Vencendo o medo de falar em público

Retornando ao papo sobre a palestra do SENAC…

Quando fui convidada para dar a palestra, em março, admito que me bateu insegurança. Aquela coisa de “será que..”, por conta de um dos maiores impasses dos surdos oralizados: a voz.

Não que todo surdo oralizado seja encanado com isso, mas é verdade que uma parte considerável tem sotaque. E porque tem sotaque, olham o tempo todo, perguntam “por que você fala assim”, dão sugestões escrotas do tipo “vá se tratar” (nada contra fazer fono, mas não acato ordens de quem não paga minhas contas), olham, apontam e blablablá. E o resultado disso é que a gente acaba sendo meio acanhado de falar em publico (alguns, nem tão em publico assim)…

Eu já tinha falado em publico algumas vezes, inclusive na Campus Party, que tinha um publico seleto. Mas, lá estava barulhento e eu não consegui me ouvir e sofri horrores com a péssima acústica do local.

Mas, aceitei o desafio mesmo assim, sobretudo porque tenho compromisso de divulgar a existência dos surdos oralizados, já que a humanidade não nos conhece…

Só que, enfrentar algo na teoria, é muito diferente de dar a cara a tapa.

E aí, muitos medos se passaram pela minha cabeça nos últimos meses… Principalmente porque eu costumo ser PÉSSIMA em oratória, já que falo rápido – nada a ver com a surdez, minha mãe fala rápido, logo, aprendi a falar dessa maneira – e misturo um milhão de assuntos por vez, meu cérebro processa informação demais ao mesmo tempo.

Além do mais, eu tive 23 anos de péssimo feedback auditivo, minha voz ainda tem sequelas desses anos no deserto silencioso.

E, como eu não estou fazendo fono neste momento (não adianta pegar no meu pé quanto  a isso, não estou conseguindo ter tempo pra me dedicar a terapia), dependia apenas da minha força de vontade… Será?

Enfim, depois de chegar a um acordo com a coordenação do evento de qual seria o tema da Palestra (porque, a priori, eu queria era dedicá-la ao Implante Coclear hihi), o jeito foi sentar, organizar os pensamentos para chegar um roteiro útil e elaborar a palestra em cima disso, criar uma apresentação (isso, deleguei ao Edu, porque marido serve pra essas coisas) e treinar…

No primeiro dia de ensaio, eu li pro Antunes – meu chinchila – que só aguentou uns 5 minutos de falação e foi dormir.

Depois, eu treinei pro Edu mesmo, que ia me dando conselhos  e dicas úteis (além de umas críticas bem típicas dele)… O que o Edu insistia é que eu colocasse algumas tiradas bem humoradas, porque o assunto é “chato” e se ficar sério demais, dá sono…

Enfim, muitos ensaios depois – inclusive um deles 1h antes da palestra – e uma boa dose de respiratórios para relaxar, subi no palco  e comecei a falar. No começo, como contei, tão tensa, que parecia uma trêmula vara verde.

Mas se tinha um ponto ao meu favor é que, antes de ensurdecer, eu cresci nas inúmeras palestras que meus pais e padrinhos davam, na minha infância. Eu lembrava, ainda que não conscientemente, dos macetes que eles usavam para cativar o público. Então, percebendo que eu poderia ouvir a minha voz com clareza, passei a prestar atenção no que eu dizia – o que se tornou um bom controle de voz, para volume e velocidade.

E, segundo a dica do Edu, eu fiz piadas comigo mesma (Crisaidi, me perdoa a redundância… Minha professora de francês/inglês sempre me corrige quando escrevo “comigo mesma”), improvisei na hora de contar as histórias e a palestra fluiu.

Eu tenho consciência do meu sotaque, da minha falta de destreza na oratória. Mas, também percebo que tudo isso pode ser trabalhado com uma fonoaudióloga ou um bom curso. Mas, coragem não tem como se aprender num curso especializado, ou você desenvolve sozinho ou nunca terá. Capacidade de improvisar também se aprende, com treino e observação de outros palestrantes.

Porém, saber do assunto abordado é essencial e isso só foi possível graças ao DNO e às experiências compartilhadas com os leitores – muitas das histórias contadas, soube por aqui…

Portanto, agradeço pelo apoio constante, pelas trocas de experiência e, reafirmo, o DNO se tornou uma das partes mais importantes de quem sou.

Beijinhos sonoros,

Lak

10 palpites

  1. Deni disse:

    Sei bem como é Lak, mas a vida sempre nos empurra para ir lá dar a cara a tapa, não?!?! Eu não nego que fiz curso de oratória com uma diretora de teatro aqui de curita, aprendi muitos macetes para o relax, mas o mais importante que aprendi é que quando dominamos o assunto ninguém nos segura quando começamos a soltar o verbo 😉

    Queria muito ter visto sua palestra, tenho certeza que você foi fantástica!

    Bjks e boa semana!

  2. Paula disse:

    Guria!
    Aposto como foi deliciooosa a sensação de vencer o medo, não foi?
    Depois que coloquei um vídeo no YouTube uma vez do Sweetest Person no qual eu falava e recebi uma porrada de comments tenebrosos por causa da minha voz, entrei em parafuso. Passado um tempo, liguei o foda-se e fui ser feliz. Não gostam da minha voz grave? Sorry, não posso fazer nada a respeito disso.
    Parabéns pela palestra, te esperamos pelo resto do país heinnn!!!
    Beijosssss

  3. Giovanna disse:

    Olá, Lak!
    Descobri o DNO um pouco antes de ele fazer 3 anos, e adorei aqui! Ler seus textos dá uma sensação muito boa!
    Sua voz é maravilhosa, muito gostosa de ouvir!
    Beijinhos

  4. Raul disse:

    Também ouvi pessoas próximas dizendo que a voz da Paula era extremamente sensual.

    Acho uma pobreza de espirito e de gente baixa quando tenta tocar no nosso ponto fraco.

    😎

  5. Gui Chazan disse:

    Pra mim, tu sempre foste uma oradora nata, mesmo sem ensaiar.
    Ensaiando e fazendo piadinhas então, deve ter sido show!
    Parabéns, continua assim! Bjos

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