Os caminhos que escolhemos e aqueles que nos escolhem…

MaranhaoEstive no Maranhão na semana passada, para mais um evento de implantados. Tenho que dizer, foi um dos vôos mais longos que fiz, se tratando de viajar para falar de Implante Coclear. E nesse vôo de volta, que atrasou mais de 1h, por conta de um nevoeiro em Guarulhos (se entendi bem), vim conversando com um rapaz que estava no banco do lado do meu.

Ele me contou que estava vindo para São Paulo fazer transplante de córnea, por causa de uma doença que evoluiria para a cegueira, a menos que ele transplantasse a tempo. Um dos olhos já tinha passado da possibilidade salvação, mas o outro, ainda tinha esperanças.

Contei que tinha ido ao Maranhão explicar sobre o IC. Ele respondeu que tinha reparado no aparelho (eu estava de cabelo preso) e que tinha até ficado curioso. Expliquei sobre o IC para ele – que como todo mundo, achava que era caríssimo e inviável, sem saber que o SUS cobre e os convênios também são obrigados a cobrir.

Quando cheguei em casa, fiz um texto no facebook, que queria trazer para o DNO, senão se perde:

“Um dia, eu acordei quase sem enxergar.
Imagina o pesadelo de viver esse dia, justo alguém que já tinha acordado sem ouvir 22 anos antes.
Foi um período sombrio da minha vida. Seis semanas de tratamento, várias caixas de antibiótico, corticoite, colírio, exames, muitas incertezas… Mas foi também o período em que a minha fé mais se fez presente. Eram longos períodos de oração e meditação pela manhã e à noite.
Por causa do tratamento, a luz de casa tinha que ser indireta. Eu passava o dia todo de óculos escuros. E nas orações, além de pedir para meus olhos serem curados, eu pedia para ser capaz de entender por que aquilo estava acontecendo comigo.
Foi quando recebi o diagnóstico de “você está curada” que o DNO nasceu. Ele nasceu para ocupar a cabeça, depois de sair (literalmente) das trevas. E dele, veio o implante coclear. E do IC, vieram as palestras. As viagens. As histórias compartilhadas. A minha família de alma. Meu propósito de vida. Eu não sei se as coisas estão relacionadas.
Nunca soube exatamente o que causou aquela cegueira temporária. Assim como a surdez. Mas cada vez que volto de viagem, depois de compartilhar minha história (e agora, muito do meu conhecimento sobre o IC), com gente desse Brasil afora, volto de coração mais cheio, com mais experiência na bagagem, bons amigos recém conquistados e uma vontade imensa de ajudar mais gente!”

Muita gente comentou que não sabia dessa minha questão da cegueira temporária. Eu nunca escondi o fato, mas também nunca exaltei. Não acho que o DNO precisa estar ligado à uma tragédia pessoal. Mas, certamente, ele nasceu num momento em que descobri que a cura era uma possibilidade na minha vida. Que eu descobri que as coisas boas também aconteciam comigo. 

De verdade, eu prefiro que ninguém tenha que caminhar na escuridão para encontrar a luz. Mas que cada um seja capaz de trilhar o próprio caminho que nos leva ao crescimento e que dão sentido à nossa existência.

De tantas as coisas que eu poderia reclamar que a surdez me tirou, tenho que lembrar que ela também me traz coisas maravilhosas no dia a dia. Experiências marcantes, bons amigos, alegria de descobrir a importância de coisas pequenas. Se eu não tivesse passado por nada disso, certamente seria alguém bem diferente. Mas não necessariamente alguém melhor.

Beijinhos sonoros,

Lak