Não tenho postado muito por falta de novidades quanto ao Implante, no momento, as coisas caminham tranquilamente, com sonzinhos gostosos do dia a dia – já aprendi a fixar bem o pensamento pra ignorar barulhinhos chatos, sem precisar desligar os aparelhos, o que pra mim, foi uma mudança e tanto – a fonoterapia que vai muito bem obrigada. Aline acha que fazer contextos fechados de compreensão sonora está ficando muito fácil, então tenta fazer contextos abertos (sem qualquer pista visual) e eu sofro horrores, porque sou acomodada em ter pistas hahaha
Mas, domingo fiz um post bonito que teve comentários ainda mais bonitos. Três deles me rasgaram o coração. Fiquei apaixonada pelo que escreveram (oh, eu sou convencida pra caramba, só finjo que não), que vou ter a cara de pau de copiar como post:
1. Olá Lak,
tudo bem ?
Hoje foi um dia muito especial para mim, sabe esses dias que marcam as nossas vidas e que lá na frente iremos se lembrar dele e contar para alguém especial, pois bem, estava eu, procurando, em um desses sites de busca, algo que me orientasse sobre quais os direitos e benefícios das pessoas portadoras de deficiência Auditiva,porque estou enfrentando muitas dificuldades na empresa em que eu trabalho,tendo que superar várias frustrações.
Foi quando encontrei seu espaço, fiquei literalmente “bege” em descobrir o quanto eu estava mal informada, totalmente fora da minha realidade, afinal é difícil você “simplesmente acordar e perceber o silêncio ao seu redor”não escutar mais os murmurinhos da sua filha ,ter que se redescobrir ,se reencontrar,ter que se adaptar a sua nova condição sem ao menos poder dizer não, eu não aceito ficar “Surda”
Passei toda a minha infância convivendo com a minha mãe que também é surda, a impressão que eu tenho, era como de voltasse no tempo e revivesse todas as dificuldades dela,nossa como é difícil.
Seu Blog me fez colocar os pés no chão, fez com que eu,me aceitasse,aceitasse minha deficiência essa condição imposta sei lá por quem?
E com certeza a partir de hoje,esse dia especial,vou almejar novos horizontes.
Muito Obrigada por fazer toda a diferença em minha vida.
Beijokas Iluminadas
Literalmente, chorei de ler isso!!! Não sei nem porque me comoveu tanto, mas a vontade que tive foi de correr e abraçá-la, dizer que entendo exatamente o que ela sente, que compartilho muita das revoltas, apenas não me deixo abater por elas e que ela também consegue fazer isso.
2. Já se vão 10 meses de IC ??!! Lembro-me quando acessei o seu blog, se não me engano você já havia feito o IC, mas ainda não havia feito a ativação. Mesmo assim, você já transmitia inspiração a nós especuladores, medrosos e ansiosos pelo IC. Hoje, não tenho dúvidas em fazer o IC… estou só aguardando o momento, que deverá ser em breve.
Passar adiante…. eis o segredo dos que são agradecidos à bençãos recebidas. Isso me leva a um texto Bíblico, se me permite relatá-lo aqui:
“Certa vez foram até Jesus 10 leprosos e Ele os abençou e disse-lhes: vocês estão curados. E os mandou para casa. No caminho, os leprosos olharam para suas mãos e viram que estavam curados. Um deles, extremamante agradecido, voltou ao Mestre e, envolto em lágrimas, o agradeceu. Então Jesus, dirigindo-se à multidão disse-lhes: Não foram dez os leprosos curados?! Mas apenas um voltou em agradecimento. E disse Jesus ao leproso: Vá, e testemunhe aos quatro ventos a benção que recebestes” (adaptado por mim)
Sou grato por você compartilhar suas bençãos conosco.
Beijos.
