Pequenos cyberouvintes: Crianças e Implante Coclear

Outro dia, eu estava na comunidade Implante Coclear, do orkut quando uma mãe comentava sobre a dificuldade que era fazer as professoras da sua filha pequena, usuária do Implante Coclear, entenderem as necessidades especiais que o uso dessa prótese (como vocês sabe, o IC tem parte externa). A priori, alguém disse que mães não deveriam superproteger crianças implantadas, porque são crianças como quaisquer outras. Mas, ela argumento muito bem que não se tratava de superproteção, mas cuidados específicos que o IC demanda.

Eu, como usuária adulta, não tenho muita noção de como seria usar o IC ainda criança. Realmente, trato meu comparsa de som com o maior cuidado, mas sendo adulta, isso é fácil. Para uma criança, já não é tão simples. Sugeri à mãe que ela falasse do preço do aparelho e que, se as professoras fossem negligentes com o aparelho dela, ela iria cobrar os prejuízos da escola. O que realmente funcionou, segundo ela comentou depois.

Durante o debate, me surgiu um monte de curiosidades sobre implante de crianças. Muito porque vejo pais de crianças surdas em dúvidas quanto à cirurgia, dúvidas que até adultos tem, mas que no caso de pais, são acentuadas por medos comuns da maternidade/paternidade. Há quem até prefira esperar a criança ter idade para decidir, o que infelizmente, agrava os resultados, porque o cérebro tem período crítico para formação da audição/fala de um ser humano. Os melhores resultados são obtidos para crianças com menos de dois anos de idade. Entre os dois e seis anos, os resultados ainda são excelentes (embora um pouco menos do que se feito antes dos dois anos). E, à partir dos  seis anos, os resultados vão caindo.

A única exceção são recém ensurdecidos, que tiveram pouco tempo de privação sonora. Do contrário, os resultados são como os meus: lentos, graduais, que exigem paciência, determinação e boa vontade ao extremo. Se bem que eu adoro o resultado lento, gradual e que exige paciência, porque a alternativa é o silêncio que me isola do mundo hehehe

Enfim, durante a conversa, outra mãe participava contando a experiência de ter um filho implantado. Eu não resisti e pedi para ela ceder um tempinho do tempo para o DNO, contando como é ser mãe de um cyberouvinte (afinal, implantados são deficientes auditivos que ouvem de maneira tecnológica, dai o termo cyberouvinte). Ela se mostrou super solícita e respondeu com maestria minhas perguntas.

Então, que tal ler uma entrevista de uma supermãe sobre seu cyberouvintezinto?

DNO: Qual a idade do seu filho e com que idade ele foi implantado?
Rayssa: Meu pequeno Grande DAVI, fará cinco aninhos agora em Abril. Foi implantado em setembro do ano passado.

DNO: Foi difícil optar pelo implante coclear? Quais as dúvidas que permeavam sua mente?
Rayssa: Nossa, foram muitas duvidas, medos, aflições, sempre ficava muito preocupada com os riscos de uma cirurgia, cheguei até pensar em desistir!
Sempre pensava se nao seria mais fácil Libras, pois aqui tem escolas especializadas, tem surdos na Faculdade, com bons empregos. Pensava até que se Deus o tinha mandado assim, eu teria que aceitar.
Mas em outro momento eu pensava, ele agora é um bebezinho, tomo todas as decisões por ele, e quando ele crescer? Não posso priva-lo dessa forma, se existe essa tecnologia que pode propociona-lo a ouvir. Por que não?
É tão maravilhoso o mundo dos sons! Se essa for a forma com  que Deus vai fazer com que ele escute, então vai ser essa, ele vai fazer o Implante Coclear.
Daí o matriculei com 03 anos em uma escola de ouvintes, mas para ele se socializar com as outras crianças, fiz muitas muitas pesquisas na internet, conversei muito com os médicos.
O que me ajudou muito também a optar pelo IC foram os depoimentos de mães e adultos já implantadas na comunidade Implante Coclear. Pude ver maravilhas, felicidade em cada palavra que eu lia.

