Semicidadãos?

Acho que todo mundo sabe, mas não custa dar um empurrãozinho na memória de quem tem ela curta. A luta pela acessibilidade, pela inclusão social pela igualdade de direitos das pessoas com deficiências não é de hoje, mas há 10 anos atrás, se falava disso muito menos do que se fala hoje (e tenho certeza, porque sou otimista de carteirinha) que hoje não sem fala nem a metade de amanhã.

Heis que, em fevereiro de 1999, eu folheava o caderno Folhateen, da Folha de São Paulo, quando me deparo com uma matéria sobre as dificuldades dos adolescentes obesos. Achei o máximo, porque tenho certeza que portadores de obesidade sofrem tanto (ou mais, porque tem quem considere obesidade desleixo) que os que possuem uma deficiência física, cerebral ou sensorial.

Terminando de ler, sentei em frente ao teclado e pus-me a digitar uma carta solicitando uma matéria similar falando dos jovens que possuíam deficiências. Falei de mim, da minha situação – porque sou exibida e se citar como exemplo sempre ajuda na credibilidade – e dei “enviar”, porque sou superhipermoderna e mandei por email hahaha

Poucos dias depois, vejo a carta publicada na Folha:
cartafolha

Como eu uso monitor de 19″ aqui no trabalho e 22″ em casa, não sei se todo mundo consegue ler, então segue a transcrição abaixo:

Semicidadãos?
Tenho 22 anos e já vi matérias sobre deficientes físicos, auditivos, visuais ou mentais, só que quase sempre num estereótipo de semicidadãos. Não temos direito a quase nada desse país, somos os parias; às vezes, a própria família tem vergonha do filho, irmão, parente deficiente, tendo ele nascido assim ou não. O pior é que somos tão marginalizados que nós mesmos temos vergonha do que somos. Cito um exemplo: uso a Internet e comentei com uma amiga de chat, fora do reservado, que sou surda desde os 9 anos. Um rapaz do chat, também surdo, ficou cho, ficou chocado, pois os deficientes auditivos escondem esse fato na Internet!
A seu pedido, contei que curso publicidade, dependo 100% da leitura labial e me viro pra assistir aula (sento na frente, pego caderno emprestado, estudo em casa). E tenho um desempenho excelente. Sempre estudei com pessoas “normais” e nunca me senti intelectualmente inferior.
Queria, então, pedir uma reportagem sobre jovens deficientes (auditivos ou não) que conseguem levar uma vida normal no Brasil, estudar, ter empregos, amigos,s e sentem capazes, para ajudar outro jovens a sair dessa clausura.
“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, Caetano Veloso
Lakshmi Lobato, (São Paulo, SP)

10 anos depois e as minhas palavras (em uníssono com muitas outras vozes que brandavam pelo mesmo) não foram em vão (logo mostro os resultados na época), hoje, já se fala muito em SUPERAÇÃO, não se limita mais a falar de deficiência com coitadismo e vitimização, a falar de todos os problemas que ela causa, sem falar também das vitórias que se consegue, apesar da deficiência.

Por isso que, quando alguém tenta me mostrar o pior do mundo, cismo de manter a cabeça erguida e dizer: Tudo é possível!

Beijinhos
Lak

2 palpites

  1. Agnaldo disse:

    Dost Lakshmi,

    Que prazer acessar seu blog e verificar o relato que certamente reflete o pensamento da grande maioria dos portadores de alguma deficiência.
    Concordo em gênero, número e grau e quero deixar registrado que graças à você, a cada dia me torno mais e mais confiante e determinado a aceitar minhas limitações e explorar as “vantagens competitivas” ao invés de viver me lamentando por conta das eventuais “barreiras” impostas pela sociedade.
    Infelizmente, apesar dos grandes avanços na questão da inclusão, “teoria” e “prática” ainda não estão alinhadas, haja vista a questão da baixa qualificação dos PPDs versus dificuldade na contratação de PPDs qualificados.

    Um grande abraço e muito sucesso !

    ;o)

    • laklobato disse:

      Somos pioneiros, Agnaldo. Talvez nem tudo pelo que lutamos seja pra nós, mas para as gerações vindouras. Nem todo mundo vai viver o suficiente pra colher os frutos do que plantamos agora, mas se isso fosse motivo para desistir, nenhuma mudança teria sido feita no mundo e ainda estaríamos vivendo nas cavernas hehehehe.
      Li uma frase uma vez que um pai dizia pro filho: Suba nos meus ombros. Agora você está vendo mais longe do que eu?
      Acho que é bem por aí: trabalho de equipe, incentivo mútuo e consciencia de que algumas mudanças talvez demorem mais do que nós gostaríamos, mas não deve ser motivo para desistir!
      Beijinhos