Não sou cristã, mas mesmo assim considero uma benção quando, ao falar de milagres, alguém fazer uma adaptação dessas. Ainda mais, quando se trata de outra pessoa que passa por uma situação similar e que certamente também irá passar adiante…
3. Lak,
se não fosse por você, sim, você foi o pivô de eu repensar sobre IC, rs, e você nem me conhece, enfim, se não fosse por você, eu não estaria tão encantada com IC… aí fui buscando mais deipomentos, mais experiências (e li tantas coisas lindas), assisti aos vídeos de ativação, DVDs com os deipomentos dos pais de implantados, entre tantas outras coisas… nossa, fiquei cada vez mais apaixonada com a idéia de ser implantada também. Eu vou tentar pelo plano de saúde, ainda não conversei com a central de atendimento a respeito de cobertura, por aqui as coisas ainda estão lentas, e mamãe (que é toda cheia de compromissos) não quer que eu vá só, quer ir junto para conversar com os funcionários da GEAP… essa segunda vou lá
beijos!
Dispensa comentários, né? Fiquei até vermelha de ler isso.
Mas, a melhor parte disso tudo, é que hoje tive a maravilhosa notícia de que outra cyborguezinha nasceu. Uma amiga e leitora do blog, Andressa, me contou que foi operada e passa bem! Mais uma implantada no time!! Agora é aguardar a ativação…
No mais, me sinto caminhando nas nuvens!!
Beijinhos sonoros,
Lak
Estava aqui curtindo (“curtindo” é ótimo!) uma madrugada de insônia, quando pus-me a reler textos antigos do blog. É engraçado, eu tinha prometido a mim que não faria o DNO um diário virtual, mas não consegui escapar desse hábito. Eu fazia diário quando adolescente e tenho alguns guardados até hoje…
Queria que o DNO fosse um site de referência para surdos oralizados e, posteriormente, para implantados. Mas acabou virando diário mesmo e tudo bem. Acho que ficou legal assim mesmo.
Bom, o texto que me pegou foi um que escrevi em 17/08/2009, há pouco mais de um ano. Um texto ainda na expectativa de fazer o Implante Coclear, recheado de medos e dúvidas que hoje ajudo vários candidatos ao IC de superarem (ou pelo menos tento).
Tem um trecho dele que me arrancou lágrimas quando escrevi e hoje, arrancou as mesmas lágrimas, embora motivadas por razões absolutamente diferentes.
“Penso em como a surdez nos maltrata. Não que ela seja uma deficiência com máculas físicas. Mas ela simplesmente nos coloca dentro de uma redoma, com todos os sons do mundo do outro lado. As músicas, o barulho da chuva, o canto dos pássaros, o som das ondas quebrando na praia e, os sons mais dolorosos de estarem longe do nosso alcance: a voz das pessoas que a gente ama, cada palavra que só chega a nós visualmente. As piadas ditas por alguém numa rodinha de conversa descontraída. As risadas dos amigos. As imitações e gracejos que se faz uns com os outros. O som preciso do “eu te amo” dito por alguém que realmente ama você. Os sussurros dos segredos. Os gemidos de prazer…
Você sabe que tudo isso está a poucos centímetros de você e, mesmo assim, a deficiência te paralisa e você simplesmente não pode alcançá-los. O que você faz? Pára de desejar tudo aquilo, simplesmente para não sofrer.”
Sou surda adquirida – ou ensurdecida como soe melhor – então, muito da minha condição fala de perda, não apenas da condição em si. E esse trecho fala especialmente do quanto eu tinha me anestesiado em relação a coisas que eu gostava, simplesmente para não sofrer mais a falta delas…
E hoje, mais de 1 ano depois de escrever isso, 10 meses depois de operada, 8 meses depois de ativada, meu coração não consegue conter a emoção de ter recuperado tudo isso. Cada bobagem que ouço, que descrevo, faz jorrar uma emoção violenta que transborda da alma. Ouvir não se limita a perceber e discriminar sons, é também uma sensação de satisfação, de retorno, de encontrar de novo uma parte importantíssima do mundo e de mim mesma, de poder sentir novamente a sensação sonora. Mesmo os sons que me irritam são bons, porque a ausência deles significaria também a ausência de muitos outros.
