La vie en rose

Chego aqui para dar uma olhadinha se tem comentário e, dei de cara com esse, da Júlia, que lê o blog há um tempão. Não resisti transformá-lo em post, em vez de simplesmente responder…

Oi! Hoje me lembrei de você. Uma coisa doida, já que nao te conheço. Estou estudando francês por causa da possibilidade de ir a algum pais francófono pelo trabalho, o que claro, me faz aprender esta lingua de uma vez por todas. E para mim, o frances parece exigir muitíssimo da compreensão auditiva para distinguir tantas palavras que se juntam, que são pronunciadas de maneira parecida ou até mesmo iguais, sem falar que parece que se escreve de uma maneira e se fala de outra. O lembrar de você foi pelo fato de pensar como é que uma pessoa que não ouve então fez para aprender? E fazendo um link com este post, se eu fico contente a cada distinção que consigo fazer com o francâs, posso imaginar você com cada palavra nova que consegue identificar. Parabéns mesmo e que muitas palavras novas venham, que se juntem em frases e que se juntem em belíssimas melodias faladas. Me desculpe se demonstro tanto desconhecimento da sua realidade.

Eu já fiz um post explicando isso, mas dada a situação atual do meu aprendizado de ouvir, não faria mal, repetir pra mim mesma (e elucidar a dúvida da Julia) de como alguém que não ouve aprende outro idioma.

A principio, eu não saberia explicar como uma pessoa que ouve aprende outro idioma hehehe só posso falar de como EU aprendi e tendo plena ciência de que, talvez, isso só seja válido para mim, dada a diversidade imensa que existe entre os deficientes auditivos.

Começa pela maneira de me enxergar. Eu nunca me vi como “uma pessoa que não ouve e quer aprender outro idioma”. Sempre me via como “alguém que tem interesse e quer aprender outro idioma”, a maneira viria com o aprendizado, conforme eu fosse percebendo o que era mais fácil e o que não era.

A primeira dúvida foi: Como compreender o que não ouço? Simples, usando a ferramenta que tenho à minha disposição: pela leitura labial.

Apesar da leitura labial ser um complemento da audição (existe até um video que comprova que mesmo um ouvinte faz leitura labial como apoio da audição, para diferenciar alguns fonemas, depois procuro esse vídeo pro DNO) ela não é um substituto igual. Ler os lábio pode se assemelhar, mas não reproduz 100% da audição. Portanto, quem depende de ler os lábios, preocupa-se, antes de mais nada de compreender o sentido da mensagem como o todo, não se atendo a entender 100% das palavras ditas. Usamos muito a intução e  percepção visual do rosto e do corpo, enquanto o interlocutor fala. Seguido de eliminar (em tempo absurdamente rápido) todas as similaridades fonéticas que a leitura labial produz, como por exemplo FACA e VACA, soam absolutamente iguais, mas no contexto da frase possuem a diferença chave: “Eu gosto de leite de vaca” para “eu gosto de leite de faca”, a segunda não teria o menor sentido lógico.

Portanto, eu mantenho isso em qualquer idioma que eu venha a falar/entender: compreender o sentido da mensagem toda e não o som das palavras isoladamente. Parece difícil? Ora, estou absolutamente habituada, é facílimo pelo tempo de prática!

Percebi também que os idiomas de origem latina, tais como: francês, espanhol e italiano; são bastante labiais. A diferença do som se dá pela posição dos lábios mais do que pela posição da lingua. Portanto, esses idiomas são fáceis de se comprender pela leitura dos lábios.

Não é o caso, por exemplo, do inglês, que abusa das diferenças de som pela lingua e  cordas vocais. O inglês tem uma gramática facílima, mas é muitissimo mais difícil de se compreender pela leitura labial. Agora, com o implante, mesmo não entendendo bem os sons isolados, já tenho bem mais facilidade de compreendê-lo do que apenas pela leitura labial em si.

