Ainda faltam 14 dias – duas semanas – para a ativação do Implante Coclear. Não vou fingir que sou uma pessoa zen, tranquila, blablablá whiskas sachê porque duvide-o-dó que qualquer um de vocês acreditaria, vocês não são bobinhos, certo?
Pensei em coisas que poderiam me acalmar nesse meio tempo, assim tipo, coisas que poderiam preencher o tempo de sobra desses dias, pra eu não sentir a vagarosidade (existe essa palavra?) do tempo daqui até lá. Façamos uma lista então – eu começo e quem quiser, dá sugestões nos comentários.
Voilà:
1. Comer chocolate. Essa é de praxe e, reza-a-lenda, funciona que é uma beleza no quesito conter a ansiedade. O lado ruim é que engorda e pesa no bolso, especialmente se meu gosto for excessivamente refinado (não é) e eu quiser iguarias tipo Godiva.
2. Fazer ginástica. Seria excelente, não fosse que eu sou um bicho preguiça e sempre acho que vou morrer depois do 3 abdominal. Nãooo, passemos pra próxima.
3. Ver filmes. Seria uma boa, né? Rever trocentos mil filmes que eu gosto. A começar por Dirty Dacing, que tenho a edição de aniversário de 20 anos do filme em DVD e até hoje não assisti. Além de muitos outros que eu poderia alugar/pedir emprestado. É, considerável e combina bem com o item 1, somado a pipoca e coca-zero (que lembrem-se, não é droga!)
4. Listar todas as músicas que eu gostaria de re-ouvir. Essa idéia é muito boa, vai? O ruim é que não dá pra saber quando nem SE eu terei sensibilidade auditiva pra tanto e periga eu ficar mais ansiosa ainda. No entanto, a top top da lista seria ouvir:
hehehe eu perdi a audição aos 10 anos, a maioria das músicas que eu quero ouvir são as que eu ouvia na época e, portanto, são músicas infantis.
A letra, pra quem não conhece a música (e não consegue ouvir, pelo motivo que for):
Pato
Vinicius de Moraes
Lá vem o pato
Pata aqui, pata acolá
La vem o pato
Para ver o que é que há.
O pato pateta
Pintou o caneco
Surrou a galinha
Bateu no marreco
Pulou do poleiro
No pé do cavalo
Levou um coice
Criou um galo
Comeu um pedaço
De jenipapo
Ficou engasgado
Com dor no papo
Caiu no poço
Quebrou a tigela
Tantas fez o moço
Que foi pra panela
Sou uma menininha de 10 anos em corpo de mulher de 32. Dá nisso!!
Como já contei por aqui – quem acompanha o blog sabe, mas quem está chegando agora, puxe uma cadeira e leia com calma – eu voltei recentemente a estudar inglês.
Eu falo francês razoavelmente bem – embora eu tenha voltado a estudar recentemente também, porque a falta de prática faz a gente esquecer tudo – e fiz intercâmbio de espanhol em Madrid (tá, também voltei a estudar espanhol recentemente, porque também já estava esquecendo tudo, mas isso faço sozinha, porque não tem dinheiro que chegue pra estudar 3 idiomas de uma vez); mas o inglês sempre foi meu calcanhar de aquiles, porque embora brutalmente necessário, a afinidade com os idiomas latinos é maior. Especialmente por conta da leitura labial, já que – segundo a Diefani, do blog Igualmente Diferentes, que é surda oralizada, brasileira e mora em New Jersey – os idiomas latinos são mais “labiais” que o inglês, cujas diferenças de sons se concentram na língua (o músculo bucal mesmo).
Sábado de madrugada, depois de ter estudado algumas horas, entrei no MSN e fiquei conversando sobre idiomas com um amigo, que disse que estava curioso de saber como eu aprendia a fonética. Expliquei que a Cris, minha fantástica professora de inglês e francês (ela é personagem cativa do blog, basta dar uma lida em textos antigos) me ensinou a ler os símbolos fonéticos que são usados em dicionários e que representam o som específico daquela letra e/ou sílaba.