Eu tinha medo que o implante coclear me decepcionasse, porque os AASIs (proteses convencionais) decepcionaram, já que não davam uma sensação auditiva nem mesmo próxima da audição original. O implante coclear vai além, ele resgata sim, muito da sensação auditiva perdida.
E, no fim, deixo o blablablá de lado “escrevo o blog com o intuito de ajudar os outros somente”. Mentira, escrevo o blog porque compartilhar experiencia me ajuda também. Se existem pessoas que conseguem tudo sozinhas, eu não sou uma delas, preciso de uma mão amiga e os comentários que fazem por aqui me ajudaram muitíssimo.
Costumo dizer que tive 5 anjos de guarda que me empurraram (a base de muitas broncas, inclusive) para esse momento de agora. Cinco pessoas implantadas que me convenceram que valia a pena: Anahi GM (surda desde os 18 meses, implantada aos 30, se não me engano), Raul S. (surdo de nascença, implantado aos 28 anos), Leila, (ensurdecida aos 6 anos, implantada aos 30 e poucos, acho, depois ela me corrige), Alice – Sun Melody (surda desde os 18 meses, implantada aos 20 e poucos) e Olivia (ensurdecida aos 30 anos e implantada alguns anos mais tarde). Cada um deles com suas particularidades, com seus ganhos, com suas conquistas, mas sobretudo, todos muitíssimo apaixonados pela tecnologia que lhes devolveu grande parte da audição. Agradeço de verdade pelos anjos que foram de terem me convencido a optar por uma das melhores experiencias da minha vida.
Espero poder retribuir essa força ajudando outras pessoas a optarem pelo Implante Coclear (e que fique claro, eu não tenho nada contra quem não opta por ele, é uma escolha como qualquer outra, mas os que optarem, podem contar com meu apoio). Afinal, a melhor parte de receber um milagre é poder retribuí-lo.
O texto abaixo foi um comentário feito no post que falácamos sobre aquela mudança de coberturas de convênios quanto às cirurgia de Implante Coclear, feito pela Geraldine, mãe do Mauricyo, implantado de 1 ano e 9 meses.
Achei importante que fosse divulgado como post, para o maior número de pessoas ter conhecimentos a respeito de como anda essa Consulta. Infelizmente, as notícias não são muito animadoras, mas não vamos desistir, né?
A consulta pública acabou em SP. E o pessoal ficou indignado, pois o Procurador Federal de lá não atendeu mais os telefonemas e mandou a secretária avisar que a documentação havia sido encaminhada para o MPF do Amazonas.
Só que a Tatiane Braga representante da ‘AMADA’ (Associação Amazonense de apoio aos deficientes auditivos e usuários do Implante Coclear) no Amazonas e que interpôs com a ajuda minha, da Diana – assessora do MPF da Bahia – (implantada de Baha) e da advogada dra. Maria Aparecida Cossenti, que assinou para nós a ação, averigou no MPF de lá que eles iriam somente juntar a documentação no processo e atuariam somente como fiscal da Lei.
O MPF de SP e do Amazonas não sabem que o juiz federal já recebeu a exceção de incompetência da ANS e essa papelada toda vinda de SP – daquela consulta pública – a ser juntada ao processo de nada adiantará, pois o juiz federal vai extinguir o processo em face da competencia territorial!
Para não perdermos tempo vamos ajuizar a ação no RJ!! Enquanto isso o MPF de todos os Estados do Brasil somente fica no jogo de empurra e empurra e não faz absolutamente nada em favor dos deficientes auditivos e implantados!!
Será que eles tem medo do governo?? Afinal, é este que paga o salário deles… Ou será que não querem trabalhar e meter os peitos para cumprir a sua função que é defender a sociedade e estão deixando tudo para a associação – AMADA – fazer??
