Ouvido biônico

Eu e Edu vínhamos andando pela rua.
O carro estava na oficina, o que obrigou-nos a deixar a preguiça de lado e caminhar.
Caminhar em São Paulo parece não ser um passatempo dos mais comuns, paulista não é um povo ‘andador’.
Mas vínhamos andando naquela tarde fria de meados de outono.
As ruas me foram silenciosas por tempo demais, portanto caminhar agora tem um tempero muitíssimo especial: mais do que exercitar as pernas, de vagar a mente em pensamentos incessantes – é, a minha mente fervilha, quem me conhece sabe que eu falo rápido justamente porque penso mais rápido ainda – agora caminhar é acompanhado de uma barulheira orquestrada de sons cotidianos. Sons que a maioria dos ouvintes nem aguenta mais, mas que me são um deleite diário, porque me tem um sabor todo especial, como se eu tivesse apenas 18 meses de idade e estivesse em plena descoberta do mundo.
Durante a caminhada, foi possível ouvir tantas coisas. Carros, motos, caminhões. Pessoas falando, barulhos que vinham das casas. Latidos de cachorro, que me surpreendem de terem diversos tons. Cachorros tem vozes diferentes entre si, quem diria?
Até que passamos por uma rua pouco movimentada, em que não se ouvia quase nada, além dos sons da cidade ao longe.
Ouvi um barulho familiar, mas cujo registro exato ainda não se tinha formado no meu córtex cerebral e eu necessitei de confirmação. Sim, meu cérebro faz ficha dos sons que ouço, registra qual som é do que, até que ele se torna tão familiar, que não é mais preciso tirar a ficha do arquivo, ela está sempre a mão, inconfundível.
Perguntei ao marido prestativo, que sempre se diverte com as minhas descobertas. Engraçado, achei que ele fosse perder a paciência com essa minha curiosidade infantil rapidamente, mas não, ele é tão deslumbrado quanto eu!!
– O que é esse som?
Ele me olhou, fazendo uma pausa mental:
– Qual?
Eu respondi:
– Esse – apontando pro ar, um som repetitivo que sumia e reaparecia, de forma ritmada.
Ele sorriu:
– Passarinho, Lak…
Eu sorri de volta, dada a confirmação. Era bem o que eu achava que fosse, só não tinha certeza.
Edu me olhou com uma cara de contentamento quase irônico e disse:
– Sabe o que é engraçado? Às vezes, eu tenho que parar e prestar atenção para saber o que você ouviu, para poder te contar. Você vive em alerta para novos sons e eu não presto tanta atenção assim…
Comentei:
– Para mim, tudo é novidade!!

Depois, dei-me conta de uma frase que consta no perfil do blog, escrita há quase uma década, que sempre gostei de usar para definir a minha condição de quem não ouvia mas sabia prestar atenção e compreender as coisas: “…porque para ouvir, posso até precisar de audição. Mas para escutar, só preciso do coração. E eu sei que o meu não tem tamanho.”
E no fim, me dei conta que para saber escutar a gente realmente não precisa de audição, mas também não precisa de silêncio. É possível escutar com o coração mesmo usando os ouvidos…
Basta ter coragem de buscar a poesia do mundo!
Beijinhos sonoros,
Lak

30 palpites

  1. SôRamires disse:

    Passarinho…adoro ouvir passarinhos! 🙂 😉
    E agradeço a cada momento a existência de tecnologia que nos permita mergulhar nesse vasto mundo.

    • laklobato disse:

      Verdade… a tecnologia nos dá o que a natureza tentou nos negar… Que maravilha que é ser humano… a gente gente pode corrigir esses pequenos equívocos da natureza!
      Beijos

  2. Renata disse:

    Bom dia Lak, quando você narra alguma coisa eu também me pego prestando atenção, como no caso do suco de laranja. obrigada por partilhar suas experiências. beijos

  3. Juliana disse:

    Oi Lak!!! Nunca mais postei aqui… Mas sempre leio suas mensagens!!! O que achou dos cantos dos passarinho??? Uns 2 meses depois escutei um barulhinho repetitivo no meu quarto e fiquei procurando saber o que era e não consegui identificar. Ai chamei uma colega da casa para ela me dizer o que era e apontou o frigobar eu disse que não é isso e falei que era mais da janela e ela confimrou que eram os passarinhos. Pois no começo eu achava chatinho!!! Rsrsrsrs!!! Quando me acordo de manhã, abro as janelas e ponho o IC e logo já escuto os cantos deles… Eles ficaram na grade na janela, tem uma árvore pequena no quintal e ficam uns 5 passarinhos… Nossa, como me incomodava, hein??? 😳 E na hora do almoço, qundo tiro um pequeno cochilo tenho que desligar o IC senão nao consigo relaxar… Os passarinhos cantam o tempo todo e durante o dia… À noite eles estam dormindo e ai fica um silêncio gostoso, Rsrsrsr!!! Agora já me acostumei e fico apreciando de vez em quando essa cantoria!!! 😛 Hoje não suporto buzinadas.. 😯 Fico nervosa… Rsrsrsr!!! Beijosss!