Para vocês terem uma idéia clara do que se trata:
As vogais simples são, obviamente, o som das vogais que fazemos (alguns não existem referências específicas em português, como o caso do último exemplo da primeira fileira. É um som entre A e É, que eu procuro fazer falando AAAA, com os lábios postos em posição de É). As que precedem “:” são prolongadas. E ditongos são, como vocês sabem, sons de duas vogais seguidas.
O vídeo abaixo ajuda a ter uma idéia melhor – e é feito específicamente para quem faz leitura labial, porque quem não ouve bem, tem uma etapa a mais no aprendizado de um idioma: gramática, pronúncia e leitura labial.
Difícil? Talvez, mas sou da opinião que a VONTADE supera qualquer dificuldade. Querer é poder! Ou a gente morre tentanto hihihi
Ontem falei sobre a minha turma, os surdos oralizados. Há quem diga que o surdo oralizado está mais para deficiente auditivo do que pra surdo, porque muitos vêem a denominação “surdo” já embutindo o mudo, talvez porque antigamente, quem tinha mais facilidade de se comunicar com ouvinte sentisse necessidade de esconder/camuflar a deficiência. Mas hoje em dia, surdo oralizado usa o termo surdo especialmente para as pessoas saberem que ele não ouve mesmo com aparelho, o que nos diferencia dos deficientes auditivos, que conseguem contornar a deficiência com próteses.
Mas, enfim, chega a vez de falar sobre os surdos que costumam prevalescer na imagem mental que se faz de quando se pensa numa pessoa que simplesmente não ouve: os sinalizados.
Uma coisa que é importante enfatizar é que, não importa o quanto você ache que seria melhor os pais lidarem com a surdez de uma criança dessa ou daquela forma, isso é uma decisão de foro íntimo familiar, portanto não cabe a ninguém julgar a escolha dos outros. Se você acha que preferiria ter um filho oralizado ou sinalizado ou implantado, excelente, mas essa decisão vale apenas para você.
A única coisa que eu acho essencial que a familia faça é se adaptar para a escolha feita. Se os pais escolherem pela oralização, não podem deixar todo o trabalho para a fonoaudióloga e lavarem as mãos. O trabalho de oralização de uma criança surda pré ou peri-lingual continua mesmo em ambiente familiar. A participação dos pais faz diferença sim, porque a criança fica apenas poucas horas por semana no consultório da fonoaudióloga.
O mesmo vale para os pais que preferem que a criança aprenda a língua de sinais e conviva somente com seus semelhantes, os pais e familiares, diante dessa escolha, tem obrigação de aprender com fluência a língua de sinais, uma vez que a criança precisa se comunicar também com sua família. Não é incomum saber de relatos que os pais optam pela língua de sinais para o filho, mas não se esforçam para aprender o idioma!
Uma criança surda é uma criança com necessidade especial e, portanto, cabe às pessoas sem deficiência nenhuma se adaptarem à ela, não o contrário.
Enfim, eu gostaria de explicar as principais diferenças do Português e da Líbras, para que vocês pudessem compreender as particularidades da Língua de Sinais antes de adentrarem no universo do Surdo Sinalizado, porém, minha amiga que pode me ajudar com essa explicação ainda não teve tempo e, vou ter que colocar o carro um pouco na frente dos bois.
Mas uma coisa que deve ficar clara é que a língua de sinais não é apenas uma forma não oral de comunicação, ela é um idioma com estrutura própria e, portanto, você deve ver o usuário exclusivo dela (ou até mesmo um bilingue) como alguém que simplesmente fala outro idioma e nem tudo o que você fala em português fará sentido pra ele, como faz para você.
Ainda que o mais fácil fosse que todo mundo soubesse o básico da Líbras para comunicar-se com eles, a curto prazo isso é praticamente impossível – ninguém aprende o idioma de um dia pro outro, por exemplo – mas nem por isso se deve fugir de uma pessoa surda sinalizada e evitar qualquer tipo de contato com ela.