Embora o MPF de SP soubesse que a ação seria extinta no Amazonas – o procurador de SP mandou toda documentação assim mesmo para lá e tirou férias até outubro!!
Walter bi-implantado, Scheila, mãe da Amanda (usuária de AASI), Dennis (implantado), L. Filipe – moderador do FIC (implantado), Trycia, mãe do fofo bi-implantado Gael – todos nós estamos indignados, pois o Procurador de SP sequer recebeu o pessoal e dignar-se a dizer os motivos da documentação da consulta pública estar indo para o Amazonas já que lá estava sendo extinta. Mandou a secretaria falar e não quis nem falar com o pessoal de SP que foi a várias reuniões. pouca vergonha!!
É um descaso total com várias crianças deficientes auditivas, pais de implantados e implantados!!
Mas, em breve a ação civil pública da AMADA estará sendo ajuizada no RJ, sede da ANS, pois esta e o Juiz entendem, por divergencia de jurisprudencia, que a mesma deve responder na sua sede que é no RJ. Além disso, não iremos recorrer da decisão e perder tempo, pois o TRF1 entende no mesmo sentido e com a morosidade da justiça o mérito da questão fica sendo deixado de lado. Para se discutir qual juiz é competente para julgar a causa!!
E criança continuam surdas aguardando uma decisão da justiça…
É uma pouca vergonha esse Brasil!!
Abraços sonoros, Geraldine, mãe do bebê implantado Maurícyo – quase bilateral – aguardando feitura da segunda cirurgia aprazada para final de setembro/outubro ja autorizada pela Unimed Porto Alegre.
Conversando com Rafael, um leitor do blog e hoje meu amigo, falávamos sobre o custo altíssimo das próteses auditivas, que desanima muita gente a utilizá-las. Eu inclusa, porque numas de perder (é, são pequenas e, portanto, fáceis de perder) as que eu tinha, levei cerca de 8 anos para conseguir outras, tudo por conta do custo.
O SUS fornece próteses, mas muita gente não sabe disso e, muitas vezes, ela também não é bem a melhor para aquele caso.
Em vista desse debate, Rafael resolveu agraciar o DNO com um texto interessante sobre o tema, falando de uma possível isenção de impostos sobre as próteses, que são praticamente todas importadas (acabaram de lançar uma nacional, mas ainda não sei muito a respeito dela).
Voilà:
Isenção de Impostos sobre as próteses auditivas
por Rafael Leite
O avanço da tecnologia já se tornou realidade e está melhorando a qualidade de vida de quem precisa de próteses auditivas. Ainda que a tecnologia não substitua com a mesma fidelidade do corpo humano, ela é capaz de proporcionar ganhos extraordinários que facilitam a inclusão social das pessoas com deficiência.
Porém, as novas tecnologias só surtem algum benefício quando adaptadas de forma correta às necessidades de cada usuário. Logo, não adianta ter a melhor prótese existente no mercado se não há adaptação por parte do paciente, que se dará principalmente por meio de exaustivos testes dos mais variados tipos de próteses até encontrar uma que lhe proporcione o devido conforto.
No Brasil, existem aproximadamente seis milhões de surdos e pessoas com deficiências auditivas. Muitas delas, no entanto, não têm acesso à informação e à assistência que precisam para garantir os princípios constitucionais da isonomia e da dignidade do ser humano.
Ainda que o Estado disponha de políticas de inclusão social e, por meio do Sistema Único de Saúde, disponibilize atendimento médico e fornecimento de próteses auditivas aos pacientes que as necessitam, este serviço está em colapso e não é capaz de dar o acompanhamento correto com a dedicação que cada paciente precisa. Nesse sentido, muitas vezes as próteses auditivas são fornecidas aos pacientes sem que seja devidamente considerada a sua real adaptação, tornando-se, por esta razão, incapaz de surtir o efeito pretendido, que é a melhoria da qualidade de vida do usuário, e, consequentemente, deixando de proporcionar a inclusão social destes.
