Relatório Semanal de uma cyborg

Gosto de sair da fono e vir direto pro blog contar das maravilhas evoluções semanais.

Mas a consulta dessa semana não teve grandes novidades, relacionada à semana anterior. Basicamente, a parte das consoantes vai demorar, pela quantidade de informação nova, a ser aprendida.

Só que, por outro lado, conversamos um pouco sobre as evoluções semanais. Porque eu percebo, independente da consulta.

Ontem, estava parada no sinal/farol/semaforo/sinaleira (aff,essa palavra tem sinônimo demais!) e um taxista parou do meu lado. Como não tinha porque ficar olhando pra cara dele, virei o rosto e fiquei esperando o sinal/farol/semaforo/sinaleira abrir.

Eu admito que, pelo tempo que fiquei sem ouvir, eu tenho um delay (é assim que se escreve?) de alguns segundos pra responder a um estímulo sonoro, pois qualquer parte do corpo pouco usada acaba atrofiando.

Mas ontem, o taxista deu uma buzinada e eu virei imediatamente o rosto na direção dele. Até eu mesma fiquei surpresa com a pronta-resposta do meu cérebro, de tão imediato que foi receber a mensagem sonora e virar o rosto na direção dela. Ele queria me avisar que iria me dar uma fechada, pois iria entrar numa ruazinha que ficava a nossa esquerda. Respondi que tudo bem e ele foi embora, enquanto eu sorria de orelha à orelha, de perceber uma pequena ativação de resposta a estimulos sonoros, da parte do meu rebelde cérebro.

Falei pra Aline hoje: as pessoas se preocupam demais com o fato de que o IC reproduz um som metalizado. Pra quem só tem a alternativa do silêncio (ou o som cheio de chiado dos AASIs) essa comparação acaba servindo de desestímulo de algo que pode ser a porta de entrada de um magnífico universo sonoro negligenciado. O cérebro é muito mais capaz de se adaptar do que sonha a limitada necessidade de proteção humana.

Como disse à minha amiga Juliana, via twitter (que brincou de me comparar à borboletas quando me referi à antena do IC): mais do que antena, essa parte do IC é asa, porque me permite voar por um universo inteiro! Asas sonoras…

Beijinhos sonoros e bom final de semana,

Lak

17 palpites

  1. Artur Guarnieri disse:

    Oi Lak, soube da belíssima novidade lá no HB e vim aqui conferir… Fiquei emocionado com o outro post e consolado de até o som de uma buzina ser tão impactante(o que no trânsito nos tira do sério) quanto perturbadora. Por mais que eu tente imaginar o quão isso é importante pra você, jamais poderei saber exatamente como é, mas creio que deve ser mesmo como ser de outra planeta e chegar a Terra e conhecer um mundo, senão universo, novo. Pois a única vez que experimentei algo parecido foi ter ficado sem ouvir por culpa de um cotonete e o alívio de após uma “lavagem” voltar a escutar. Mas posso contribuir falando a respeito da matemática e dos estímulos. Então, eu era péssimo em matemática. Não conseguia compreender quase nada… Só que com seis anos comecei a estudar música, e as coisas mudaram um pouco e dois anos depois parei. Na adolescência voltei a estudar, trocando o piano por violão e afins, e, a matemática voltou a andar bem, assim como a física. Nunca havia parado para pensar a respeito se havia alguma relação com isso e agora me parece um fato curioso. Bem, é isso que podia acrescentar. Desejo a você grandes (re)descobertas neste “mundo” novo. Beijos

    • laklobato disse:

      Eita, Artur, com você também rola essa aproximação da música com a matemática? Que interessante!! Agora fiquei mais curiosa ainda…
      Enfim, tem emoções que só vivenciando pra saber a intensidade, mas tento compartilhar com vocês, porque ver de fora também emociona, ainda que de outra forma, né?
      Beijinhos e obrigada pela visita aqui no DNO.

  2. Juliana Toro disse:

    😀 q fofa!! =D viu? por isso q é mesmo antena de borboleta, e daquelas beeem coloridas. Aposto q as fadas fazem esse implante nas pessoas, mas como ficam disfarçadas ninguem sabe…

    beijos de borboleta! 😀

    Juju

  3. SôRamires disse:

    Lak essa de ouvir a buzina e virar o rosto na direção certa é sensasional! Comemoremos porque merece!
    Estudei música antes e depois da surdez, e não lembro se foi um regente de coral, um professor ou algum colega que sempre afirmava: Música é Matemática, quando alguém perdia o ritmo. E também nas aulas de física as vibrações das cordas produzindo diferentes sons conforme a tensão…isso fica fácil ao ver como se afina um violão girando as chaves…

    Tá na Wiki:
    Os teóricos da música com freqüência usam a matemática para entender a estrutura musical e comunicar novas maneiras de ouvir música. Isto levou a aplicações musicais da teoria dos conjuntos, álgebra abstrata e teoria dos números. Os estudiosos da música também usaram a matemática para entender as escalas musicais, e alguns compositores incorporaram a proporção áurea e o número de Fibonacci em seu trabalho.

