Uma coisa que aguça a curiosidade ao meu respeito é essa tal de leitura labial. Afinal, a menos que você também seja surdo ou conviva constantemente com um, certamente a idéia de que sem audição, a conversa humana é impossível através da fala oral, existe ou já existiu na sua mente.
Leitura labial – acho esse termo sexy pra caramba, admito – não é e nunca será a mesma coisa que ouvir, admito. Mas, também não é o bicho de sete cabeças que as mentes mais limitadas imaginam. A capacidade de adaptação humana impressiona qualquer um que não tenha envergadura mental suficiente para compreender que o corpo humano é a “máquina orgânica” mais adaptável e programada pra sobreviver em qualquer circunstância que existe na face da Terra.
Vocês já repararam nos emoticons de sapinhos, que adornam os comentários? Ele se chama Alfredo.
Há uns anos atrás, minha mãe me deu um sapo de pelúcia, o Arthuro, que veio com uma camiseta escrito “Não escuto” e as mãozinhas presas ao lado da cabeça, simbolizando a surdez.
Acredito que ele tenha sido feito por causa da fábula que fala de uma corrida de uma centena de sapos até o alto de uma torre.
Os que assistiam à louca epopeia, gritavam avisando que eles não iam conseguir. Um a um, os sapos iam caindo antes de chegar ao topo, sempre perante os gritos loucos e desmotivadores da plateia. Para espanto de todos, um deles subiu, subiu, subiu e alcançou o topo. Era um sapo surdo. Não podia ouvir o que lhe diziam e tinha um grande objetivo pela frente: conseguir realizar o seu sonho de chegar ao topo da torre.
A moral desta história: alguém que quer alcançar os seus sonhos não deve dar ouvidos à plateia pessimista e chata que constantemente nos rodeia. “Acredite em ti e os teus sonhos tornam-se realidade”
(texto extraído de outro blog, porque não achei o email original)
Beijinhos
Lak
p.s. esse post de hoje é pra uma amiga em especial. Por motivos de força maior, vou omitir o nome dela!
Gente, vocês sabiam que o sistema de saúde pública fornece próteses auditivas gratruitamente (oferecer de graça é redundância??) pra quem não tem condição de pagar?
Os meus lindinhos – eles ilustram o cabeçalho do blog – mesmo, eu consegui pelo Hospital das Clínicas.
Como já faz um tempo e não sei a quantas anda, pedi pro meu amigo Agnaldo, que está em processo de aquisição dos seus, explicar passo a passo, o procedimento:
Ah, é fácil. Basta entrar em contato com a DERDIC nos telefones 11 5908 8017 / 11 5908 7980 para obter o endereço do posto de atendimento responsável pela triagem, indicado de acordo com a região onde a pessoa reside. No meu caso, procurei o posto de triagem da Zona Sul, localizado na Rua São Caetano do Sul, no bairro do Grajaú, telefones 11 5932 2015 / 5528 1475.
Fui encaminhado para o ambulatório da Santa Casa de Misericórdia de Santo Amaro, localizada na Avenida Santo Amaro, 6449. É importante levar o cartão do SUS e um laudo de audiometria recente (o original e uma cópia para arquivo).
Só sei como proceder aqui em Sampa Capital. Quem for de outro Estado e souber informar isso, me avisa, que eu edito o post.
Beijinhos
Lak
Editando:
Você pode se informar sobre como adquirir os AASI no seu Estado, por esse link.
Contribuição: Sô Ramires (do Blog Surdos Usuarios da Lingua Portuguesa – SULP)
Pois então, como sei que nem todo mundo que acompanha o blog tem deficiência auditiva e é um pouco difícil ver o mundo sob a mesma ótica que eu, resolvi fazer uma surpresa pros meus amados amigos e leitores, pedindo pra minha querida ex-professora (é temporário, ainda volto a estudar!!) contar como foi, sob a ótica dela, essa mesma história.
Confesso que foi uma experiência inédita pra nós duas. Eu até já tinha estudado inglês na escola e feito curso, mas nunca com uma pessoa com sensibilidade suficiente pra me ensinar de verdade, a aprender a pronuncia correta, portanto, se tem alguém cujo título MESTRE é merecido, é ela:
Olá! Meu nome é Crisaidi e já fui citada neste blog (me sinto famosa!). Dei aulas de Francês e de Inglês para a Lakshmi.
Um dia aparece um cartão na caixa de correio com uma mensagem: “Quero estudar Francês. Por favor, ligue para mim.”