Vão aí algumas pequenas dicas fornecidas por um colega de trabalho usuário da língua de sinais:
- Se você quiser falar ele e não souber por onde começar, a dica é a mesma de falar com um oralizado: Fale de frente pra ele, devagar e com naturalidade.
- Se ainda assim, você perceber que ele não lê bem seus lábios, apele pro papel e caneta.
- Nem todas as palavra existem ou são iguais em líbras, portanto, procure falar com clareza e de forma simples. O importante é que a mensagem que você quer passar seja bem recebida. Lembre-se, o idioma dele é diferente do seu, simples.
- Se você não conseguir entender o que ele fala – sim, alguns conseguem falar oralmente, mas nem sempre de forma compreensiva para quem não está acostumado a falar com ele – peça para ele escrever.
- Substituir a conversa oral por programas de conversação instantânea ou email, pode ser uma excelente saída para quem trabalha com um surdo sinalizado.
- Mímicas simples podem ajudar no diálogo, mas cuidado, uma mímica pode ser equivalente a um sinal de líbras com significado diferente e até ofensívo. Não abuse disso e jamais ache que mímica feita de qualquer jeito é língua de sinais.
- Evite falar com outras pessoas olhando pra ele ou apontando na direção dele. Como um surdo sinalizado nem sempre entende o que você fala, ele pode achar que vocês estão falando dele e ficar incomodado.
- Jamais faça piada da língua de sinais na frente dele. Muitos surdos realmente se sentem ofendidos por acharem que estão sendo alvo de chacota. Eu mesma já aturei uns babacas que fizeram isso porque viram meu aparelho. Mal sabiam eles que eu lia os lábios e entendi as piadinhas grotescas. Uma pessoa com deficiência auditiva não merece menos respeito.
No mais, é abusar da coragem. Pessoas diferentes daquilo que você está acostumado não são menos interessantes, portanto, vale a pena passar por cima do medo, do receio e da vergonha, expandindo seus horizontes para amizades jamais imaginadas.
Beijinhos
Lak
p.s. Quem souber mais dicas, fique a vontade de acrescentar nos comentários. Meu blog, seu blog.
Já comentei que eu perdi a audição aos 10 anos, como sequela de caxumba. Tenho perda auditiva bilateral (nos dois ouvidos, meio óbvio, mas não custa explicar) severa a profunda pós-lingual e, quando meus pais procuraram médicos para tratar - em vão – minha condição, foram aconselhados a me manter o mais longe possível de escolas especiais para crianças surdas.
Ainda que não seja sempre esse o conselho dos médicos – sei de casos de crianças que perderam a audição nessa faixa etária e foram inseridas na Comunidade Surda – no meu caso, foi ao mesmo tempo excelente e ruim. Excelente, porque graças a isso, eu me tornei a pessoa que sou hoje, uma pessoa completamente inserida na sociedade comum; mas ruim no sentido que, por conta dos dois únicos estereótipos que a maioria esmagadora de pessoas conhece, deficientes auditivos ou são surdos sinalizados ou são idosos com baixa audição, comumente ironizados em programas de comédia. E, como eu não era nenhum dos dois, toda hora eu tinha (tinha, né? hoje em dia não faço mais isso, né? hihihi) que contar a minha história para justificar por A + Z porque eu não correspondia aos estereótipos.
Em 2004, quando o Orkut começou a bombar, vi um rapaz indignado numa comunidade, por conta de um tópico estúpido que perguntava: “Como surdo-mudo pensa?”, com respostas do naipe “Surdo não pensa” e eu, junto com ele, pus-me a explicar que não apenas surdos pensam, como a visão desse tipo de pessoa (as que respondiam o tópico, não os surdos) tem uma visão limitada e preconceitosa de pessoas que nada mais tem do que uma limitação sensorial.