Uma alternativa viável e até mesmo muito simples para promover a efetiva inclusão dos surdos e deficientes auditivos na sociedade é a isenção dos impostos incidentes sobre a fabricação e a venda de próteses auditivas. A título de exemplo, atualmente é concedida a isenção de impostos na aquisição de veículos automotores para pessoas com deficiência. Adotando o mesmo raciocínio, a aquisição de próteses auditivas direto nas representações das diversas marcas disponíveis no país também deveria estar isenta de tributação. Isso porque uma prótese auditiva com tecnologia de ponta chega a custar aproximadamente dez mil reais cada uma. Se o governo federal concedesse a isenção tributária de IPI, PIS, COFINS, CSLL, o governo estadual isentasse o ICMS e o municipal o ISS, teríamos uma política de inclusão muito mais eficiente, tendo em vista que o valor dessas próteses poderia cair pela metade. Com isso, a adaptação de cada paciente se daria de acordo com o seu caso específico, com um correto acompanhamento de fonoaudiólogos e otorrinolaringologistas. Caberia também ao governo federal a criação de uma linha de crédito a juros baixos e longo prazo de pagamento para a aquisição dessas próteses, assim como hoje é feito nos programas de financiamento habitacional.
Dessa forma, seria possível ampliar o acesso de todos as pessoas com deficiência auditiva à aquisição de próteses, auxiliando-os da melhor forma em sua inclusão social.
Além disso, outra questão que deveria ser tratada pelo governo com mais atenção é a dedução no imposto de renda do valor gasto na compra da prótese auditiva.
Hoje em dia somente são admitidas pelo Fisco as deduções expressas em lei. Nela, há previsão de dedução do valor gasto em próteses dentárias e ortopédicas, como pernas e braços mecânicos, cadeiras de rodas, andadores ortopédicos, palmilhas, calçados ortopédicos e qualquer outro aparelho ortopédico destinado à correção de desvio de coluna ou defeitos dos membros ou das articulações.
Ora, a não inclusão das próteses auditivas entre aquelas passíveis de dedução fiscal fere claramente o direito constitucional à isonomia, que garante que todas as pessoas devem ser tratadas de maneira igual, na medida de sua igualdade. Como deficientes, estas pessoas são tratadas desigualmente em relação à sociedade em geral, justificando, assim, o tratamento diferenciado. No entanto, razão não há para que as próteses auditivas não estejam no mesmo patamar das demais. Dispensando tratamento diverso, o Estado viola o direito à igualdade do surdo e do deficiente auditivo em relação aos outros deficientes, o que não pode prosperar, haja vista que a deficiência, por si só, justifica que estes sejam contemplados com a dedução, até porque se trata da aquisição de um instrumento essencial para garantir a efetividade do direito à dignidade humana. Portanto, excluí-los é uma forma de preconceito e injustiça social.
Um dos meus maiores pesadelos da vida escolar, antes e depois de perder a audição, era aquele tal de DITADO. Antes, porque eu não sabia ler. Parece estranho falar isso, eu sei, mas é até ser obrigada a ler por conta da falta de audição, eu só lia qualquer coisa que fosse, por obrigação e de má vontade. E, sem o hábito de leitura, fica difícil escrever bem. Então, eu odiava ditado, porque sempre errava muito.
Depois de surda, de aprender a ler (na marra), criar gosto pela coisa, comecei a ter facilidade com gramática. Mas, embora eu consiga repetir com uma boa facilidade o que dizem, por leitura labial, se eu tiver que escrever também, cria um tipo de bloqueio e eu não consigo lembrar do que disseram.
Comentei disso com a Aline, minha fonoaudióloga e ela comentou que faria parte do tratamento fazer alguns ditados – inclusive, para quebrar o bloqueio.
Bom, mas achei que não era nada pra agora, iria levar mil anos, quando eu já estivesse com bom QA (quociente auditivo <- não sei se o termo existe, tá?) . Só que, chego lá hoje e ela me olha já avisando: Hoje vou sentar do lado da sua orelha implantada e te fazer um ditado, ok?