    Quanto à curiosidade do Jairo sobre neurônios e audição…dizem especialistas que se uma criança nascida surda não adquire uma língua (verbal ou sinalizada) todo seu futuro desenvolvimento intelectual pode ficar comprometido. E assim como os outros sentidos a gente aprende a ouvir ouvindo. Embora eu saiba que você não gosta dos textos do O.Sacks
    porque parecem tomar como definição surdez total e sinalização, a parte em que fala dos danos neurológicos ao não adquirir uma lingua é muito interessante.
    Adoro este blog porque sempre saem papos muito interessantes. 😮 😮 😮 😮
    Lengendas do sapinho: ô ô ô ô

    • laklobato disse:

      Hehehe valeu…
      Mas, tb fala que os surdos congênitos acabam tendo facilidde com matematica justamente pelo desenvolvimento mais fraco da area da comunicação. Porque o cérebro deles acaba se desenvolvendo de forma diferente…
      Valeu pelo adendo!! Importantissimo pro blog.
      Beijos

  4. inês disse:

    Só uma achega: e então como explicar as semelhanças entre alguns aspectos da linguagem matemática e a gramática da língua portuguesa?
    Durante os anos que dei aulas, acontecia muitas vezes ter alunos que não tinham facilidade em escrever, em se exprimir por escrito, mas que eram barras na gramática, com facilidade em en tender, memorizar e aplicar…e depois, nas reuniões com os outros professores, descobria que esses alunos normalmente eram bons em matemática!
    Outra coisa…ontem não consegui comengtar nada: li o teu post e fiquei com um nó na garganta! Depois cheguei aos comentários da Sô e emocionei-me imenso (ainda mais)! Que sorte eu conhecer-vos, 2 pessoas com uma sensibilidade tão grande, tão genuínas e tão capazes de amar os outros!
    Beijos às 2! (Sô, ando meio desaparecida porque estou quase quase no final da minha tese! – desculpa estar a usar o DNO como pombo-correio, Lak!!) 🙂

  5. SôRamires disse:

    Este blog virou um centro cultural!Vivaaa!
    E lembrei de outro livro do Sacks, Alucinações Musicais que trata disso mesmo: gente que ouve música que não está sendo tocada fora mas sim do lado de dentro! Gente que assimila partituras inteiras só de ouvir uma vez. E outras coisas desse fantástico mundo do avesso da gente.
    Inês, sempre no coração da gente. Bom trabalho. 😀 😀 😀 diga cheese para sair sorrindo na foto ou melhor diga xis…

  6. zuleid disse:

    Oi Pessoal!
    Ontem e hoje tivemos aqui em São Paulo um curso sobre acesso a medicamentos, e é claro que eu levantei a polêmica do IC. Foi excelente a resposta do público presente e de repente me vi com a missão de responder questões que eu não sabia (técnicamente!) mas ao mesmo tempo me apropriei de suas experiências Lak 😳 , prá dizer da importância do IC na vida de alguém!
    Foi muito bom sentir que mesmo um pouquinho eu pude “ajudar” mandando meu(nosso) recado aos gestores públicos, aos deliberadores da atenção básica de saúde e “aos que mandam” 👿 nas decisões do nosso país!
    Eu dei o endereço do DNO e pedi que eles lessem antes de decidirem estas questões. Agora é torcer também. Beijos!!

  7. SôRamires disse:

    Aos frequentadores do Centro Cultural DNO:
    Não resisti e resolvi compartilhar um artigo sobre música, matemática, etc
    http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=14985
    e se pesquisarem no google sobre o conceito “música das esferas” vão encontrar artigos muito interessantes. Zuleid obrigada por divulgar este blog que pode ajudar a muitas pessoas.

  8. Rita Costa disse:

    Oi, Lack, finalmente conheci seu blog e adorei!!!! Guardada as devidas proporções, imagino a emoção que sentiu ao identificar a buzina. Sei como são essas “pequenas conquistas” pois nesses 9 anos de vida da Júlia já vivi esses momentos em diversas circunstâncias e é muito bom ver o progresso das cirurgias e terapias refletido em situações cotidianas. Sei que você não gostam disso mas não posso deixar de te dar os parabéns por esta imensa conquista. E muita gente, assim como eu, ainda reclama por ouvir tanta buzina no trânsito… se soubessemos o valor dos sons agradeceríamos ao invés de reclamar. Obrigada por me ensinar mais essa.

    beijos no coração e fique com Deus,

    Rita Costa

    • laklobato disse:

      Hahaha tem horas que a gente gosta sim. E, no caso, foi algo inusitado, reconhecer a buzina…
      Daqui a pouco, irá se tornar banal, mas por enquanto, ainda é tudo novidade…
      Grande beijo, querida. E obrigada pela visita.

  9. Marília Sunshine disse:

    Oi Lak!! Que legal hein?! Estou adorando te acompanhar! Tenho uma curiosidade que me bateu na cabeça esses dias… tem algum artista que vc não conhecia antes da deficiencia, que agora que vc pode ouvir a voz dele, te deixou frustrada ou te surpreendeu pela voz?!! (olha as coisas que a menina imagina!! 😳 ) é que tem pessoas que tem uma voz destoante do tipo físico!! 😛 Já percebeu isso?! Bobeira… beijos!

    • laklobato disse:

      Hahahahaha artista, não. Pessoas do dia a dia, sim… A maioria tem voz parecida com a que eu imaginava. Mas uma ou outra, é bem diferente, muito mais fina ou mais grossa que na minha imaginação. Ai eu fico com aquela cara de papel pensando “ei, essa voz não é a sua” hihi
      Beijos