Reflexões bilaterais 2

Pouco mais de duas semanas após a ativação, percebi-me já entendendo auditivamente, sem apoio da leitura labial, muita coisa em contexto fechado e pegando até frases em contexto aberto, dei-me conta de que ouço mais ou menos como ouvintes ouvem um idioma que dominam mais ou menos: algumas palavras conhecidas, frases e mensagens. Será que é apenas questão de tempo, treino e vocabulário?Fui conversar com o Raul (Sinedino, meu melhor amigo) se isso só veio a acontecer agora por causa dos 22 eletrodos. Já que era esperado que alguém que ouviu até os 10 anos reagisse assim com um IC. Será que 18 eletrodos numa cóclea ossificada distorciam demais o som e por isso, durante 3 anos não ouvi nada de compreensível na voz humana? Raul disse que pode ser que com 2 a diferença é que realmente seja imensa.
Por outro lado, é o lado esquerdo do cérebro (ativado pela orelha direita) que processa a comunicação.
Duvidas sobre o processo de compreensão sonora me surgem. Fui até falar com a fono que fazia minha reabilitação auditiva – temporariamente não estou fazendo fono, por favor, não sigam meu péssimo exemplo – e ela disse que podem ser diversos fatores.

O melhor nisso tudo é que, sem esperar, vivo novamente um período de deslumbramento sonoro. Agora, não com sons cotidianos, mas com as palavras que reconheço.
Eu me divirto de ouvir a conversa alheia (às vezes, consigo entender). Fico deslumbrada de captar as mensagens ditas pelos alto-falantes. De entender quando me chamam, sem ser pelo padrão do som, mas pela palavra compreendida auditivamente (explicando, Edu pra me chamar, fazia um padrão de repetição com a voz, que fosse fácil identificar, tipo Lalalá-Lalalá-Lalalá).

Sexta passada, dia 9/11, estive em Florianópolis a trabalho e pude ouvir o som do mar com os dois ouvidos. Fazia 25 anos que a minha coclea direita não ouvia som do mar hehehe E notei diferença, viu? A primeira é a localização do som. Mas, a sensação é diferente, porque ouvir com os dois ouvidos, faz parecer que o som está dentro da minha cabeça. Mesmo fechando os olhos, a sensação era que as ondas quebravam junto com o meu batimento cardíaco. Era como se eu fosse parte do mar ou o mar parte de mim, nem sei…

E no meio disso tudo, lá vou eu com meu encantamento, meu deslumbramento, minha vontade imensa de viver…

23 anos de silêncio, 25 anos sem compreender a fala. A vida me deu uma lição enorme sobre o tempo. Sobre paciência, fé e tolerância.

Beijinhos sonoros bilaterais,

Lak

P.S. De modo algum quero desmerecer quem tem um IC só. Ou quem tem menos eletrodos. Porque, ainda assim, tem quem ouça bem mesmo assim. A ponto de ter total autonomia auditiva. Outros não tem, mas estão satisfeitos mesmo assim. Cada caso é um caso e a única coisa que importa é ouvir, não interessa como.

4 palpites

  1. Virginia disse:

    Essas descobertas nos engrandecem.
    O que me encantou esses dias foi o cantar do galo e o cacarejar das galinhas e pintainhos.
    Tão simples, mas a nós que estamos reaprendendo as belezas dos sons, tudo é magia!

  2. Rogério disse:

    Como lhe disse recentemente, sua dicção melhorou uma enormidade, mas não é de agora; desde o primeiro implante notei diferença, agora com o segundo me pareceu que a resposta foi muuuuito mais rápida. Vai ver você estava precisando de um stereo para distinguir a fala. Minha filha me ensinou a não acreditar muito nessa coisa de funções cerebrais, tipo ‘o lado direito é responsável por isto e o esquerdo por aquilo’. Talvez o meu cérebro, que não sofreu lesão como o de minha filha nem teve que conviver com a surdez como você, siga este padrão. O estrago no cérebro de minha filha em tese tirava dela o direito de falar, e ela cantava, para desespero das verdades absolutas da neurologia. A teoria, no caso dela, foi de assunção neuronal de funções, ou seja, se onde deveria haver neurônios da fala e havia água, o cérebro chamou a galera do lado de lá pra botar a moleca pra cantar.
    Imagino que, com o primeiro IC, tenha ocorrido algo do gênero com você, situação que foi consolidada com o segundo implante.
    Sei lá, são apenas teorias de um especialista em quase nada.
    O importante é que você já está até bisbilhotando a conversa alheia hahaha, e a tendência é melhorar a cada dia.
    Acho que vou botar um sapinho hoje. Beijão.
    🙂

  3. Babsie disse:

    Lak,
    Eu leio aqui e calo. Mas gostaria de te dizer que sou uma deslumbrada. Eu gosto mesmo de descobrir o pequenino das coisas. Aquilo que é preciso um fato grandioso para despertar o nosso olhar. Então, ler teus comentários me dá a medida exata do pequenino das coisas causando grandes transformações na vida das pessoas, na tua vida…
    As lágrimas diárias do Lobo ao ouvir determinados sons, a maneira como o som está mexendo com a tua vida…
    A primeira médica que faria a cirurgia do Lobo disse que, para alguém tão bem oralizado, o implante não seria mais que 10% de ganho real e que fazer dos dois lados ou de um só não faria diferença. Era mais uma chance de qualidade de vida. Mas, não é o que eu tenho acompanhado com todos os implantados que conheci e agora mais intimamente com o Lobo.
    Continue a nos descrever os pequenino das coisas. O grandioso de todas elas.
    Um beijo.