Portanto, para aprender a ler os lábios em francês, bastou que eu tivesse um bom vocabulário no idioma e reproduzisse o que faço em português.

Para aprender a falar, outra facilidade: 90% dos sons do francês existem em português. E os poucos que não existem, podem ser aprendidos mesclando-se dois sons também existentes em português. Por exemplo, o E de “Je” fala-se posicionando a lingua para falar um ê (dEdo) e os lábios, em posição de ô (dedO).

Diz a minha professora – que também me dá aula de inglês – que a minha pronuncia em francês é excelente e tão fácil de compreender como se eu falasse em português. Nativos do idioma também elogiaram bastante a minha pronúncia.

Então, basicamente, para aprender outro idioma, só foi necessário saber aplicar o que eu já fazia na prática, adaptando às particularidades idiomáticas, estudar a gramática e somar tudo isso a uma enorme vontade de aprender.

Espero ter respondido a sua pergunta, Ju. Boa sorte com o francês!!

Qualquer dúvida, estou a disposição para esclarecimentos.

Beijinhos sonoros,

Lak

22 palpites

  1. David disse:

    Viu Ju!!!

    É simples assim!!!.. kkkkkk

    Lak, não te conheço pessoalmente, mas você é d+.
    Você tem o dom, o aprendizado é complemento…. não que não seja possível para outros… mas convenhamos… não pra qualquer um.

    Bjs.

  2. Juliana Toro disse:

    Oi lindinha, primeira vez q venho visitar o seu cantinho.Falei com vc um tempo atrás qdo estava twitando no “Dia do Yôga” ( q ainda esta funcionando rs). Pouco depois do evento meu ouvido esquerdo tapou completamente..tive q fazer um tratamentozinho e uma lavagem(urgh) pra voltar a ouvir, claro, não é nem de perto uma experiência como a de perder a audição, mas nestas semanas q fiquei parcialmente impossibilitada de ouvir normalmente me sentia meio perdida.Não conseguia entender e participar direito das conversas e me agradava mais ficar em casa aonde não precisava interagir com ninguem. Ao mesmo tempo passei a observar mais as situações. Agora q esta tudo resolvido sons muito altos tem me irritado..rs o mundo é barulhento!
    Achei uma graça seu site e as postagens trazem muitas lições importantes..vou te visitar de vez em qdo, mesmo q em silêncio.;)
    beijão!

    • laklobato disse:

      bem vinda, Juliana!!

      É, ficar parcialmente surdo apavora mesmo. Muita gente comenta disso aqui e reclama. É assustador, porque retira a pessoa do habitat natural dela, o universo sonoro…

      Eu mesma levei tempo pra me adaptar.
      Espero que vc esteja boa já.
      Beijocas

  3. Jairo Marques disse:

    Lak, esse seu texto tinha de ser publicado em um manual universal. Vc foi muito clara, absolutamente didática e envolvente na leitura. Eu não fazia ideia de como se dava esse processo e, ante de entrar no post, matutei como seria possível… errei feio. Esse blog é um divisor de águas do antes e do depois da visão dos mortais sobre os surdos…. um show… uma enciclopédia. Claro que sei que, como vc explicou, é natural e até fácil aprender, mas, do lado de cá do balcão, é inevitável não ficar… de boca aberta…. Neste ano, vou a Paris… ainda bem que tenho amigas para me dar boas dicas de francês, não é?! Beijossss

  4. Andressa Engel disse:

    Olá Lak…tbém fico admirada com a sua capacidade de aprender outro idioma, pois tô apanhando na leitura labial do meu velho conhecido português…heheheheh.
    Bjus e boa páscoa p vc…

  5. inês disse:

    Esse post hoje me toca particularmente, pois toda a minha vida até ficar com surdez, há 4 anos, eu fui muito atraída pelo universo sonoro: sempre adorei aprender línguas, tirei um curso superior de francês e alemão, fui professora de português e francês, adoro música, adoro conversar, seguir os sons das falas dos actores nos filmes que são legendados aqui em Portugal… E quando adquiri a surdez (moderada, mas para quem tinha um «bom ouvido» é uma diferença enorme, mesmo com próteses auditivas) ficou muito claro para mim que música e línguas estrangeiras novas…já era!! Não só porque a minha surdez é flutuante (ela não é sempre a mesma, há dias que oiço um pouco mais ou um pouco menos, e também dias em que ouvindo o mesmo, a capacidade de discriminar os sons não é assim tão boa), mas porque tenho os malvados zumbidos nas orelhas, porque também oiço com muita nitidez tudo o que é frigorífico, ar condicionado e aparelhos vários, não possuindo a capacidade que um ouvinte tem de separar os sons da fala dos sons ambiente, o que torna uma conversa com mais de 1 pessoa e num lugar público uma verdadeira …prova de esforço.
    E na altura em que as flutuações enormes de audição pararam, eu percebi que já não conseguia ouvir e compreender música da mesma maneira; canções que já conhecia (e eu vivia ouvindo música e cantando e repetindo música vezes sem conta…e ainda bem!) eu compreendo e vou buscar a memória auditiva; com canções novas, nem sempre consigo apanhar a melodia ou distinguir sons. Foi uma tristeza enorme, mas que acabou por ser superada porque sempre dá para ouvir música conhecida e ir tentando perceber quais os inmstrumentos musicais mais fáceis de perceber…e pporque diente de tudo o resto isso acaba por ser quase insignificante. O sonho de aprender novas línguas, porém, desapareceu…
    Até ao dia em que falei com a Sun Melody e outra amiga também surda, que aprenderam inglês, espanhol e uma delas toca piano. Aí percebi que muitas vezes somos nós que criamos barreiras a nós mesmos, com medo de ousar e falhar ou de não ser igual ao que era dantes….mas o hoje nunca é igual ao ontem e às tantas a diferença também dá beleza à vida, quebra a rotina, abre os nossos corações para um mar de possibilidades e descobertas!
    Foi também há tempos aqui no seu blog e hoje novamente que comprovei que é preciso ir mais longe e procurar novas maneiras de aprender e de nos enriquecer enquanto pessoas!
    E eu, que nuca gostei de espanhol e sempre tive alguma dificuldade para o perceber, apesar das semelhanças com o português e apesar de Portugal ser vizinho de Espanha, já decidi: um dia, e não muito longe, eu quero ir aprender espanhol!! Ah e também quero aprender a tocar viola (violão), mesmo com alguns dedos da mão direita não dobrando bem por causa de um acidente de carro que tive há muitos anos!! E recomecei a ouvir música, cantores e compositores que não conhecia.
    Afinal, se passo o tempo a citar a frase do Vergílio Ferreira, por que motivo é que eu não hei-de colocar a minha estrela no céu como você e tantos outros que procuram desafiar os obstáculos?
    bjs e obrigada mais uma vez pela partilha
    Inês

  6. Julia disse:

    Oi Lak!!! Nossa, quem vai ficar vermelha agora sou eu!
    Eu nunca consegui, talvez por nao ter sido um recurso prioritário, ler labios. Digo isso por aqueles momentos em que alguem fala sem emitir sons para ser discreto em uma roda e comunicar algo que so quer dizer para mim… e eu sempre paguei mico (ou a pessoa é que ficou pagando mico por tentar esse recurso comigo, retentar, repetir e eu nada!).
    Quero te agradecer pela dica central: nao tentar entender a palavra, mas o conteúdo. Se dessus (em cima) se fala igual que dessous (embaixo) – se nao me equivoco-, como distinguir? so pela lógica mesmo! e isso toma mais tempo para compreender o todo.
    Lak, como muitos ja comentaram, as barreiras muitas vezes sao construidas por nós. Fico feliz por vc buscar “transgredir” os limites quase que esteriotipados e encontrar formas de realizar o que quer e mostrar que a coisa não é bem assim, que se pode fazer muita coisa sim. Em meu trabalho (sou psicóloga), busco auxiliar no encontro de cada um com suas capacidades, possibilidades e alternativas para realizar o que se deseja.
    Só para terminar, ha muuuitos anos, me lembro de ter visto um homem com sua mobilidade reduzida dizendo algo ficou: “eu chego do mesmo jeito que qq pessoa, só demoro mais mas chego!”. beijos e obrigada pelo post.

