Perai, que eu não entendi muito bem…

Quando eu estava no segundo colegial (ensino médio), mudei de escola, pra estudar com minha melhor amiga de infância, que morava numa cidade do litoral fluminense. Passei uns meses morando com ela.
Na escola onde eu iria estudar, havia um professor de matemática que tinha uma fama de ser muito durão, rígido, que dava provas dificílimas, mas que todo mundo adorava e, por conta disso, o apelidaram de Paulo Diabo, o PC.
No primeiro dia de aula, eu estava parada na porta da sala, no rápido espaço de tempo entre aulas, quando o tal professor se aproximou de mim, sem que eu percebesse, e falou alguma coisa que eu ouvi, mas não entendi e tive que pedir pra ele repetir.
Ele falou comigo de novo e eu continuei não entendendo – talvez porque tenha me assustado ou porque estivesse distraída – até que ele achou que era pouco caso da minha parte e me disse algo bem irônico do tipo:

“Se eu mandar você se ****, você me entende?”
Arregalei os olhos, sem saber se ria ou chorava, mas minha amiga, que tinha ouvido ele falar comigo do outro lado da sala, foi correndo explicar que não era má vontade da minha parte, eu apenas não tinha audição boa o suficiente pra entendê-lo tão facilmente.
A expressão do professor mudou quase imediatamente e ele me fez o mais sincero pedido de desculpas que eu já “ouvi” na minha vida. Sabe aqueles pedidos que vêm do fundo do coração?
Achei que fosse ficar só nisso, mas, antes de começar a aula, quando já estávamos sentados e ele, de pé sobre o tablado, ele pôs-se a contar o que havia acontecido:
“Hoje eu cometi uma gafe. Fui falar com uma aluna nova, sem saber que ela era surda, e fui infeliz ao tentar me comunicar com ela. Já pedi desculpas, mas quero que todos vocês ouçam também esse pedido de desculpas, porque eu tenho comigo a promessa de jamais destratar uma pessoa com qualquer deficiência que seja.
Não porque eu seja uma pessoa caridosa, vocês sabem que eu não sou assim. Mas porque sei que deficiência não torna as pessoas piores ou menos dignas do meu respeito.
Quando eu estava iniciando a carreira, dei aula num curso de matemática avançada pra uma turma. Um dos meus alunos era cego, mas ele era tão inteligente, que não demandava nenhuma necessidade especial de atenção.
Ele simplesmente pedia pra eu verbalizar tudo e qualquer coisa que escrevesse na lousa. Números, sinais, letras, dissesse quando mudasse de linha, de coluna, para que ele pudesse copiar em seu caderno.
Eu tinha admiração por esse aluno, porque ele era esforçado e dedicado, dava prazer de ensinar pra ele, tanto quanto para qualquer outro aluno que estivesse interessado em aprender o que eu tinha pra ensinar.
Um dia, eu estava em frente a lousa, naquela ‘ditação’ necessária, ensinando uma equação muito complexa, que já vinha ocupando a lousa quase toda, até que eu me dei conta que eu tinha cometido algum erro e o resultado não batia com o que deveria ser.
Fiquei parado em frente à lousa, tentando identificar o erro que nem eu nem ninguém conseguíamos achar. Até que eu me cansei e decidi sentar um pouco, em silêncio, procurando pelo erro.
O aluno cego me perguntou:
– Qual o problema, professor?
E eu expliquei que a equação estava errada, porque o resultado não era o esperado, mas eu não conseguia saber onde tinha errado.
No que ele respondeu:
– Eu posso te ajudar. Fique de frente pra lousa. Volte tantas colunas, suba tantas linhas. Verifique se o erro não está ali.
E realmente, o erro era exatamente aquele. O rapaz era cego, mas foi a única pessoa capaz de enxergar aquele erro.
A partir desse dia, eu passei a respeitar de verdade as limitações de cada pessoa, porque percebi que uma deficiência física ou sensorial não significa uma mácula na essência do ser humano que ele é.
Por isso, Lak, mais uma vez, me desculpe. Eu não sabia que você não ouvia, mas tenho certeza que você é capaz de escutar meu pedido de desculpas, agora.”
Gosto dessa história não porque o professor durão me pediu desculpas, afinal essa situação acontece comigo sempre, mas gostei porque ela mostra a qualidades primordiais de dois seres humanos.
Um que, mesmo incapaz de ver, era capaz de enxergar coisas que nem quem via perfeitamente bem enxergava. E outro, porque não se deixou cegar pelo preconceito.
E é justamente esse tipo de história que mantém a minha fé de que tudo é possível.
Beijinhos,
Lak
p.s. essa história já tinha sido publicada no blog do Jairo Marques, colunista do jornal Folha de São Paulo, Assim Como Você.

10 palpites

  1. Já citei que sou uma manteiga derretida? kkkk juro que chorei lendo esse post hahahaha

    • laklobato disse:

      Di, admito pra você que até eu ainda me emociono com essa história. Não sei explicar porquê. Talvez porque seja raro alguém enxergar tão longe quanto o Paulo Diabo, de considerar o caso do aluno cego como um exemplo, não como um caso isolado…

  2. Keika disse:

    Que bonito…. também queria chorar! ihih
    adorei mesmo o layout! Ficou MUITO BOM!

    =D

    boa Sorte com seu blog lindo!

    • laklobato disse:

      Obrigada, Keika. Adorei sua visita e já aproveitei pra dar uma fuçada no seu site!! Babei com as fotos da Dominique do fotolog. Ela tá muito linda!
      beijos

  3. Diogo disse:

    Lak, o seu post me emocionou muito! Também tive meu caso semalhante ao seu. Também gostei muito daquela história de duende. Tu já és uma escritora e continua escrevendo suas idéias e vivências!

  4. Marcus disse:

    Muito legal!!!

  5. Rogério disse:

    Oi Lak, a gente se esbarra todo dia no blog do Jairo. Lembro-me de quando ele publicou seu texto-depoimento e achei o que qualquer pessoa de bom senso acharia: o mundo tem jeito. É o tipo de texto que tem que ser publicado pelo menos uma vez por semana, já que as pessoas ditas normais têm a estranha mania de se esquecer com muita facilidade que diferença não é defeito. Um beijo, seu blog é 10.

    • laklobato disse:

      Opa, Rogerio… Seja bem vindo, puxe uma cadeira, aceita um cafezinho?
      Uma pena constatar que esse professor é uma voz solitária ainda. Mas, tenho fé que chega o dia que as pessoas que respeitam as limitações sem olhar com peninha ou desdém ainda serão maioria.
      Beijão

  6. maira neves linda disse:

    eu gostei muito do link 😈 👿 😥 😳 😉 😐 😛 😡