DNO: Como foi depois da cirurgia, durante a recuperação?
Rayssa: Após a cirurgia, saimos do hospital no outro dia [o tempo padrão de internação para a cirurgia de implante coclear é de 24 a 48hs]. Davi, depois que passado o efeito do sedativo, voltou a ficar elétrico, como sempre! Ele teve que tomar um anti inflamatório por conta dos pontos.
O cuidado redobrado foi muito importante durante a recuperação, afinal as crianças não sabem o que passaram, não querem ficar de repouso, querem ficar pulando,correndo direto, fazer o que não se deve. Mas foi tudo tranquilo, e após 09 dias o médico tirou os pontos e eu pude ficar mais tranquila rs

DNO: E a ativação?
Rayssa: A ativação foi um dos momentos mais esperados de toda a minha vida, afinal seria o dia mais importante de toda nossas vidas, seria a primeira fez que meu filho iria ouvir, seria o resultado de tanta angustia, tanto medo, tantas duvidas, o momento de dizer:
VALEU A PENA! E o dia tão esperado finalmente chegou, e quando eu pude vê aquele rostinho assustado ouvindo, o meu coração disparou, uma felicidade que não tem tamanhooooo, e a cada dia só cresce, a cada nova reação, a cada progresso.

DNO: Quais as orientações e recomendações quanto ao cuidado da parte externa vocês receberam das fonos e médicos?
Rayssa: o dia da ativação foi uma aula literalmente. Explicação de cada peçinha, como desmontar, montar, mostraram o que é antena (bobina), processador de fala, microfone, enfim toda a parte externa. Os cuidados básicos:
-Retirar a parte externa antes do banho, não coloca-la enquanto o cabelo estiver molhado;
-Não deixar a criança brincar nos brinquedos que sejam de plastico por causa da eletricidade estática, assim desprogramaria o processador de fala;
-Não deixa-las tocarem na tela do computador ou televisão, também não deixarem se aproximarem do microondas;
Cuidados diários:
-Observar o processador, cabos e antena;
-Colocar o testador do processador de fala sobre a ante, para verificar o funcionamento;
-Não esquecer de colocar no desumidificador todas as noites o IC, antes era manual, agora ganhamos o elétrico.

DNO: Seu filho já está na escola?
Rayssa: Sim, ele iniciou na escola no inicio do ano de 2009, por questão de socialização, ele repetiu o primeiro ano. Mas não desanimei!
Ano passado, o desempenho dele melhorou bastante depois do IC. Ficou mais atento na sala de aula, começou entender mais as coisas.
O trabalho das professoras e em casa ajudaram bastante e ele passou de ano. Esse ano, ele tá ótimo! A cada dia que passa, venho recebendo elogios, e eu creio que tudo vai dá certo.

DNO: Como foi, na escola, a aceitação com o IC? As professoras tomam cuidado com o IC? Você fez um manual explicando as particularidades de uma criança implantada?
Rayssa: Nesse caso, terei que explicar mais a fundo. Quando o matriculei em uma escola regular, eu já estava decidida quanto ao IC, e imaginava alguns  dos cuidado. Ficava com medo de como seria na escola, e se quebrasse, se era tão caro…Comecei as buscas de uma escola na qual eu sentisse segurança.
Foi quando eu encontrei essa que ele estar atualmente, fui logo explicando a deficiência auditiva dele. Na mesma hora me informaram que todas as escolas hoje em dia tem obrigação de aceitá-los, não tem restrição. Daí, expliquei que não queria Libras. Falei sobre o IC, eles foram muito atenciosos e o matriculei na mesma hora. Ele já usava o AASI e avisei dos cuidados necessários.
Quando ele fez o IC, a escola pediu uma listinha com todos os cuidados necessários que teriam que ter e eu fiz. A professoras tem super cuidado com ele. Quando é recreação e eles tomam banho de piscina, tiram a parte externa e guardam, só colocam quando o cabelo dele seca. Quando é dia de chuva, no final da aula elas já tiram e guardam porque se preocupam com o caminho da escola para casa. No intervalo, as professoras ficam sempre atentas, pois o aparelho desperta curiosidade em outras crianças. Elas sempre querem ver, pegar, sempre fazem perguntas: O que é isso? Por que ele usa isso? Por que ele não fala?
As professoras sempre explicam, que é o  aparelho é que faz com que ele escute e que não se devem pegar para não acabar caindo e ele ficar sem ouvir. Explicam também que a fala é só questão de tempo, e isso eles podem ajudar  [hahaha que fofas!!]! Todos gostam muito dele, ele conhece todos os professores, é muito carinhoso. E, graças a Deus não está tendo nenhum tipo de problemas na escola.

