Intérprete Oralista: um relato pessoal de experiência

Andreia Venancino, intérprete da AME e eu. Experiência maravilhosa.

Andreia Venancino, intérprete da AME e eu. Experiência maravilhosa.

Eu sempre me senti o supra sumo da independência no que se refere à deficiência auditiva. Essa condição que me acompanha desde os 9 anos de idade nunca foi empecilho para nada. Fosse através da leitura labial somente, ou através de AASIs que não me davam qualquer compreensão auditiva, fosse através de um implante coclear que me dava muito mas não a total compreensão auditiva, seja atualmente através de dois ICs e uma audição digna de 95% de discriminação da fala, eu sempre me virei muito bem.

Estudei até a faculdade (e tenho pensado em encarar uma pós, deixa só eu ter condição financeira hehe), estudei idiomas, trabalhei, etc etc. A surdez não é uma barreira para atitude, isso eu posso afirmar com maestria.

Mas, em muitos casos, ela é sim uma barreira para compreensão de 100% de algumas coisas. Uma delas, por exemplo, é participar de uma aula, um evento, com muita gente falando simultaneamente, quando a acústica da sala não é muito boa. Quando usam microfones, já ajuda muito. Tanto um microfone convencional quanto um microfone de acessório de transmissão fechada, tipo o Sistema Roger. Mas, ainda assim, ocorre de algumas salas não terem realmente uma boa acústica e mesmo usando microfone (convencional) o som fica tão baixo que algumas coisas me escapam. Fazer o que?

Tudo bem que eu sou excelente em compreender contextos mesmo com algumas falhas na comunicação. Minha dedução é muito boa (é um resquício dos tempos de leitura labial, a gente acaba deduzindo muita coisa) e eu me viro muito bem, obrigada.

Esses dias, porém, tive oportunidade de testar ser acompanhada de intérprete oralista num evento inteiro. 🙂

Fui convidada para para participar de um evento sobre Inclusão Social no Magazine Luiza, que era voltado para a área de RH principalmente, porque falava sobre cases de sucesso na inclusão no trabalho, porque o Magazine Luiza ganhou vários prêmios de Melhor Empresa Para se Trabalhar para Profissionais com Deficiência. E lá tinha uma intérprete (que eu já tinha visto na reunião das regras para TV Acessível da ABNT e por isso, cheguei para conversar com ela do nada) que se interessou de ser minha intérprete oralista naquele dia. E eu aceitei porque queria experimentar esse recurso de acessibilidade.

Eu conheço bem o trabalho dos estenotipistas, que são os profissionais que fazem legenda em tempo real. E gosto bastante desse recurso, mas infelizmente, para a nossa realidade, é muito raro (por ser caro, já que é um profissional altissimamente qualificado). E o intérprete oralista acaba sendo uma opção que a maioria das escolas/faculdades consegue oferecer aos alunos com deficiência auditiva.

Pois bem, a princípio, quem fez a primeira interpretação para mim foi o Thiago (porque intérpretes trabalham em dupla), quando alguém da platéia disse algo que eu não consegui ouvir, porque a pessoa falou baixo e sem microfone. Mas depois, fizemos uma dinâmica de grupos e a Andréia Venancino decidiu me acompanhar, porque ela também queria experimentar ser intérprete oralista de implantado.

Aí, vou ter que dizer: Que experiência maravilhosa! Não apenas porque ela intepretava (oralmente, mas também fazendo sinais em LIBRAS, porque ela perguntou se podia e eu percebi que ela se sentia muito mais confortável fazendo o bimodalismo, mas na sintaxe do português) as falas do orador principal, mas todo e qualquer diálogo que rolasse em paralelo. Conversei bem com meu grupo e entendi o que todo mundo dizia, mesmo um rapaz que falava um pouco baixo e mexendo pouco os lábios (porque nessa hora a Andréia interpretou), o que permitiu que eu inclusive fosse escolhida para falar como representante do grupo. E entendi todos os diálogos dos outros grupos, inclusive as piadas que surgem de improviso.

Então, eu realmente gostei de ter um intérprete oralista comigo. Não acho que substitua recursos de transmissão de som (tipo o Sistema FM ou Roger, ou até o Aro Magnético), nem que seja necessariamente melhor que a legenda em tempo real. Cada um tem a sua função. Por exemplo, o Sistema FM/Roger é muito indicado para salas de aula de turmas pequenas ou médias, quando a pessoa tem alta taxa de compreensão auditiva. Assim como o Aro Magnético é recomendado para um teatro, cinema ou uma loja. E a legenda é mais indicada que um intérprete num evento com um grande número de deficientes auditivos, quando seria necessário vários intérpretes para dar conta, já que tem uma distância máxima para leitura labial. Mas, realmente acredito que o intérprete oralista é uma excelente alternativa de acessibilidade para quem tem deficiência auditiva em determinadas situações e ele faz uma interpretação mais rápida do que a legenda, já que é mais rápido falar do que digitar.

Dentre as muitas ferramentas que podemos usar, intérpretes oralistas devem ser sim considerados uma ótima alternativa para nós, desde que tenham cabeça aberta para atuar como oralistas.

Contudo, pela experiência em si, posso dizer com propriedade: Eu recomendo!

Beijinhos sonoros,

Lak

11 palpites

  1. soramires disse:

    eu sou bem fraca em leitura labial, só faço quando ouço e vejo a pessoa falando, mas para quem é craque em leitura labial é um bom recuso como você acaba de explicar…

  2. eu sou bem fraca em leitura labial, mas é bom conhecer os recursos que existem para pessoas com problemas de audição…para mim é legenda, bom sistema de som e aro magnético.

  3. Como eles VERBALIZAM enquanto interpretam, você pode pedir que falem proximo do seu ouvido.

  4. CINTHIA disse:

    Sempre tive curiosidade em ver como funciona a acessibilidade com intérprete oralista…minha leitura labial é excelente, já que nasci surda. Como eles fazem? Modulam mais, falam de frente e tal? Pretendo entrar numa faculdade ano que vem, nunca tive nenhuma acessibilidade em minha vida escolar, mas se eu posso ter esse recurso, por que não?
    Você pode me passar o contato desses intérpretes oralistas que você conhece? Gostaria de conhecer melhor esses profissionais. Obrigada!!!

    • Lak Lobato disse:

      Oi, Cinthia.

      De qual cidade você é mesmo? Bauru? Acho que a própria universidade deve ter intérpretes que trabalham em parceria com eles. Você só precisa enfatizar que a sua interpretação tem que ser oral.

      Ele irá falar numa velocidade adequada para você, sempre de frente e próximo de você, facilitando a sua compreensão. Não são todos que se dispõem a realizar a interpretação desse jeito, mas todos possuem essa capacidade, é questão de vocês conversarem.

      Beijinhos

      Lak

    • CINTHIA disse:

      Sim, sou de Bauru. Faz sentido, afinal não custa falar um pouquinho mais modulado kkkkk
      Valeu pelas dicas!

  5. É imensurável a satisfação que pude experimentar como intérprete oralista. Você mudou o meu olhar profissional, muito obrigada pela confiança!!!

  6. Marcio Figueiredo disse:

    Gostaria de parabenizá-la pelo excelente relato e também aos intérpretes! Parabéns também a Andréa Venancino.

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