ocorrer em várias etapas da vida, o que resulta em uma diversidade grande entre as pessoas acometidas por essa privação sensorial. E, no entanto, TODOS precisam de adaptações e essas adaptações não podem se resumir as necessidades de apenas um grupo, porque outro grupo terá suas necessidades negligenciadas e no final das contas, haverá gente sem acesso a determinadas coisas.
Para quem não tem deficiência auditiva compreender a situação, pense no caso da legendagem de filmes, há quem tente convencer que todo e qualquer programa/filme/seriado/documentário estrangeiro deveria ser dublado, alegando que parte da população é analfabeta. Isso é um desrepeito às pessoas que estudaram e que preferem ouvir no idioma original, tendo apoio da legenda. O certo é haver as duas opções. O que tem sido permitido oferecendo-se copias dubladas e legendadas, uso da Tecla Sap e Closed Caption dos televisores. Então, por quê reduzir a população a um único modelo de cidadão não-alfabetizado que não sabe ler legenda? Você concorda com isso?
Pois então, segundo o post da Sô, existe um projeto de lei que visa substituir a legenda descritiva para deficientes auditivos – uma legenda especial que, além de traduzir por escrito os diálogos, traduz também os sons ambientes, tais como sirene, buzina, latidos, miados, janela quebrando e até o tipo de trilha sonora – por janelas de interpretes de Líbras, acreditando que todo deficiente auditivo domina perfeitamente essa forma de comunicação.
Antes que alguém se irrite com essa dominação que dei, isso está na Lei da Libras, Lei nº10,436, Decreto nº 5.236 de 24/04/2002, Parágrafo Único: “Entende-se como Língua Brasileira de Sinais – Libras a forma de comunicação e expressão, em que o sistema lingüístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constituem um sistema lingüístico de transmissão de idéias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil.”
E isso é um desrespeito à diversidade dos Deficientes Auditivos, já que deduz que todo deficiente auditivo seja fluente na Língua de Sinais, o que não é o caso. Nem adianta discutir que todo surdo deve aprender Libras e ser fluente nela, porque existem casos diferentes demais para se homogenizar. E pra quem fala, para quem ouve (ainda que sem discriminar auditivamente a fala com clareza) por próteses externas e internas, para quem tem português como Primeiro ou Único idioma, a Líbras não pode ser imposta como única opção. No máximo, oferecida, sem que se crie expectativa de que todos irão se tornar fluente nela a ponto de abdicar o português escrito para compreensão de programa/filme/seriado/documentário estrangeiro e nacionais, na televisão ou cinema.
Da mesma forma que sou contra a oralização obrigatória de todo deficiente auditivo. Sou a favor da escolha. Há espaço suficiente no mundo para co-existência de Surdos que usam Libras apenas, surdos que usam português apenas e surdos bimodais/bilingues.
Eu concordo que os usuários da Libras precisem de janela de interprete e que a legenda não contempla as necessidades deles. Mas não concordo que essas tais janelas sejam a forma de tradução ideal para todo deficiente auditivo. Progamação adaptada deve ser oferecida nos dois tipos de tradução: Legenda em português E Janela de Intérpretes.
Do contrário, não está sendo feita a Inclusão e tão pouco pode-se chamar isso de Acessibilidade!
Sonia , no post do SULP, pede para escreverem para o Senador explicando sobre os dois tipos de deficientes auditivos: Os que usam a Língua Portuguesa e os que usam a Língua de Sinais.
Eu apoio esse manifesto, porque é errado falar em acessibilidade preocupando-se com apenas um lado. Acessibilidade é para todos!
Como ultimamente muitas mães de implantados, pré-implantados e deficientes auditivos tem comentado no blog, tenho refletido muito a respeito de como as mães agem. Sempre percebo como, de uma forma ou de outra, o comportamento delas se parece com o da minha mãe, quando eu perdi a audição.
