Surdez Unilateral: AutoAceitação, o primeiro passo.

unilateral

De vez em quando, eu tenho abordado esse assunto aqui no DNO, porque comecei a notar que a sociedade só fala da surdez bilateral. Porque, claro, a surdez bilateral atrapalha muito a comunicação oral e a compreensão da linguagem. Já os surdos unilaterais possuem uma “vantagem” perante nós, de ouvirem naturalmente com um dos ouvidos. Porém, dizer que um surdo unilateral não tem deficiência é quase como dizer que uma pessoa sem uma perna não tem deficiência, porque ele pode caminhar com muletas ou com uma prótese. Se o natural é ter duas orelhas ouvindo, ter uma só coloca a pessoa sim em desvantagem.

“Ah, mas eles conseguem falar no telefone, conseguem ter uma voz normal, conseguem assistir aula normalmente.” Bom, implantados também conseguem, quando tem um excelente resultado auditivo. Deixaram de ter deficiência por isso? Não, então surdos unilaterais também tem deficiência, certo? A sociedade ainda discorda, muito por falta de conhecimento.

Mas, os próprios surdos unilaterais muitas vezes não aceitam tão bem essa condição não. Mas, hoje quem vai abordar o assunto é a Manoela Munhoz, autora da Página Deficiência Auditiva Unilateral do Facebook e minha mais nova amiga cyborg, já que acabou de implantar um aparelho de condução ossea, bonebridge.

Se você mesmo não se aceita, como espera a aceitação do sociedade?

A surdez unilateral por muitas vezes pode sim passar despercebida pelas pessoas, afinal o ouvido bom dá duro para tentar compensar a perda auditiva. Porém sabemos que isso não é possível, e nós unilaterais passamos por diversas dificuldades diariamente, algumas fáceis de superar outras nem tanto. Mas toda superação deve ter início na sua aceitação como pessoa, como deficiente e principalmente como SURDO.

Nós unilaterais temos uma certa dificuldade de assimilar que somos surdos, passamos por diversas fases na vida e principalmente na adolescência tentamos esconder nossas fraquezas. Afinal, o ouvido bom mascara o ouvido surdo e como muitos dizem: “Ah eu tenho um ouvido bom, então não faz diferença, não sou surdo! ”. Assim como em muitas deficiências, principalmente no começo as pessoas têm dificuldade em se aceitar a perda, em ser realmente como são sem máscaras.

Minha perda auditiva foi progressiva e eu comecei a sentir diferença aos 15 anos, hoje tenho 21 anos e há dois anos que realmente me aceitei como SURDA UNILATERAL, para mim eu tinha uma perda auditiva elevada, mas nada demais. E assim como todos eu afirmava que tinha um dos ouvidos bom.

Eu ia para escola e para o trabalho com a minha máscara, tentava disfarçar a deficiência, sentava com ouvido bom virado para as pessoas, afirmava com a cabeça sem ao menos ter ouvido o que a pessoa tinha perguntado e etc. Não é fácil esconder a surdez, mas a gente tenta e como a gente tenta.

Há aproximadamente dois anos comecei a ter interesse pela surdez, que até então eu nem pronunciava (para mim era praticamente um tabu). Tive a oportunidade de conhecer diversas pessoas e diversas histórias. A partir daí eu comecei a me conhecer, saber quem eu realmente era e me descobri…eu era SURDA UNILATERAL.

Mudei meu comportamento e minhas atitudes, comecei a avisar as pessoas com quem eu conversava sobre a surdez e surpreendentemente as pessoas começaram a me auxiliar como podiam. Meus amigos começaram a se preocupar com o lugar que eu iria sentar que beneficiasse a minha audição, as pessoas já não se irritavam com tantos “ Você pode repetir? – Oi? – Não entendi”.

E a melhor parte, eu já não me cobrava tanto, porque não tinha mais a minha máscara. Eu me sentia em paz, afinal posso ser eu mesma agora. E é assim que eu quero que todos os Surdos Unilaterais como eu, possam se sentir, em paz. E isso nós conseguimos apenas com a aceitação de nós mesmos como pessoa.

Seja você mesmo! Seja livre! Seja Surdo!