    • laklobato disse:

      Eu achei gostoso o canto… Pouca coisa realmente me incomoda, tem que ser um som muito alto e repetitivo, que ai me cansa.. Ontem mesmo, eu tirei o IC pq o barulho do relógio de mesa estava me irritando hehehehe
      Ouvir tem encantos e desencantos, né? Beijinhos

  4. Simone disse:

    Acho engraçado você passar por esses momentos. Espero que ocorra mais com você e/ou mais alguém só para rir?! 😳
    Continua com suas descobertas. 🙂
    Um beijão!!
    Simone.

  5. SôRamires disse:

    mystéryo…meu post sumiu.
    Mas era só pra dizer que li e gostei comme toujours!
    J´aime le chat des oiseaux 😈 cho morcego não é passarinho!

  6. SôRamires disse:

    help não consigo postar aqui!

  7. Márcia disse:

    Oi Lak!
    Amei de coração e de mente sua inspiração poética!!!
    Quanto romantismo vc derrama em narrar o cotidiano pelo viés da doçura na relação com teu Edu! Daria um filme, sabia? Pense nisso!
    Abraço 😎

  8. Maíra disse:

    Eu detesto barulhos repetitivos! E fico encucada quando não sei de onde vem ou do que se trata. E pergunto. Pergunto para quem estiver na minha frente: que barulho é este?
    E a reação é a mesma do Edu, Lak.
    – Que barulho?
    – Este que faz assim ó [descrevo].
    – Ah sim: é tal coisa.

    E fico aliviada. É como um aprendizado, associar aquele som a algo para que, na próxima vez, já possamos pegar a ficha no nosso cerebrozinho e processá-lo. Não é mesmo?

    Hoje mesmo passei por isso.

  9. Bruna disse:

    E ainda há quem nos ache bobos por reparar nos pequenos detalhes/sons da vida…
    Adorei!
    Bjs

  10. Rogério disse:

    Eu sempre me emociono quando você relata essas coisas “banais”. Morei numa casa com terreno grande e arborizado, e sempre achei ótimo acordar com o canto dos passarinhos.
    Que bom que você tem o Edu a seu lado.
    Beijos

    • laklobato disse:

      Rooooooogs, tava pensando em vc. Tá de malas prontas já?
      Não esquece meu roteiro, heim? Depois me conta se fez alguma coisa da lista haha
      Beijos

  11. Lindo post, ah que gracinha, ter uma pessoa ao lado com paciência é muito gratificante, saber que temos amigos queridos, ou no seu caso um marido, eu me admiro muito quando leio seus posts, seu Edu é um presente em sua vida minha amiga, mais uma vez retifico…..
    Lindo post!
    O canto dos passarinhos são música pros meus ouvidos, aguçados por sons….
    Ao contrário do seu Edu, eu fico ligada em cada som, pra ver se meu Marcelo ouviu, sim ele ouve, mas muita das vezes não me diz…Sei que ele ouviu pq procura o som…….. Coisa de adolescente…. 😛

  12. Deni disse:

    Lak, que graça de depoimento… isso me fez lembrar uma coisinha, tempos atrás quando fui experimentar um novo AASI digital, dizem “superpotente”, fiquei uma semana experimentando, ouvia um barulhinho chato na sala da fono, depois na sala do meu trabalho, na cozinha de casa… e não conseguia saber sequer “desenhar” o barulho; quando fui devolver o dito cujo, comentei com a fono e ela: “é a lâmpada!” ohhhhhhhh…

    Bjs,
    Deni

  13. Deni disse:

    Pois é… imagine minha cara de “lâmpada faz barulho????” Sabe aqueles frias compridonas? dizem que tem um barulhinho, algo como um insetinho chato…
    bjin

  14. Marcela Cordeiro disse:

    Nossa, direto eu pergunto para o meu pai que é quem tem mais paciência comigo: pai que passarinho é esse que está cantando? Já conheço do bem te vi, e uns poucos, isso aprendo e gravo no cérebro sempre que vou para minha casa de praia, onde tem mais bichos igual mato: passarinhos diversos, sapos, grilos, tudo isso em encanta e sempre prestando atenção à essas descobertas. Uma maravilha!

  15. Mariana disse:

    Hahaha eu adoro esses momentinhos de arquivar os sons no cérebro =) toda vez que ouço um passaro, ou pergunto se é um passaro, mamae fica toda boba… 🙂