Reabilitação auditiva em pacientes idosos

carlO texto de hoje, escrito por uma profissional especializada no assunto, Fga. Aline Albuquerque, foi feito em homenagem a todos os amigos que, ao se depararem com a perda auditiva de um parente idoso, se vêem cheios de dúvidas e não sabem como ajudar no processo de adaptação ao aparelho auditivo.

O texto é longo, mas vale a leitura. Todos nós, alguma hora, temos grandes chances de nos deparar com a deficiência auditiva de algum parente ou amigo mais velho e, com informação, podemos ser parte do processo de reabilitação da pessoa. Leia e saiba como você pode fazer a diferença:

Olá leitores do DNO, sou fonoaudióloga, especializada em reabilitação auditiva e fui convidada pela querida Lak Lobato para escrever sobre a reabilitação da audição em idosos. Na verdade, mais especificamente, sobre os desafios e complicações que encontramos com esta população, principalmente para os familiares que acompanham e apoiam todo o processo.
Por que será que muitos idosos com perda de audição afirmam que ouvem bem ou resistem em experimentar aparelhos auditivos? E por que mesmo com aparelhos auditivos eles ainda podem apresentar dificuldades? São vários os motivos. A seguir irei pontuar alguns deles para vocês:

– O tipo de perda de audição

A presbiacusia, que é a perda auditiva relacionada ao envelhecimento, se caracteriza por uma perda bilateral da audição para sons de alta frequência, acompanhada, geralmente, por uma dificuldade de reconhecimento da fala, muitas vezes desproporcional à perda auditiva.

Assim, por se restringir inicialmente para apenas alguns sons, os mais agudos (fininhos), conforme a situação, ora o indivíduo ouve, ora não ouve. Ou melhor, ele ouve partes das palavras, mas faltam algumas informações, fazendo com que escute o que a pessoa está falando, mas não consiga discriminar o que foi dito.

– Processamento auditivo central prejudicado

Além da perda auditiva, no envelhecimento ocorre uma degeneração em todo o sistema auditivo, trazendo um prejuízo também ao processamento auditivo central dos sons, ou seja,  ocorre um declínio nas habilidades auditivas que são responsáveis pela localização do som, discriminação de sons parecidos, velocidade de processamento, atenção seletiva e etc. Esse declínio da capacidade de processar corretamente os sons acaba comprometendo ainda mais a capacidade de compreender a fala, principalmente em ambientes com muito barulho ou quando há várias pessoas falando ao mesmo tempo.

– Cognição, linguagem e visão prejudicadas

Uma boa compreensão da fala não depende apenas de uma boa audição. Para conseguir ouvir e entender a fala, principalmente em um ambiente desafiador, como em uma festa, nós utilizamos recursos cognitivos e de linguagem, além da integração da visão com audição (percepção auditivo-visual da fala e leitura orofacial). Como a degeneração decorrente do envelhecimento ocorre em todo o organismo, a comunicação do idoso está prejudicada não somente pela perda de audição, mas também pelo declínio dessas habilidades. Assim, pode acontecer de idoso apresentar dificuldades de compreensão, mesmo com aparelhos auditivos adequados.

Por outro lado, quando estas habilidades estão preservadas, pode acontecer o mascaramento da perda auditiva. Ou seja, mesmo não ouvindo bem, quando o idoso tem um bom desempenho cognitivo ele pode apresentar também um bom desempenho comunicativo. Na verdade, o que acontece é que se o contexto da conversa é familiar, faz parte da rotina daquele idoso, mesmo com uma perda de audição considerável, ele pode ser capaz de acompanhar a conversa ou entender o que foi dito utilizando seu conhecimento no assunto. No entanto, se o contexto da conversa é menos usual, ou o vocabulário utilizado é mais complexo, o idoso pode ter dificuldade de compreender. Assim, os familiares podem ter uma falsa impressão de que o idoso está ouvindo bem, ou de que ele “só ouve quando quer”. Então, apesar de ser algo muito positivo, é preciso tomar cuidado para que esse tipo de compensação cognitiva, não adie a procura pela reabilitação auditiva.

– Assumir a deficiência

Muitos adultos e idosos resistem em testar o aparelho auditivo, pois associam a deficiência auditiva com a velhice e não querem assumir que estão ficando velhos. É bem difícil trabalhar esses estigmas em torno da deficiência e do envelhecimento. Mas, com muita conversa, conseguimos mostrar que a deficiência auditiva acaba aparecendo muito mais do que um aparelho auditivo, ainda mais hoje com tantos aparelhos modernos e discretos… E que na verdade, não há a motivos para se envergonhar!

– Isolamento social, depressão

Seja por vergonha de assumir que tem uma deficiência, ou por não querer incomodar os familiares, muitas vezes o idoso com perda auditiva ao invés de procurar ajuda, acaba deixando de fazer as coisas que costuma fazer. Assim, deixa de participar de atividades sociais importantes, como ir na igreja, no cinema e teatro, reuniões com amigos e familiares e etc. Aos poucos, o indivíduo vai se isolando de tudo e de todos gerando um risco imenso para um quadro depressivo.