Mamãe Rayssa e Davi.

Encerro, então, o post com meu ditado favorito, relativo à maternidade “E porque Deus não podia estar em todos os lugares ao mesmo instante, Ele criou as mães”.

Beijinhos sonoros e ótimo final de semana,

Lak

21 palpites

  1. Mariana disse:

    Fechou bem o post com uma linda citação! =) Eu fico tão feliz com o desenvolvimento das crianças implantadas, é impressionante! Vale muuuito a pena! Parabéns pra mamãe e Davi! Eu já vi muitos vídeos de ativação em crianças e observo mais a cara das mães super emocionadas e empolgadas! É uma coisa linda ver crianças também, conhecendo o mundo sonoro, seja assustadas, seja curiosas, felizes… um mix de emoções! ;~

    Bjs

  2. Greize disse:

    Legal, a filha da minha prima tem 9 anos e acho que 6 anos de implantada, também teve dificuldades. No dela, não sei como é agora, tinha uma caixinha nas costas e o aparelho tem custos mesmo, tudo foi muito bem explicado, mas minha prima , sabe melhor do que eu.E hoje lembrando daquele tempo, onde ninguém nem sabia o que era IC, nem na internet, ela foi com a cara e a coragem para Bauru-SP. A filha esta ótima.Ouve muito bem, tv, telefone, enfim, tudo.
    Tirou a caixinha e colocou , um parecido com o AASSi, até colocou adesivos no aparelho de bichinhos.hehe.
    Creio que Deus esta em todos os lugares, auxiliando as mães e a medicina!!Para uma vida melhor a todos!
    Bjoss sonoros a minha primuxa e ao esse fofo do Davi!E é claro as mães guerreiras tb! 😉

  3. patricia disse:

    Lak;

    Adorei seu ultimo post e a entrevista. Tbem sou mae de implantados, como vc citou nós mae.s tbem somos apaixonadas pelo implante. A cada som novo, e cada palavra pronunciada a emoçao aumenta.
    Bjos;

    Patricia

    • laklobato disse:

      hehehe como eu disse, só tem 1 pessoa no mundo que ama o IC mais do que um implantado: a mãe dele! Não estou brincando. Sou adulta, fui implantada com 30 anos e vejo a emoção da minha mãe quanto ao IC. Ela nem era muito a favor de eu fazer e hoje é ávida defensora dessa tecnologia! Imagino que a emoção de uma mãe de criança seja parecida com essa que vejo nela, intensificado à todo o deslumbre de se ter um filho pequeno ouvindo!
      Portanto, vocês tem o meu total respeito e admiração.
      Beijocas

  4. SôRamires disse:

    Lak parabéns, mais um texto e entrevista super importantes para divulgar o implante coclear, sua adaptação e os cuidados que o equipamento requer. Não é nada de superproteção à criança implantada é uma questão lógica e de informação. 😀

  5. Igor Almeida disse:

    Muito bom post, é com muito agrado que sigo o seu blog enquanto aguardo pelo implante do meu filho.
    Um Abraço!

  6. Isabel disse:

    Parabéns Lak…como sempre ajudando aos menos experientes. Parabén também para Rayssa! Bjs p duas!