Manoela Munhoz – Surda Profunda Unilateral

O primeiro passo para a mudança é mudar nosso conceito sobre nossa condição. Depois, trabalhamos para que o mundo ao nosso redor se transforme também.

Beijinhos sonoros,
Lak

8 palpites

  1. Guilherme Saes disse:

    Olá me identifiquei bastante com a história! Hoje tenho 24 anos e só fui me aceitar como surdo unilateral há uns 2, 3 anos também, sendo que até então, sempre procurei esconder das pessoas desde a minha infância (Anacusia congênita no ouvido direito). Conseguia mascarar até certo ponto, pois como sou músico desde os 5 anos de idade, eu desenvolvi e agucei meu ouvido bom, e quando comecei a contar para meus amigos da surdez, alguns se espantaram por nunca terem percebido, e outros acham que eu tinha “tique nervoso”, pois virava a cabeça para escutar melhor haha.
    É isso!

    • Lak Lobato disse:

      Bacana seu relato. Acho que deve ser comum de todos os unilaterais… Esconder faz parte. Quem pode, sempre tenta… Mas, esconder tb atrapalha, então assumir uma fraqueza pode ser um passo decisivo para a transformação da qualidade de vida. Beijinhos sonoros

  2. Alex Hisao disse:

    Olá Lak! Como vários outros colegas, me identifico com a sua história.

    Perdi a audição (e tive um pouco de paralisia facial periférica) aos 29 anos após uma cirurgia para retirada de um Neurinoma do Acústico e desde então tenho feito meu ouvido direito trabalhar em dobro.

    É muito comum eu ficar perdido quando alguém me chama, principalmente em ambientes abertos, pois não sei de que lado vem o som. Festas e lugares barulhentos, prefiro distância.

    O ponto positivo é que as pessoas ao meu redor se adaptaram as minhas condições e já é automático elas ficarem ao meu lado direito para conversar e também não ficam bravas quando peço para repetir.

    Aprendemos a escolher lugares estratégicos para obter o melhor do som e também valorizamos o ouvido que restou.

    É uma luta diária que somente deficientes auditivos unilaterais conhecem, e só pelo fato de conseguirmos “driblar” muitos desses obstáculos, já podemos ser considerados vitoriosos. Um abraço! 😈

  3. Marcio Dantas disse:

    Fico feliz que tenha se aceitado, em 2014 lembro que te escrevi assim que soube sobre o livro e sua experiência de vida, comentei sobre minha sobrinha surda e das atividades que ela fazia e o desenvolvimento dela, não comentei nada sobre LIBRAS e tive uma resposta sua tão grosseira de você, me dizendo que não falava sobre libras muito menos cultura surda, mas de implante coclear. Sorte eu não ser surdo pra ler aquilo, não passei as informações pra minha sobrinha muito menos pra nenhum outro surdo. Vou te acompanhar mais a partir de hoje.

    • Lak Lobato disse:

      Continuo não falando de cultura surda, nem de LIBRAS e já me aceitava naquela época, como surda oralizada e implantada, que não vive na cultura surda e não tem interesse por LIBRAS.
      Eu continuo escrevendo sobre implantes auditivos e surdos que tem português como primeira língua. Esse texto sobre autoaceitação da surdez unilateral nem é meu, mas de outra pessoa com surdez unilateral, que é o tema do texto. Pois gente que tem perda de um lado só, geralmente esconde a deficiência, em vez de buscar soluções e adaptações pra ela.
      Ou seja, meu texto não mudou, eu não mudei e continuo não tendo o menor interesse pela cultura surda e pela lingua de sinais. Então, acho que vai continuar não te interessando meu blog.
      Abraços

  4. luciano ferreira disse:

    meu nome e luciano tenho 33 anos, profissão vigilante fui contratodo pela empresa de segurança, pra suprir a vaga de deficiente(cota) mais so fique dez dias na empresa, porque o meu laudo voltou, disseram que minha deficiencia era unilateral, eu sou deficiante unilateral certo, mais eu so tenho uma orelha a outra eu não tenho. ai eu pergunto auguem acha que eu enquadro em outra deficiencia por motivo que eu nao tenho uma orelha ??? fiquei desempregado porque disseram que eu nao era deficiente audito. mande a resposta pra meu E-mail, ( lucianonascrn@hotmail.com