    • laklobato disse:

      Magina, eu que agradeço por ter me lembrado, num momento importante, que eu sempre ultrapassei as barreiras.
      Espero que você consiga aprender bem o francês.
      Beijocas

  7. SôRamires disse:

    nosso problema com a língua francesa o “u” e o “ou” por sorte depois de anos estudando consigo pronunciar bem os dois mais foram anos de Aliança Francesa, filmes e canções…e porque não lembrar o “e” o “è” e o “é”?
    C´est pas facile…

    • laklobato disse:

      “Ou” = u normal.
      “U” = lábios em posição de u, lingua em posição de i.
      Acho até mais fácil que o “oe” de coeur (na verdade, é uma ‘letra’ que nem tem no teclado).
      Questão de quem ensina mesmo… Se o professor não tem as manhas, ele passa uma idéia bem confusa da matéria.
      Beijos

  8. Luiza disse:

    Oi Lak,
    Hoje tirei a noite pra te ler. Ando sem tempo, muita correria por conta da vidinha e, tb ainda correndo atrás do IC pro Luís. Em princípio ainda não temos o limiar funcional dele com os aparelhos. Alguns exames serão realizados já do dia 14.
    Ai! Matei a saudade……Beijão
    linda!

  9. zuleid disse:

    Caramba!
    Eu nunca mais reclamo quando tiver que pronunciar por exemplo
    Hohenzollerndamm ou Klopstockstrasse…
    Beijos 😀 (com risada sem graça!!!)

    • laklobato disse:

      Particularmente, acho que entender algumas coisas é bem mais difícil que proncunciá-las. Mas algumas palavras têm realmente um nó cerebral. A dica é ficar repetindo durante dias, várias vezes, até o nó se desfazer (criando uma nova sinapse). Criança faz isso. Adulto tem vergonha de fazer e desiste logo de cara hehehe
      Beijos

  10. Soraya Teixeira Silva disse:

    Lak,

    desculpe comentar num post tão antigo mas é que só descobri o blog hoje e estou lendo tudo. Não sou surda mas tenho três primas (trigêmeas) que nasceram deficientes auditivas e que foram, aos poucos, perdendo totalmente a audição. Hoje as três são oralizadas e duas usam IC. A outra preferiu continuar usando Libras e fazendo leitura labial. Isso me faz ter interesse profundo no assunto e perceber nuances da audição que uma pessoa qualquer não teria. Seu post me chamou atenção especial porque já algum tempo percebi que faço leitura labial muito eficientemente. Sempre “ouço” melhor quando estou vendo as pessoas falarem. Aliás, meu marido sempre comentou como ouço bem mas eu sei que boa parte é a leitura labial mesmo. Hahaha, eu falo isso para as pessoas e elas não acreditam! 😀

    beijo e obrigada pelo blog

  11. Lak disse:

    Boa tarde!

    lak,

    Eu preciso muito o ingles a empresa onde eu trabalho todos falam, mas eu ja tentei em diversas escolas e nao consigo acompanhar pela imensa dificuldade, poderia me auxiliar.

    • laklobato disse:

      Olá,
      então… o ideal seria que vc fizesse aula particular, com um professor paciente. Em turmas grandes, a gente não consegue acompanhar MESMO. Você é de onde? Se for de SP, posso te indicar uma professora com talento de ensinar quem tem dificuldade!
      Abraços