Lembranças sonoras…

Tive o prazer de perceber, semana passada, que entro na segunda etapa da recuperação auditiva.

A primeira é ouvir, conhecer, identificar, discriminar. O aprendizado inical de utilizar a audição de qualquer ser humano. Claro que, para aqueles que não nasceram ou foram acometidos com deficiência auditiva, esse processo se dá nos primeiros 2 anos de vida e, portanto, a maioria nem se lembra…

Depois disso, vem a etapa emocional, criar vínculo com o som, relacioná-lo a situações, criar uma memória sentimental quanto a determinados sons. Muita gente, faz isso com música. Uma música para cada emoção específica.

Não, eu não estou vinculando nada com nada ainda, mas um som ativou uma lembrança da minha infância e veio aquela sensação gostosa de  esforço recompensado.

90% dos sons de coisas, eu não me lembro bem. A maioria caiu no mais absoluto esquecimento, simplesmente porque não havia espaço na memória pra me lembrar de coisas bestas, tipo o barulho que um copo faz ao esbarrar em outro. Em 23 anos de silêncio, havia muito mais coisa importante para me lembrar do que esse tipo de amenidade.

Tenho uma amiga que fica braba quando falo “eu não sabia que tal coisa fazia barulho”, ao que ela responde “você sabia, só não lembrava”. Ora, dá no mesmo, porque ninguém decora som de coisas bobas a ponto de lembrá-las 2 décadas e meia, sem esquecê-los a ponto de nem reconhecê-los mais. A gente tem coisa mais importante pra saber..

Enfim, esses dias, tem feito frio e eu tenho as extremidades frias. Vivo com os pés e as mãos geladinhos o inverno inteiro (até parece que temos estações do ano tão bem definidas assim hehe), portanto, tenho o hábito de atritá-los para esquentar, especialmente quando começa a sumir a sensibildade da ponta dos dedos. E olha que em São Paulo nem faz tanto frio assim, mas tudo bem…

Semana passada, estava esfregando as mãos, nessa tentativa de esquentá-las, quando percebi nitidamente que isso faz um barulho em particular. Achei o som gostoso e fiquei repetindo o som – gosto de fazer isso para criar memória auditiva – até que uma imagem veio na  minha mente….

Meu pai é massoterapeuta e, durante toda a minha infância, acompanhei aulas de Massagem Oriental que ele ministrava. Em determinado ponto da aula, ele dizia: “Vamos atritar as mãos para esquentá-las…” e a sala se enchia desse som, feito em uníssono por todas as pessoas da sala. Acho que eu gostava muito desse barulho, porque fechei os olhos e me lembrei nitidamente das aulas, em sala acolchoada, cheiro de incenso e, as vezes, um mantra tocando baixinho ao fundo. Luz azul – muitas vezes, a aula ficava a meia luz para propor relaxamento – e  a voz do meu pai, preenchendo o ambiente com pessoas de olhos fechados, falando de forma calma e pausada.

Senti uma vontade enorme de chorar – é, eu choro por tudo mesmo – pela sensação de paz e conforto que esse barulho me trouxe à mente, uma época em que ouvir era tão natural que dava para simplesmente mergulhar nos sons…

Beijinhos sonoros,

Lak

45 palpites

  1. zuleid disse:

    E eu(Claro! 😡 ) chorando junto e atritando as minhas mãos prá “entrar no clima”…
    Bem vinda ao mundo da memória auditiva-afetiva!
    Beijos!!

  2. Renata disse:

    Vou te mandar muitas onomatopeias: toc toc, ops, puft, glub glub, buá, clap, miau, trim trim, atchim!! 😛

  3. To aqui acompanhando sempre, mas nem sempre me manifestando! 😎 rs
    Você comentou algo que me ocorreu faz poucos dias. Só pra saber, eu pelo meno decoro (ou ainda lembro :P) do som, cheiro e muitas vezes textura de coisas bobas a ponto de lembrá-las 3 décadas depois, sem esquecê-los! Esses dias me lembrei do apito (tipo flauta pan) do amolador de facas quando ele passava pelo prédio onde morei quando tinha um ano. O apito escorregava de um barulho mais grave para um agudo e voltava – não tinha como errar, era o amolador passando! Dessa mesma época, lembro-me da textura do carpete já batido quando eu deitava de costas no chão e passava a mão nele. Lembro de um gomo de laranja de plástico de brinquedo levemente desbotado que eu brincava e punha na minha boca desdentada para coçar a gengiva. Eu lembro de gostar disso!
    É besteira, mas eu lembro – e sensacional você lembrar de seu pai pelo barulho das mãos se esfregando. Mas fiquei curioso: ao lembrar dele dizendo aquilo você lembrava da voz dele?

    Beijão e bom dia!