Só pensei: “Ai…”
Mas, ela fez um aquecimento – sempre faz, ela fala devagar e pronunciando prolongadamente várias sílabas – e começamos o ditado. Como eu tenho dificuldade de compreensão sonora, meu Ditado não era como o de vocês, ouvintes inteligentes. Era um ditado que, na folha, tinha também o desenho da palavra que ela diria, num contexto fechado de possibilidades audíveis.
No começo, por causa do bloqueio, tive uma certa dificuldade de reconhecer o som. Mas depois, o medo foi desaparecendo – a vantagem da terapia é essa, é um ambiente seguro, controlado e que o paciente se sente confortável diante dos desafios, que acabam servindo de ótima base para enfrentar o mundo real – e, no final, ela ja estava falando sequencias aleatórias de 3 palavras.
O legal foi perceber a evolução. Antes, quanto mais devagar fosse a pronuncia das sílabas, mais fácil ficava para eu ouvir. Agora, é exato oposto. Se ela falava na velocidade normal, eu entendia bem. Se ela falava pausando entre as sílabas, eu ficava meio confusa e dependia da repetição.
Eu ainda sinto dificuldade de discriminar plenamente o que ouço. Mas, percebo que confio cada vez mais no sentido auditivo. E, pra mim, isso é um passo enorme. É bom saber que posso confiar na “minha própria” capacidade auditiva! Ouvir é muito bom!
Como a vida de cyborg não é nada fácil (ai, que mentira…) tive que ir na assistência técnica ver se conseguia arrumar um probleminha que dá, às vezes, no meu Implante.
Volta e meia, ele dá uma falhada, como se entrasse num vácuo de silêncio por cerca de 1,5 segundos, tal como se a pilha fosse acabar, ou um curto circuito desse uma falha no sistema ou até houvesse uma pequena explosão ausente de som tomasse conta do momento. A verdade é que é muito rápido e nem dá pra saber direito o que se passa.
Semana passada, levei na Dra. Valéria, que não achou nada e sugeriu que eu fosse na assistência.
E eu fui, visto que é chatinho e me deu medo de ser algo sério e progressivo, que consertado na hora certa não daria grandes problemas, mas esperando demais, tornar-se-ia inconsertável.
Pedi para minha mãe ligar, marquei hora com o técnico (na real, pedi para ele esperar, porque iria no meu horário de almoço) e dei um nó no Google Maps para achar o caminho mais rápido….
Antes de ir, conversei com o Raul, um amigo também usuário do IC, que me contou que certa vez, ficou 2 meses sem a parte externa, porque ela tinha ido para o conserto. Senti um pavor ENORME de ficar sem o IC por um tempo. É engraçado, eu passei 23 anos sem ouvir, mas a possibilidade de voltar para o isolamento sonoro, mesmo que por pouco tempo, é muito desagradável…
Chegando lá, o técnico veio falar comigo, perguntou se eu tinha trocado as peças de reposição (vieram algumas no kit), se ele ficava no desumidificador (porque ferrugem corrói a parte interna e ai, a garantia não cobre o conserto) e levou a parte externa para testar, me deixando com o coração na mão, sabe?
Mil coisas passaram pela minha cabeça, o quanto eu gosto de ouvir, o quanto o IC melhorou a minha vida, o quanto ele me faz sentir bem comigo. Não sou mera usuária de uma prótese semi-interna, sou apaixonada pelo meu Implante!
Cinco minutos depois, o técnico voltou e disse que não tinha nada de errado com o processador. Acha que o imã descola rapidamente da cabeça e, por isso, o som falha. Pediu para deixá-lo mais apertado, mesmo que doa um pouquinho, porque logo acostumarei. Ele testou o imã que uso e um mais forte e disse que realmente parece meio frouxo. E, a melhor notícia: pode voltar pra casa com ele, tranquilamente.