  7. Gitop10 disse:

    Oie Lak, sumi nos coments, mas sempre estou por aqui! Hoje meu amiguinho está sendo implantado na Unicamp. Estamos ansiosos pelo sucesso da cirurgia! Ele tem apenas 2 aninhos! Adoro seus relatos, sempre passo pra mãe dele. Bjao! Gi ♥ 😉

  8. luciana nascimento disse:

    minha filha tem hj 4anos e é empantadacom o ic .estou tão feliz por saber que tantas mãe participam desta mesma felicidade com seus filhos .fico toda boba qundo vejo minha lindinha pronuciando cada palavra é uma realização .me emociono cada vez que ela pronucia ou me chama mamãe é um sonho .que DEUS abençoe todas estas mamães.bjs 😳

  9. Izabel disse:

    Oi…adorei o seu bloq…estou com uma neta de 1 mes que foi diagnosticado surda neuro sensorial. A minha filha (mae dela) e o pai tb são surdos…Estou muito triste, porque não pensei que isto podia acontecer. Ela nasceu dia 05/02 e gostaria de estar sempre contatando você para dirimir duvidas.
    O que vc. acha do implante coclear para bebe? vó.

    • laklobato disse:

      Izabel, eu sou super a favor, porque se o IC for feito antes dos dois anos, a chance de sucesso (a criança desenvolve audição com total discriminação da fala e voz de criança ouvinte) beira a 100%… Mas, sempre é fundamental o apoio e empenho familiar. Os pais apoiam o implante, mesmo sendo surdos?
      Se você quiser entrar em contato com pais de crianças implantadas, eu sugiro o ‘Forum do Implante Coclear’: http://br.groups.yahoo.com/group/implantecoclear/, onde vários trocam experiências a respeito.
      Se você quiser conversar por email tb, avise, ok?
      Beijos e curta muito a netinha, ela ouvindo ou não.

  10. Samantha disse:

    Linda entrevista! Parabéns! Tinha algumas dúvidas que foram esclarecidas aqui. Mto obrigada!!!!! Bjs

  11. Cris Lopes disse:

    Soube do DNO pelo terapeuta ocupacional do meu filho (Miguel), que vai fazer um aninho na semana que vem. Ele teve complicações quando nasceu, teve sepse, precisou tomar medicação ototóxica por mais de 20 dias e isso, somado a outros fatores, acabou provocando perda auditiva severa. Passados quase quatro meses do diagnóstico, aguardamos a chegada do aparelho mas já fizemos o cadastro para o IC. Temos feito acompanhamento com a fono duas vezes por semana e é maravilhoso participar de cada conquista dele. Tudo é tão simples e tão necessário. Tenho fé em Deus de que ele se sairá muito bem com os aparelhos. No começo assustou um pouco. Sou jornalista, trabalho em rádio, sempre conversei tanto com ele durante a gravidez; no período em que “ficamos” internados no hospital; mas essa fase passou e estou confiante. Há muito trabalho, descobertas e alegrias pela frente! Parabéns pela iniciativa do blog; ajuda bastante a descontruirmos mitos sobre as pessoas que não ouvem. Abçs. Cris (São Sebastião -Litoral Norte – SP). 🙂

    • laklobato disse:

      Olha, com perda servera, acredito que o IC dê melhores resultados que o AASI (aparelho), mas os médicos é que decidem. Eles entendem mais dos resultados. Só te peço de coração que, se por ventura, ele for candidato ao IC, não te bata tristeza por ele ter que passar por uma cirurgia. Lembre-se que o AASI usa a audição residual e o som sempre vai ser meio distorcido, pq as perdas tendem a ser desiguais por frequencias e dificilmente um aparelho tem capacidade de equalizar bem o som que produz. O IC, por outro lado, cria uma audição artificial linear, que permite que o som chegue ao cérebro tal como é, sem distorções.
      E crianças implantadas tem resultado infinitamente melhor que adultos. Portanto, caso ele seja chamado para a cirurgia, pro favor, comemore como uma notícia excelente.
      Se ele for caso apenas de aparelho, igualmente excelente!!
      Beijocas

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