    PS: Você diz “A gente tem coisa mais importante pra saber..”. Realmente, informações úteis e práticas acabam tomando lugar de memórias “bobas”. Mas hoje, passando o tempo, essas memórias emocionais são tesouros por vezes perdidos que que valem muito a pena lembrar, né? E cá entre nós, lá na minha velhice é o que eu não vou querer perder e mais poderá fazer falta! rs 😀

    • laklobato disse:

      É dificil comparar um som que vc armazena ouvindo de vez em quando com um som que vc se lembraria daqui 3 decadas, sem tê-lo ouvido sequer 1 vez nesse meio tempo. Pode ter certeza que muitos ficaram distorcidos sim…
      Claro que tem gente que tem mais facilidade, outras nem tanto.
      E se for coisa da infância, fica mais difícil ainda lembrar…
      Eu lembro de muitas coisas. Mas ter decorado todas? Acho meio impossível pra grande parte das pessoas. Entre a infância e a idade adulta somos bombardeados de informações, porque estamos em constante aprendizado. Dai, decorar todos os barulhinhos – muitos que passam despercebidos no dia a dia – não, não acho que vc nem ninguem seria capaz.
      Beijos

  4. Eliane Lobato disse:

    Putz, que reconfortante, aconchegante mesmo…delicia
    barulho das mãos, ambiente agradável, voz do pai, momento
    cheio de tranquilidade e, ainda memória da infância.
    Começo
    a achar esse IC além da parte técnica uma coisa mágica,
    abre uma caixinha maravilhosa cheia de surpresas, de sensações, de lembranças é só se deixar levar pelas possibilidades, pelas emoções.
    Lindo! 😮 🙂

  5. Lully disse:

    😀 adoro ler vc, não comento mas hj me deu vontade pois me remeteu a uma infancia muito boa, momentos descontraídos e inesquecíveis, de um mundo mágico de contos de fadas….que saudade desse tempo….sem preocupações…..bjos Lak admiro mto vc 😎

    • laklobato disse:

      Hahaha preocupação a gente tinha… Com dever de casa, com nota da prova, essas coisas que, hoje, parecem light.
      Mas viver a infância era bom mesmo!! hehehe Beijos

  6. Maíra disse:

    Como é que é? Esfregar as mãos faz barulhinho? Ah não! Já foi de atritar o pente na cabeça, agora o das mãos… É tanto som assim que existe? Acho que ficaria piradinha com essas coisas.

    O que eu consigo discriminar quando estou fazendo simultaneamente leitura labial é o som da voz. As vezes me pego pensando: será que a voz é apenas assim ou tem mais sons que nela fazem parte?

    • laklobato disse:

      Maíra, é tanto som que existe, que só ficando um bom tempo em silêncio, nos damos conta deles hehe
      Com o AASI eu consigo ouvir o som do atrito da voz, mas quase sussurante e distorcido pacas.
      Quem sabe, um dia te convenço a vir pro lado de cá dos cyborgs? hehehe
      Beijos

  7. zuleid disse:

    Vem Maira! Vem Maira ! Vem Maira!!!
    Ô Lak, vc não respondeu ao Fábio se lembrou também da voz de seu pai naquela época. Ou a voz dele foi “atualizada” prá voz de hoje?
    Eu tmbém fiquei curiosa…

    • laklobato disse:

      Hehehe campanha pra ciborguear a Maira.

      A voz dos meus pais é imutável, inconfundivel, inesquecivel. Em 23 anos, a voz deles foi uma lembrança imune a distroções. Portanto, lembrava antes, lembrei agora, lembro sempre. 😳

  8. Lu disse:

    Tô tão pateta hj que quase chorei…… 😀
    Lindo lindo lindo post!!!!
    Beijinhos!!!

  9. Sun Melody disse:

    Lak, isso não se faz, tenho os olhos em água mas é pura felicidade por te saber tão bem e a evoluir em cada progresso neste mundo sonoro tão vasto e infinito… sempre vai ter um dia em que sentiremos a audição a ser estagnada no meio do tempo e espaço, um frenesim emocionante. Depois sentimos um fio a puxar-nos para uma outra etapa de reconhecimento, também é verdade que foi assim comigo não em palavras mas sim nos sons ambientais que depois de 4 meses de activada reconheci de imediato a musicalidade do piano na escola de música onde a minha irmã toca e continua a exercer esta actividade… e tudo isto com pouco tempo de audição, visto que ensurdeci com apenas 18 meses. Há milagres, o nosso cérebro é uma surpresa!

    Emociono, vibro de mãos dadas nesta tua caminhada, por isso voa borboleta!!!

    Um beijo terno!
    Sun 🙂

  10. Simone disse:

    Puxa-vida, Lak. Eu, sendo surda, até hoje eu aprendo com você, lendo o seu blog, como é o mundo sonoro, relatando as descobertas!
    Continua, então!
    Beijos!
    Simone.

  11. Haroldo disse:

    chorar é humano, tem mais é que pôr pra fora, mesmo.

    você não é um cyborg, apesar de dizer que é! 😛

  12. SôRamires disse:

    que gostosura cada sabor e cor do som que volta à memória…essa esfregada de mãos é do meu tempo de aulas de yoga (anos 70) é uma maneira de esquentar as mãos que deve ter nascido com o ser humano e os primeiros frios, e os primeiros curandeiros.
    Quando passava meus primeiros anos na Argentina usei muito a leitura labial para complementar o aparelho auditivo…e lembro que num exercício literário escrevi algo como “cada palabra tiene una boca pegada” ou seja o falar tem um forma de mover os lábios tão bonita que parece uma dança.

