Ligação para uma vida toda….

Perdi a audição aos 10 anos, isso todo mundo sabe. O que nem todo mundo parece se dar conta é que, antes de perder a audição, eu já tinha uma vida inteirinha hehehe

Nessa minha vida de ouvinte, eu tive uma vida normalzinha, com família, escola, brinquedos, amigos e tudo que qualquer criança tem ou pelo menos, deveria ter.

Uma bela noite, falei com o padrinho da minha irmã ao telefone – que estava em Paris, então a ligação foi rápida e cheia de interferências – e na manhã seguinte, minha audição havia desaparecido e me tornei a pessoa que eu sou hoje, surda oralizada.

O tempo passou e a vida continuou. Fiz todas as coisas que sempre conto que fiz: estudei, viajei, casei, escrevi, vivi, etc…

Dentro de mim, a esperança de poder fazer de novo as coisas que pude uma vez na infância: ouvir música, ouvir as histórias contadas pelos outros (eu adorava ouvir os papos das pessoas adultas, sempre achava interessantissimas as narrativas) e falar ao telefone. Fora do meu íntimo, no entanto, eu mantinha uma postura inabalável de que sempre posso ser feliz do jeito que for. Manter as esperanças não significava jamais autocomiseração, depressão ou qualquer sentimento ruim. Apenas uma centelha de fé de que seria possível saciar essas vontades algum dia da vida (ou até depois da morte.)

Lembro de  um texto meu, num antigo blog, falando que se nunca pudesse ouvir de novo nessa vida, a primeira coisa que faria ao chegar na próxima, seria curtir todos os sons que me foram negados nessa.

Semana passada, relatei que ouvi o som do rio. Na anterior, que ouvi música…

Neste domingo à noite, uma nova conquista. Ainda pequena, ainda de maneira simplória, mas suficientemente significativa para ser comemorada. Como tudo o que o Implante Coclear me permite.

Era umas 19h do domingo quando mandei um SMS pra ela “você está ocupada?”. A resposta demorou uns 20 minutos, que para mim pareceram 2 décadas e meia: “Desculpa, eu estava no telefone. Tudo bem?”. Imediatamente, respondi “e agora?”.  E ela: “Agora estou livre.”

Digitei – olha só, ia falar disquei, porque sou do tempo do telefone de disco – o número com as mãos trêmulas, ouvi o toque de chamada (sei lá se mudou, pra mim, continua o mesmo, quase 26 anos depois). Ela atendeu e falei “Alô”. E do outro lado da linha, vindo de 450km de distância – essas distâncias que jamais podem ser mensuradas quando se trata de dois corações que batem em sintonia – veio a voz da Kali, minha melhor amiga, irmã de outra vida (somos gêmeas siamesas de pai e mãe diferentes) direto na minha cóclea, passando no meu córtex cerebral e explodindo direto no meu coração, dizendo “Oi, queriiidaaaaa”. A ligação foi rápida, feita apenas com frases curtas, muitas repetições, voz pausada. Essas coisas que requer paciência de quem está falando do outro lado da linha, mas que eu tinha certeza que a KK jamais iria me negar…

É preciso um universo inteiro de silêncio e quase três décadas enclausurada nele para compreender a força que uma frase compreendida sem nenhum apoio visual pode ter. É como uma onda de amor que invade e te destroi em milhares de pedaços e, quando eles voltam a se juntar, você se vê muito maior, muito mais forte!

Falar ao telefone ainda é uma realidade não muito próxima. Requer tempo, treino, terapia com fonoaudióloga, programação, força de vontade e fé. Contextos abertos – leia-se quando você não tem a menor ideia do que será dito – para quem passou mais de 2/3 da vida sem ouvir não é nada fácil. Mas, a simples possibilidade do “posso vir a poder”  já me torna inexplicavelmente feliz!

Que o IC é um milagre da tecnologia, já cansei de falar. Mas nunca vou cansar de viver esse milagre e de querer compartilhá-lo!

