Retornando à Semana de Inclusão do SENAC dois anos depois em São Paulo (SP)

Para quem acompanha o DNO há tempos, talvez a introdução não seja novidade, mas…

Há 2 anos atrás, a organização da Semana SENAC de Inclusão e Diversidade, entrou em contato comigo me convidando para dar uma palestra.

Até então, eu tinha dado alguns poucos depoimentos em eventos de implantados, apresentado meu TCC, falado em reuniões do trabalho e suava frio diante de qualquer apresentação em publico, porque como boa surda oralizada sem discriminação auditiva da linguagem nem mesmo com apoio de implante coclear, eu não sabia sequer como a minha voz soava, então só conseguia fazer controle de volume dela e olhe lá.

Mas, claro, aceitei o desafio. Pra falar a verdade, não me ocorre um desafio que eu ainda não tenha aceitado, mas tudo bem. Dar palestras sempre foi um sonho meu, porque cresci nos cursos, palestras, congressos e festivais que meus pais ministravam. E desde pequenininha, como toda criança que se preza, eu queria fazer o que meus pais faziam!

Aceitei o convite e dei uma palestra de 1 hora, que falava sobre inclusão social de surdos oralizados em escolas e ambientes corporativos. Baseando-me, é claro, na minha experiência particular e no que sabia dos amigos e alguma pesquisa que fiz.

Pois bem, foi ali que descobri meu talento para palestras e o resto vocês já sabem…

No último sábado, dia 11 de outubro, estive novamente no SENAC. Desta vez, já biimplantada, conhecendo muito bem a minha voz, com 1 ano e pouco de fonoterapia e já com bastante experiência com palestras.

Foi muito bacana, porque era um encontro de autores, com debate com o publico depois.

O primeiro autor a falar fui eu. Contei a minha história, a história do blog, minha história com o IC, até chegar no livro. E, quem já assistiu uma palestra minha, sabe que eu conto as coisas de forma leve, poética, quase etérea. As pessoas choram, riem, se emocionam e muitas, após o término, comentam que se sentem mais leves consigo mesmas.  Um comentário muito bonito que deixaram numa foto minha compartilhada no  Facebook, para ilustrar “Uma das palestrantes que mais me tocou, e me trouxe o desejo de continuar a acreditar que os obstáculos existem, mas nossa força interior é maior, parabéns Lak Lobato, estou amando ler seu livro, sua história, obrigado por compartilhar sua vivência dentro da deficiência…” [Prof. Gilberto Zanni]

Na sequência, veio a palestra do taxista Márcio Câmara, que conta a história de vários personagens com deficiência que ele conheceu trabalhando na rua. Gente que nasceu assim, que se tornou deficiente, mas acabou como trabalhador de rua, pela falta de oportunidades.

Por fim, uma palestra da antropóloga Marta Gil, que falava sobre o livro dela “Caminhos da Inclusão” e contava a história da inclusão de cegos nos estudos e no mercado de trabalho, que cujo caminho foi aberto pela Dorina Norwill. Chorei muito durante a palestra dela. Não conhecia bem a história da Dorina. Tal como eu, ela teve uma perda sensorial súbita que nunca foi perfeitamente diagnosticada, em que a visão deu lugar à cegueira e ela teve que se adaptar.

Depois das palestras, teve debate, onde fizeram diversas perguntas. Uma delas, veio do Prof. Eduardo, que ensina LIBRAS no SENAC. Ele comentou que se identificou com partes da minha história, pois nasceu ouvinte como eu e perdeu a audição aos 7 anos, por sequela de meningite. Mas, ele se encontrou na língua de sinais e hoje se considera Surdo. Disse que respeitava minha opção pelo implante, porque por ter nascido ouvinte, sabia que eu sentia falta de ouvir. Mas, como isso ficava na questão da identidade, no que se refere a crianças implantadas.

Respondi que eu entendo esse debate sobre a identidade, porque realmente todos queremos ser parte de um grupo e nenhum implantado pode se considerar um ouvinte. Que eu mesma não me considero ouvinte, já que dependo de uma prótese para ouvir. Porém, que a deficiencia auditiva forma um grupo com diversidade. Há implantados que tem perfeita comunicação através da audição e da fala oral. Outros, precisam de LIBRAS como idioma principal ou auxiliar. E outros rejeitam o implante, porque identificam-se somente com a LIBRAS. É preciso tirar a surdez de uma caixinha, onde todos os surdos tenham que se comportar igual e abrir espaço para multiplas identidades, que respeitem todas as opções de comunicação e linguagem.  E que, particularmente, eu considero ser “implantado” uma forma de identidade própria. E é o que eu me sinto hoje, uma deficiente auditiva que ouve através do implante coclear.