O rapaz acabou me contando que era surdo e me chamou para conversar no MSN. Depois de uma boa conversa – na qual contou-me sua história, surdo desde o nascimento, ensinado a falar desde cedo, formado em universidade, estudante de inglês, noivo e hoje casado e com filhos – ele me falou de uma comunidade do Orkut onde, certamente, eu iria me identificar com as histórias, a Surdos Oralizados. Comunidade onde hoje, sou có-proprietária e moderadora e que é a minha fonte de inspiração pro blog.
Foi lá que eu conheci o termo acerca da minha condição: Nem surda sinalizada nem deficiente auditiva, sou surda oralizada!
Surdos oralizados tem pouco espaço na mídia, porque afinal de contas, não somos ouvintes nem utilizamos a língua de sinais e, pra maioria das pessoas, não tem nada de engraçado numa pessoa que fala com ou sem sotaque estranho, lê lábios perfeitamente (ou quase) e, raramente comete gafes (embora tenha consciência disso e, quando necessário, não tem o menor pudor de pedir pro interlocutor repetir).
Há sempre quem argumente que surdos oralizados só o são, porque adquiriram a fala auditivamente e só depois tornaram-se surdos, mas não é verdade, existes surdos oralizados pré e peri-linguais, que tem uma fala tão boa quanto a de um surdo pós-lingual. Eles aprenderam e treinaram a fala através da fonoterapia, com direito a acompanhamento familiar (o Raul contou bem sua história aqui no blog). A oralização é possível independente do estágio da aquisição da fala que a surdez ocorreu.
Quando um pai/mãe aparece na comunidade perguntando se o filho dele for oralizado, vai ter a voz igual a de um ouvinte, na tentativa de camuflar a deficiência, nossa resposta é sempre a mesma: Não, a menos que ele seja implantado (explicarei o Implante Coclear ainda essa semana) cedo e tenha um ganho auditivo excelente (pode ocorrer sim!!), um deficiente auditivo jamais deixa de ter uma condição própria e que, mais importante do que camuflar a deficiência, ele precisa aprender a sentir-se confortável com ela, adaptando sua vida às necessidades próprias dela. E mesmo que o implante seja perfeito, sem o aparelho (a parte externa do implante é removível e não pode, por exemplo, molhar), o deficiente auditivo sempre terá deficiência auditiva, portanto, é bom saber lidar com essa limitação, mesmo que ela faça parte somente de uma parte ínfima da vida da pessoa.
Para lidar com um surdo oralizado, as dicas são:
- Fale com naturalidade, afinal, ele lê seus lábios e quanto mais natural for sua maneira de falar, melhor será a compreensão. Se você tiver o hábito de falar rapidamente, tente diminuir um pouco a velocidade.
- Não exagere na articulação. Um surdo oralizado lê os lábios e a posição da língua, não a movimentação do maxilar.
- Não ache que porquê ele usa aparelho, significa necessariamente que ele compreende o que você diz, auditivamente. Portanto, procure falar sempre de frente pra ele, de maneira que sua boca esteja visível.
- Se ele lhe pedir para repetir, não é por má vontade de lhe compreender. A leitura labial não é igual a ouvir, ela pode demorar um pouco mais na compreensão ou ser interrompida por coisas bobas, tipo uma simples virada momentânea de cabeça.
- Se você não compreender algo que ele disser, avise. Ele é consciente da limitação dele e não teria porque se ofender com um simples “por favor, repita?”.
- Evite falar com eles em locais pouco iluminados. A iluminação adequada é essencial para a leitura labial. Vale qualquer improvisação: lanterna, luz de celular, etc.
- Ler os lábios via espelho é perfeitamente possível. Estando no carro, num cabelereiro ou numa loja, por exemplo, se o espelho estiver posicionado de maneira acessível, pode abusar dele sem dó.
- Ler os lábios de lado é difícil. De cabeça pra baixo, é praticamente impossível. Se a posição não for favorável (vai saber onde a conversa se dá, né?) aguarde estarem com as cabeças viradas pro mesmo lado.