Já comentei aqui, mas talvez ninguém se lembre, que perder a audição me tornou observadora. Sem a audição como referência, a visão passa a pesquisar o ambiente de forma quase automática. E, apesar de que perder um sentido tenha me desnorteado, talvez pelo fato de eu ser muito nova, não tinha muita compreensão da gravidade da situação. Mas, meus pais, que eram adultos e tinham maturidade e discernimento de sobra para compreender, sofreram muitissimo. E, sendo honesta, o meu sofrimento não chegava aos pés dos deles.
Percebo que mãe e pais são as pessoas que mais sofrem antes da cirurgia do Implante Coclear, mesmo de candidatos adultos. Mexer com a prole de alguém, é mexer com o instinto mais básico da pessoa!
Portanto, quando converso com alguma mãe, percebo que isso é também um aprendizado para mim, uma vez que, como não sou mãe, é difícil compreender o que se passa no íntimo de uma pessoa cujo filho tem uma deficiência. Cujo filho precisa de cuidados especiais. Cujo filho precisa passar por uma cirurgia corretiva. Então, conversar com elas é uma aprendizado imenso, porque elas me dão o ponto de vista delas, que vai me ajudando a, cada vez mais, saber o que elas precisam que eu responda. Não adianta, de forma alguma, eu dizer ‘é, o IC vale a pena porque é melhor do que o AASI’ de forma crua, porque não serão elas que irão usar e elas querem proteger o filho de tudo e nenhuma argumentação lógica vai ser mais forte do que o instinto de preservação da prole.
Este post é, sobretudo, um agradecimento a todas as mães que comentam no DNO, que se abrem a conversar com um implantado adulto. Que se permitem ouvir o que eu tenho a dizer e que me ajudam a compreender melhor o outro lado da história.
Mas, também é uma reflexão particular. Já comentei que não tenho vontade de ser mãe. E isso é uma coisa que percebo que as pessoas tem dificuldade de entender. E sempre tentam argumentar que ‘eu vou mudar de idéia’. Ok, quando mudar de idéia mudei, mas no momento, continuo não sentindo vontade. E ninguém deveria se obrigar a fazer o que não tem vontade. Especialmente quando envolve a vida de outra pessoa, já que não dá pra desistir no meio do caminho ou devolver o filho, então…
Não me incomodo de responder 10382028308292 perguntas sobre isso, nem de ter que explicar pela enézima vez que não existe um motivo, é apenas falta de vontade pura e simples. Mas, me incomodo DEMAIS quando alguém evoca a deficiência como argumento.
Acho absolutamente desagradável alguém dizer “Ah, mas seu marido ouve e pode ajudar”. Se acham que um deficiente precisa de supervisão, então não cobrem filhos dele. É nojento ter que explicar que deficiência não precisa, necessariamente, incapacitar alguém de ter filhos. Ou achar que uma pessoa com deficiência é estupida o suficiente de não pensar nas adaptações que precisa para realizar o sonho da maternidade.
Mais ainda, acho grotesco quando me perguntam “você não quer ter filhos porque tem medo de passar a deficiência pra ele?”. Primeiro, a minha deficiência é adquirida, canso de falar isso, então essa possibilidade não existe. Mas, supondo que existisse, ninguém é obrigado a ter que passar recibo genético pra receber aval de ter filhos. E, caso a deficiência seja genética, nem todo mundo deve se sentir a vontade para falar disso, portanto essa pergunta pode soar como uma invasão de privacidade.
Não acredito, de verdade, que exista obstáculos para se ter filhos, quando a vontade existe. Quem quer ter filhos, encontra um meio. Seja contratando uma babá em tempo integral. Seja fazendo triagem embrionária. Seja por doação de óvulos ou espermatozoides. Seja por fertilização in vitro. Seja por adoção. Para quem quer ser mãe, sempre existe um meio! E se a pessoa quer de verdade, será a melhor mãe que existe, porque quem batalha para conseguir valoriza o que conseguiu. Conheço mães com deficiência que são mães excelentes, incríveis e que superam qualquer expectativa negativa.
Mas, para quem não quer, nenhuma argumentação é o bastante. Vontade a gente tem ou não tem, pura e simplesmente!
Beijinhos sonoros, em especial para todas as mamães que lêem o DNO! Vocês são incríveis!! Obrigada pelos comentários e pela ajuda constante.