Beijinhos sonoros,

Lak

22 palpites

  1. Aline disse:

    Qd o Bê falou ao telefone a 1ª vez, eu morri umas 20 vezes de tanta felicidade. Lak querida, continue com esses telefonemas curtos, frases e palavras repetidas, mas continue treinando…
    Uma vez tentamos fazer isso com o Raul, mas ele é mto impaciente, né muso?

  2. Erica disse:

    Você me emociona profundamente com suas histórias, a forma como coloca cada palavra é de uma inspiração tão profunda que contagia .. adoro você Lak! sempre muito muito sucesso !

  3. SôRamires disse:

    Alegria! Recuperando o que a surdez te negava! É um triunfo! E outros virão! 🙂 😀

  4. Paula disse:

    PARABENSSSSS!!!!!
    E como eu te disse no Twitter, 0800 é um bom treino.
    Eu fazia isso, só quando chegava na hora de falar com a atendente é que me embananava toda….as gravações a voz é tão suave e bem articulada q dá pra entender direitinho.
    Parabéns Lak!
    beijãozão

  5. Eliane disse:

    Hoje graças a vc sou fã do IC e de fato o considero milagre da tecnologia, mas foi preciso vc e a sua capacidade de tornar os momentos da vida estrofes de um poema, para que eu pudesse compreender isso. Encontro seu e da Kali num momento tão marcante pra as 2 e pq não dizer para as 3, pq Heleninha terá gravado em seu registros a emoção de sua e mãe e dessa tia do coração. Lindo! momento mágico! 😉

  6. Greize disse:

    Lak, não ligue para mineiros eles “comem as letras.” Vão perguntar: Cê ta boa?.hahaha.
    Brincadeiras a parte que conquista, sucesso nos telefonemas, ligar para atendentes de 0800 é bom, já para operadora de celular vc ouve e treina musiquinhas.Melhor não.rs
    Bjim
    Greize 😀

  7. Coraçãozinho disse:

    <3 !

  8. Kali disse:

    E eu chorei! Chorei muito! Chorei de alegria, de surpresa, de emoção mesmo… por vc ter dado mais um passo em direção ao seu desejo e ao seu EU ciborg-ouvinte (e ter compartilhado comigo esse momento tão especial)!!! E depois eu continuei chorando… pensei em cada telefonema que não fizemos para falar coisas de adolescente e nas cartas esquizofrênicas que surgiram em função das impossibilidades… pensei em tantas coisas, tantos momentos… todos eles contidos, escondidos naquele telefonema de domingo à noite… Ai, como vc é incrível e como o IC é incrível!!! 😉

  9. Andressa disse:

    Falar ao telefone era uma das coisas q eu mais queria, era um saco ficar pedindo p outros ligarem p mim…hoje já uso quase q normalmente, mas se tiver em lugar ruidoso…esquece, sem chance!
    Uma dica p vc treinar no fone é ligar p 0800 da telefônica e ficar horas escutando a gravação…heheheh.
    Bjus

  10. Rogério disse:

    De nada valem os milagres, se a gente não acreditar neles.
    Eu vejo esse grande barato em você, essa força interior que acredita, que procura e vai atrás, que lhe enche de coragem para esquecer o medo e sobrepujar as possibilidades de fracasso.
    Não é o fruto disso que você está vivendo hoje? Não é por essa maravilhosa teimosia que você comemorou o som da balança do pão de queijo, do riacho, do Edu lhe falando ao ouvido e, agora, esse telefonema?
    Acho que você merece um sapinho! Quiçá dois…
    😀 🙂

    • laklobato disse:

      é, o primeiro IC me ensinou a escutar. E esse dom é raro hoje em dia. O segundo… simplesmente me permite ouvir. Como disse o médico que me operou, meu anjo de guarda: Tudo no seu tempo!
      beijinhos

  11. Andrea disse:

    Demais sempre seus textos Lak….me emociono sempre.
    Obrigada.
    Uma beijoca estralada para você…

  12. Andrea disse:

    Ahhh Mandei seu texto para minha melhor amiga…