- Falar mastigando, além de não ser de boa educação, torna a leitura labial sofrida, porque vários movimentos feitos não fazem parte da conversa, portanto, é melhor esperar engolir antes de prosseguir o diálogo.
- Nem sempre um surdo oralizados lida bem com piadinhas. Já vi reclamarem, inclusive aqui no blog, que ser chamado de “surdinho” é ofensivo. Portanto, a menos que você tenha intimidade e cartão verde, evite piadas com a condição da pessoa, mesmo que ela faça piada consigo mesma.
- Conversar numa balada com luz estroboscopia é complicadissimo. Procure um lugar melhor iluminado.
- Se você tiver curiosidade de conversar em Líbras, pergunte se a pessoa tem fluência nesse idioma. Se ela tiver (for bilíngue) terá prazer de conversar com você dessa forma. Do contrário, seria como exigir que ela converse num idioma que ela não tem fluência. Lembre-se, mímica feita de qualquer jeito não é língua de sinais e nem sempre um oralizado acha divertido brincar disso.
Quem lembrar de alguma outra dica, fique a vontade de comentar. Sugestões são sempre bem vindas.
Outra coisa, não posso falar por todos os surdos oralizados do planeta, mas falo por mim, se você tem curiosidade de saber sobre a história dele, pergunte. Na duvida, o faça de maneira educada: “Você se importa de falar sobre isso?”. A maioria das pessoas costuma sentir-se à vontade pra falar de sua condição, quando a abordagem é acolhedora. Melhor do que ficar deduzindo, por exemplo e soltar um grosseiro “ah, mas todo surdo nasce surdo, né?”.
Beijinhos,
Lak
Amanhã, será a vez da língua de sinais (Líbras = Língua Brasileira de Sinais), pois assim como a oralização e implante, é parte importante do universo da deficiência auditiva e, para quem tem interesse de saber bastante sobre essa deficiência, ela não pode ficar de fora.
Sei que eu já abordei sobre os tipos de surdos, mas resolvi essa semana falar mais sobre o sentido técnico da deficiência auditiva. Começo fazendo um “glossário” sobre a diversidade dentro dessa deficiência.
O título do post remete ao livro de Antônio Cyrillo Gomes, que já faz uma introdução explicando porque, dentre tantas deficiências, a deficiência auditiva é, de longe, a menos respeitada socialmente.
Primeiramente porque, ao contrário das deficiências física, cerebral e visual, ela é menos visível, segundo, porque não é uma deficiência que, a primeira vista, afeta a independência da pessoa que a possui.
No entanto, passada essa impressão errônea inicial, a deficiência auditiva é, assim como todas as outras, uma deficiência, ou seja, falta/ausência de algo. No caso, o sentido da audição, responsável por 20% das informações sensoriais que chegam ao cérebro. O mundo auditivo não é tão ínfimo a ponto de se desqualificar a deficiência auditiva como privação de um sentido e dizer que um surdo é menos deficiente que um cego ou cadeirante. Um deficiente auditivo é privado de total ou parcialmente de todas as infomações sonoras, seja a voz de outros seres humanos, seja o sentido de alerta (aproximação de outras pessoas, animais, veículos), seja pelas pequenas coisas que se faz dependendo da audição: saber que a torneira do banheiro foi esquecida aberta estando sem contato visual, saber que a água da chaleira já ferve estando fora da cozinha, seja pela campainha que toca, seja pelo contato telefônico numa emergência.
Dizer que um deficiente auditivo não corre riscos porque a deficiência auditiva só o afeta no que se refere a comunicação interpessoal é uma visão limitada. Ele não ouve um alarme de incêndio, nem um carro ao atravessar a rua. Ainda que a sobrevivência dele seja menos ameaçada, não significa que um deficiente auditivo seja totalmente independente.