Perguntaram também sobre inclusão no trabalho e na escola. E como foi minha experiência escolar… Enfim, muita gente interessada e muito assunto para debater.

O gostoso nisso tudo é observar como a minha opinião a respeito de muitas coisas vai se transformando. Não sei se antes eu me sentiria confortável para falar (como leiga, não falo como especialista) da questão da identidade. Durante muito tempo, eu via a surdez apenas sob a ótica clínica. Hoje, acho que vai além e também tem a ótica sociocultural. Porém, eu ainda acho que a diversidade e o respeito pelas multiplas identidades é o que prevalesce. Nem todo surdo nasceu surdo, nem todo deficiente auditivo se sente confortável para debater abertamente o assunto. E todos devem ser respeitados e não julgados.

E algumas fotos para fechar o texto e deixar quem não foi, babando de vontade para participar do próximo!

Beijinhos sonoros,

Lak

 

5 palpites

  1. Maria Aparecida Capellari disse:

    Querida Lak, fiquei imensamente feliz em revê-la e principalmente em saber que pudemos contribuir de alguma forma para despertar a palestrante que estava escondida. Estou lendo o seu livro e estou amando. Obrigada mais uma vez por estar conosco e também por esse belo registro no seu blog. Desejo a você muito sucesso e que possa continuar auxiliando com seu exemplo de vida, aqueles que precisam encontrar uma luz em seu caminho. Ah, agora toda vez que abro uma garrafa ou latinha de refrigerante, é impossível não lembrar de você. Muitos beijos sonoros para você e Eduardo.

    • Lak Lobato disse:

      Tão bom ler essas coisas. É gostoso ter retorno do que a gente faz, né? E energia boa que a gente emana sempre encontra um ótimo lugar para repousar..
      Beijinhos e obrigada por tudo, sempre…

  2. Renata Meirelles Maia disse:

    Oi Lak. Meu nome é Renata tenho 28 anos, sou DA severa em OE e moderada em OD, usuária de AASI a 1 ano. Trabalho na rede estadual de educação do Rio de Janeiro. Dou aula no curso de formação de professores. Esse seu post caiu como uma luva, pois fui me meter a besta de fazer uma palestra para os futuros professores de ensino fundamental, de como trabalhar com o DA ou Surdo em sala de aula. Pedi ajuda a Paula Pfeifer que prontamente me ajudou. Gostaria de umas dicas suas tmb. Já estou com a apresentação pronta, posso te enviar para vc dar uma olhadinha??? 😳

  3. Marta Gil disse:

    Lak, querida

    Só agora li seu comentário… e prá variar me emocionei 🙂

    A história de dona Dorina é muito bonita, mesmo e não sabia como ela “bateu” em vc. Vocês têm traços em comum: mulheres bonitas, que sabem aliar a valorização da beleza – em todos os sentidos – e o profissionalismo, a competência, a garra, a disseminação de informações.

    Esta Semana de Inclusão do SENAC revela talentos e pessoas incríveis – e devemos isso à Maria Aparecida Capellari e sua equipe maravilhosa.

    Fiquei super feliz por saber – e comprovar – o desenvolvimento deste seu lado de palestrante, tão importante!

    Muita luz!

    Um beijo carinhoso
    Marta

    • Lak Lobato disse:

      Então, Marta. Eu chorei muito, mas segurando as lágrimas, porque não era momento pra lavar a alma hehehe A minha história nem se compara a dela. Ela fez mudanças reais para um grupo de pessoas que colhem frutos dessas mudanças até hoje. Eu apenas divulgo um sentido recuperado. Mas, não posso deixar de vê-la como um exemplo da pessoa que eu gostaria de ser! No sentido de conquistar, mudar, transformar, sem nunca perder a candura. O que claramente a gente percebe que ela fez, pelo simples fato de ser tão amada até hoje.
      Foi uma honra compartilhar um debate com você!
      Beijinhos sonoros,
      Lak