  13. Julia disse:

    Meu, vc nao acredita! Semana passada eu estava em um atelier do curso de imersao na lingua mais dificil do mundo (brincadeira, um dia vou deixar de achar) q estou fazendo e a coisa era esfregar as mãos pra aprender a fazer massagem e qdo juntou o barulho de todo mundo fazendo aquilo, umas 30 pessoas eu me lembrei de voce!!! Pq a gente realmente nao da bola pra uma porrada de som!

  14. Marília Sunshine disse:

    Oi Lak!! Apaixonante essa sua história, hein? Não tem como ler e não esfregar as mãos, nem pensar no barulho que um copo faz ao bater em outro… com certeza todos que leram vão dar uma mínima importancia para os pequenos sons de tudo. 😉
    Tem uma cena daquele filme que te falei (O som do coração), que o menino está no orfanato e começa a ouvir todos os sons ao seu redor, é linda! O filme é um pouco poético, pq esse menino tem um ‘dom’ da audição mais apurado. Vc me fez lembrar dessa cena… continue nos contando suas descobertas!! 😀
    Ah! Só uma perguntinha (pra não perder o costume, rs), como eu to te conhecendo agora eu não sei… desculpe a indiscrição, só fiquei curiosa… seu pai não está perto de vc mais? Bjos!!

  15. Ana Paula disse:

    Cada dia uma redescoberta! Depois de 23 anos de silêncio vc redescobrindo barulhos que quem ouve não dá a mínima!

    Só digo que fico feliz em saber que a cada dia que passa, aquela Lak que estava adormecida acordou, trazendo de volta coisas boas que estavam lá no fundinho da memória.

    Eu, a Michelle, o Ricardo e o Ramón torcemos por vc! Que cada dia seja ainda melhor!
    bjs!

  16. Ana Paula disse:

    Quem tem nome de deusa indiana só pode ser uma vitoriosa!
    😉 😎

  17. zuleid disse:

    Olha eu aqui de novo!!
    Que tal fazer uma “campanha” pro seu pai postar algo?
    Deve ser mágico ver a filha despertar como no fim de uma aula de Ioga quando relaxamos e dormimos! Nestas horas parce que um fio mágico vem nos trazendo do mundo do sonho pro real…bem de levinho! Sem solavancos ou estrondos. Eu não sou surda, mas é assim que imagino ser este seu despertar!
    Beijos pro seu pai e prá sua mãe!
    Ah, tenho tentado assistir filmes sem o som e “descobri” que é muito difícil fazer leitura labial! Mas em solidariedade vou me exercitar todos os dias!! 😀

    • laklobato disse:

      Hehehe ele comentou 1 vez, não lembro quando….
      E sim, meus pais estão numa fase meio deslumbrada com essa situação. Acho que minha perda auditiva foi mais dificil pra eles, do que pra mim, sendo sincera. Eles sofreram bem mais!
      Ah, ler os labios na tb é dificil mesmo. Mais facil vc pedir pra alguem falar sem voz, com vc.
      Beijos

  18. Rita Costa disse:

    E agora você deve estar ouvindo o barulho das minhas lágrimas caindo sobre o teclado… lindo post, de uma sensibilidade que nenhum dos 5 sentidos conhecidos nos é capaz de reproduzir.
    E sabe qual mais barulhinho de mão você ainda vai ouvir muito? a de palmas batendo em aplausos por cada uma dessas (re)descobertas.

    beijos

  19. fabiana disse:

    Lak graças a você, seus retornos à Fono e toda descrição que faz no blog (acho muito informativa) tenho dado atenção especial a sons também. Semana passada estava aqui no computador e um bem-te-vi cantava alto e “viajei” com ele aqui sentada. Obrigada por fazer com que eu preste mais atenção nos sons que estão à minha volta. Bjss

    • laklobato disse:

      Aii que inveja. Ainda não ouvi nenhum bem-te-vi!
      Hehehe a felicidade é uma das poucas coisas da vida que quanto mais a gente compartilha, mais a gente tem…
      Beijinhos

  20. Leila disse:

    Seu blog está cada vez mais lindo, contando essas coisas…
    Me lembrou o dia em que sentei na areia da praia e de repente comecei a ouvir algo. Era o vento. Estava sozinha, contemplando a imensidão do mar e ouvindo o vento. É uma cena e sensação que jamais esquecerei.
    Um beijão.

  21. Leila disse:

    Verdade, querida!

    ” As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido “. Fernando Pessoa.

  22. raquel disse:

    Encontrei por acaso sua pagina, e que acaso maravilhoso, pois é encantadora a sua história, e vc a escreve bem. bjus!

  23. Ale disse:

    Lak, você é terrivel… sempre me fazendo chorar.
    Sobre sons, Felipe já me fe emocionou uma vez quando escutou o bem-te-vi e ficou maravilhado me perguntando o que era… ele fez o som direitinho (mas nao falou com palavras, claro). Ele tinha exatos 2 anos.
    Foi lindo também.
    Beijos,
    Ale