Atendeu a mãe da Lakshmi dizendo que poderia falar com ela mesma, porque a Lakshmi não falava no telefone. Pensei: “Mais uma doidinha! Essa não fala no telefone. Tudo bem, eu também tenho minhas doidices!”
(A Lakshmi relatou essa estória de uma maneira beeeemmm mais elegante!)
A gente (o agente da frase = eu) está sempre falando que gostaria de poder ouvir isso ou aquilo e o quanto cada conquista sonora é digna de comemoração.
Porém, tem algumas coisas que nem mesmo sendo surdo, se escapa de ouvir e, infelizmente, é justamente o que faz a gente olhar pro céu e pensar: Meus Deuses, pra quê? (o plural aí é que sou chegada no hinduismo – desde sempre, muito antes da novela – e acredito em vários deuses)
1. “Você é deficiente? Mas você é tão bonita…” <- Essa é a campeã. Umas 500 pessoas já me disseram isso. Fico com vontade de responder: Além de surda, eu tinha que ser feia também? Não ouvir não é suficiente pra você?
2. “Seu marido também é surdo?” <- Eu sei que tenho que dar uma colher de chá, porque surdo tende a casar com quem compartilha a deficiência, inclusive, já expliquei nesse post. Porém, quando a pessoa me pergunta de maneira pejorativa, tenho vontade de dar uma resposta à altura: Não, não tenho tara por surdo. Meu negócio são os imbecis! Tá afins?
3. “O que? Você tem carro? Mas surdo pode dirigir?” <- Minha resposta sonhada: Poder, não pode, mas mesmo assim… Esse negócio de CNH é superestimado!!
4. “Ah, você não tem filhos? Deve ser porque é difícil uma pessoa surda criar uma criança, né?” <- Não tenho filhos, porque simplesmente não tenho VONTADE de tê-los. Se quisesse, a surdez seria a menor das minhas preocupações.
5. “Puxa, mas você não ouve? Que interessante. Nunca conheci uma pessoa que não ouvia.” <- Ué, nunca foi ao zoológico quando criança? Hunf
6. “Você já procurou um médico pra ver isso?” <- Médico? Que bobagem! Surdez é que nem resfriado, a gente toma remedinho em casa mesmo. Aqueles 18 senhores de branco que eu visitei durante o primeiro ano após perder a audição, eram todos pais-de-santo.
7. “Você fala com as mãozinhas?” <- Não, porque eu não sou uma matrona italiana… Mas, em todo caso, mesmo que eu saiba falar Língua de Sinais, certamente não usaria esse idioma pra conversar com um ouvinte que nem sabe o que é isso.
8. “Mas você consegue mexer os braços e as pernas normalmente?” <- Ai, meu Deus, quantas deficiências eu preciso ter pra esse povo ficar satisfeito?
9. “Como sua amiga vai ler essa carta, se ela não ouve?” <- Um menino perguntou isso pra minha melhor amiga, enquanto ela me escrevia uma carta. Chorei!!
11. “Você já procurou ajuda espiritual? Lá no templo da minha religião, vi o sacerdote curar uma senhora que tinha câncer de mama, na minha frente…” <- Deixando de lado o fato de que quero morrer sem saber como essa cura foi comprovada “a olhos vistos”, se isso for verdade, no mínimo, acho que a pessoa tinha fé naquela religião. Como não é o meu caso, prefiro a medicina tradicional mesmo.
12. “Surdos podem ter uma vida sexual normal?” <- Esse negócio de normalidade é muito supervalorizado, sabe? Surdo que é surdo prefere modalidades exóticas…
13. “Mas por que você diz que é surda? Surdo é quem não ouve nada!” <- Juro que eu preferia não ter ouvido isso!!
14.”Como assim, você lê lábios? Deve ser muito difícil…” <- Ok, é difícil. Qual alternativa você me propôe? Telepatia?
p.s. Esqueci de contar uma coisa que falaram pro Edu – que não foi bem uma pergunta – e, grazadels, eu só soube depois. Uma vendedora viu a gente conversando sem voz (Edu lê os lábios tão bem quanto eu e, na rua, a gente fala sem voz um com o outro, coisa nossa), vira pra ele e pergunta: Por que vocês falam assim?
E ele responde: - Bem, ela é surda, a gente lê os lábios um do outro.
Ai a mulher vira e fala: – Ah, que bom que você trouxe ela pra passear. Deve ser bom pra ela sair de casa, né?!
Nem quero imaginar com que ser esssa mulher me confundiu!!