Ainda assim, a maior dificuldade que se encontra para quem tem essa deficiência, é fazer com que as pessoas compreendam a própria diversidade dentro da deficiência, seja por falta de informação/convívio com um deficiênte auditivo, seja pela mídia que só aborda um tipo de surdo: o sinalizado, usuário da lingua de sinais.
No entanto, existem diversos grupos dentro desta deficiência, de tal forma que resumir todos aqueles que possuem deficiência auditiva como usuário de lingua de sinais seria a mesma coisa que resumir todo deficiente físico a cadeirantes, que possuem essa deficiência por queda de escada, esquecendo que existem diversas causas para a deficiência física, além de diversas maneiras de se lidar com ela: Existe o deficiente físico congênito e adquirido, o usuário de cadeira de rodas, os de muletas, os de bengalas, os de próteses; assim como existe:
- Deficiente auditivos conforme o grau de perda (leve, moderado, severo, profundo): varia conforme o grau de perda auditiva, além de uma pessoa poder tem mais de um grau, por diferentes frequências. Eu, por exemplo, tenho deficiência severa em frequências graves / médias e profunda, em frequências agudas; o que impede a plena compreensão da fala somente com AASI (prótese auditiva), porque os sons são recebidos de forma distorcida pelo cérebro. E não, não é uma questão de hábito, o AASI, por si só, não resolve totalmente a minha perda, é caso de implante coclear.
- Deficiente auditivo congênito ou adquirido: tal como explica o nome, a deficiência ser por causa genética (hereditariedade) ou doença gestacional (rubéola, por exemplo); peri-natais (traumas obstétricos) ou pós-natais: provocada depois do nascimento por alguma doença (meningite, sarampo, caxumba, otosclerose, tumores etc), intoxicações (antibióticos ou substáncias ototóxicas) ou traumas(queda com rompimento de tímpano), etc
- Deficiente auditivo por estágio: como a fala e a audição são intimamente ligadas, conforme o estágio da aquisição da fala em que a perda auditiva ocorreu, o deficiente auditivo é classificado como pré-lingual (quando ocorreu antes dos 2 anos de idade), peri-lingual (quando a falta já estava sendo formada, mas não chegou a ser completa) e pós-lingual (quando a aquisição da fala, por via auditiva, já havia sindo completada).
- Deficiência auditiva por patologia: essa variação indica onde existe avaria na condução da audição, podendo ser provocada por problemas no tímpano, pela comunicação óssea (ossinhos do ouvidio: martelo, estribo e bigorna), problemas na cóclea e/ou células nervosas (que enviam a mensagem ao cérebro), nervo auditivo ou até recepção cerebral.
Portanto, como foi dito, a deficiência auditiva pode ocorrer em qualquer estágio da vida de uma pessoa, por diversas causa, de diversas formas. E, como já foi dito aqui no blog, existe:
1. Surdos sinalizados: comumente conhecido como surdo-mudo, ainda que essa definição seja incorreta, porque dificilmente um surdo sinalizado sofre de mutismo real – embora essa deficiência também exista – mas de ausência da fala por falta de aprendizado. Comunicam-se por língua de sinais e podem ou não fazer leitura labial.
2. Surdos oralizados: pessoas que tem perda auditiva severa ou profunda, que aprenderam a falar por fonoterapia ou que perderam a audição depois da aquisição completa da fala. Falam oralmente (com ou sem sotaque caracterisco de quem tem baixa audição ou inexistente), leem os lábios e não costumam utilizar a lingua de sinais.
3. Surdos bilingues: são similares aos surdos oralizados, com a diferença de possuirem fluência na lingua de sinais.
4. Deficientes auditivos: aqueles que possuem perdas leves ou moderadas (ou profunda/severa, mas de apenas um ouvido) e que conseguem ouvir o suficiente pra discriminar a fala, com ou sem prótese auditiva/implante coclear.
Afim do texto não ficar muito longo, divido o texto no decorrer da semana, abordando: oralização, língua de sinais, implante, etc.