Quando recebemos idosos no consultório nessas condições, a reabilitação fica muito mais complicada, pois falta a motivação do próprio indivíduo, que muitas vezes se sente abandonado e sem vontade de participar efetivamente da sociedade.

A perda auditiva está associada com declínios cognitivos e quadros de demência, como o Alzheimer, justamente por causar esse impacto na vida social e emocional dos indivíduos. Por isso, assim que uma perda auditiva é identificada deve-se buscar um tratamento. Não é preciso chegar em um ponto tão crítico para buscar ajuda, não é mesmo?

Certo, agora que sabemos os motivos pelos quais a reabilitação auditiva no idoso pode ser tão complicada, precisamos saber o que fazer para ajudar:

  1. Se informar
    Saber que a perda auditiva no envelhecimento pode cursar com outras alterações que também comprometem a compreensão da fala e que tem características peculiares já é um grande passo! Entender que a pessoa não está fazendo pirraça, pois “só ouve quando quer”, vai te tornar mais paciente e colaborativo. Como vimos, realmente, por causa do tipo de perda auditiva e dependendo do contexto e ambiente da conversa, a pessoa pode entender ou não.
    Então, é preciso ficar atento, pois o fato de ouvir “bem” de vez em quando, pode enganar os familiares e atrasar o processo de reabilitação da audição. Essa demora para buscar ajuda profissional é um grande problema, pois a gente sabe que o quanto antes a estimulação auditiva voltar (evitando a privação sensorial e “atrofia” do nervo auditivo), melhor e mais fácil será a adaptação com os aparelhos auditivos.
    É importante ressaltar que as queixas e início da perda auditiva não tem idade certa para começar, por isso a partir dos 60 anos é interessante realizar um checkup auditivo anual, principalmente se houver histórico de perda auditiva associada à idade na família.
  2. Procurar um profissional capacitado
    Como vimos, a dificuldade de compreender a fala que os idosos apresentam não se deve exclusivamente à perda de audição, logo a reabilitação auditiva não se restringe apenas à colocação dos aparelhos, mas também envolve a orientação de estratégias comunicativas, orientação aos familiares e adequação de expectativas.
    Além disso, requer que o fonoaudiólogo seja capaz de identificar a necessidade de reabilitar a audição periférica e a audição central, associando a adaptação de aparelhos auditivos com o treinamento auditivo.
  3. Se envolver e ter paciência
    Infelizmente, nem sempre os familiares ou mesmo o próprio idoso consegue ter a percepção de quanto a perda auditiva está afetando sua rotina, atividades sociais, capacidade funcional e desgastando o relacionamento com amigos e familiares.
    Frequentemente o indivíduo inicia o processo de reabilitação da audição buscando a solução imediata de todos os problemas. Muitas queixas são realmente resolvidas com a adaptação do aparelho auditivo, mas outras não. É preciso entender que o aparelho auditivo amplifica e melhora a recepção do som, mas a discriminação, como vimos, depende de outros fatores. Então, não é porque o idoso colocou o aparelho auditivo que agora a filha poderá falar com ele de outro cômodo casa. E também não é preciso ficar fazendo testes ou dificultando a vida da pessoa falando baixinho ou colocando a mão na frente da boca. Apesar de todo avanço tecnológico, os aparelhos auditivos não são super-orelhas! As pistas visuais são sempre bem-vindas! Falar de frente e devagar é fundamental, principalmente se o idoso também apresentar declínio cognitivo.
    Para qualquer pessoa, o início da adaptação com aparelhos auditivos pode ser difícil, principalmente se a pessoa está há muito tempo sem ouvir bem. O sistema auditivo e o cérebro voltam a perceber sons que já não eram mais percebidos, ou eram percebidos de maneira diferente. Por isso, é preciso ter paciência e entender que a pessoa pode se incomodar com sons mais fortes, mais estridentes e que é preciso dar um tempo para o cérebro se acostumar com a novidade e a nova estimulação. Para idosos esse tempo pode ser maior, pois o cérebro nessa idade não é tão “flexível” para se adaptar à estímulos novos, como é o dos jovens.
    Em alguns casos, é indicado que alguém acompanhe o idoso nas consultas com o fonoaudiólogo, principalmente no começo, pois são muitas informações em relação ao manuseio, colocação e cuidados com os aparelhos, para evitar que ele deixe de usar os aparelhos por não se lembrar de como se coloca na orelha, ou qual é o aparelho do lado direito e etc.

É isso, espero que esse texto seja capaz de incentivar as pessoas a ajudarem os seus pais, tios, avós com perda de audição a irem atrás da reabilitação e assim evitar todas as tristes consequências decorrentes da falta de interação e convivência social que acompanham a deficiência auditiva.

Fga. Aline Albuquerque Morais
Mestre em Ciências pela USP
Fonoaudióloga na Clínica FOPI
www.fopifono.com
aline@fopifono.com

Beijinhos sonoros,
Lak Lobato

2 palpites

  1. Samuel Raquel Tixiliski

  2. ÓTIMA LEMBRANÇA…MUITAS VEZES o idoso tenta esconder que não está ouvindo e a família custa a perceber. A falta de paciência para fazer exames e as necessárias adaptações também dificultam. Além disso os aparelhos auditivos são caros, precisamos lembrar sempre QUE HÁ atendimento pelo SUS.