Voltei para o trabalho com uma sensação enorme de alívio. Gosto de saber que cuido bem do meu aparelhinho, tanto quanto ele cuida de mim haha
Sábado, fui ao shopping almoçar. Até aí, nada demais, programa banal de sábado…
Estávamos no restaurante – é engraçado, pode ter umas 10 pessoas na mesa, que os garçons sempre querem falar comigo, não sei por quê – decidindo o que comer, quando chega uma família, pai, mãe e filho de uns 8 anos.
Eles sentaram-se numa mesa ao lado da nossa e, uma hora, a mãe levantou com o filho para olhar uma vitrine de doces.
Notei que o menino usava o Implante Coclear bilateral preso no capuz da blusa. Era fofo, porque era metade marrom, metade bege, meio mesclado no cabelo castanho dele.
Senti uma vontade enorme de chegar na mãe dele e fazer mil perguntas, mostrar que também usava o IC e que achava super especial esbarrar por ai com uma criança também implantada.
Mas, achei que eles não estavam no shopping para ser balcão de informações e deixei-os em paz…
Minha mãe disse que a voz do menino era perfeita, de criança ouvinte mesmo, o que me deu aquela pontinha de inveja hehehe Embora eu tenha ficado hiperfeliz por ele.
Penso como as pessoas que perdem a audição agora têm sorte, de ter um recurso tecnológico tão útil à disposição.
Ando meio preguiçosa para escrever - é fase – então, vou apenas relatar algumas delicinhas sonoras (e visuais) sem muito gancho de uma pra outra, porque coerência narrativa está além do que a perguiça me permite…
Precisei ir na fono que faz meu mapeamento, os ajustes de programação, do Implante coclear, porque ele anda dando umas falhadas meio inexplicáveis. Admito que morro de preguiça de ir lá, porque a região de Pinheiros costumar ter um transito pesadissimo em relação a onde moro/trabalho. Naquelas de dirigir 45 minutos, em meio de carros, ônibus, motos, carretas e pessoas de todas as espécies, resolvi tentar uma coisa que não me ocorre normalmente: ouvir música. Concluí que é a melhor coisa do mundo, porque “massageia mentalmente” o cérebro, distrai e o tempo passa rapidão. Já já começarei a me perguntar como foi que vivi milhões de anos sem isso!
Lá no consultório – eu não estava de mau humor, por causa do parágrafo anterior, senão estaria – estava cheíssimo e tinha um projetinho de cyborg fofíssimo de uns 4 anos. Ele era bem sorridente e, apesar de eu não tê-lo visto falando, apenas emitindo uns sons bem típicos de criança dessa idade (engraçado, né, criança adora fazer vocalizações, são todos potencialmente ótimos alunos de canto) ele se expressava muitissimo bem com o corpo todo. Era de uma alegria contagiante. Enfim, ele tava comendo bolacha e me ofereceu. Recusei com a cabeça e dei um sorriso de agradecimento. Ele me respondeu com um sorrisão. Logo depois, um outro cyborguezinho, ja implantado, de uns 7 anos foi la roubar os biscoitos dele e o pai dele mandou ele dar um pro menino, mas ele ofereceu a bolacha pra mim! Ai o outro arrancou da mão dele e ele sorriu pra mim, com uma cara de cumplicidade, de quem dizia “olha, eu queria dar pra vc e não pra ele”. Ri muito!
Conto que escrevi no twitter ontem: Quando o silêncio encheu o quarto, a casa, a cidade, o mundo, ela aprendeu a cantar baixinho o que ouvia o coração dizer. E por 23 anos, aquele foi o único som que ecoou na sua mente. Quando o som retornou ao mundo, ela fez o coração cantar tão alto para que o mundo inteiro pudesse ouvir tb o que ela ouviu em silêncio. e foi assim que, juntos, ela, o silêncio e o som, compuseram a mais bela orquestra do mundo. O nome da música: O despertar da felicidade!
Beijinhos sonoros e ótimo final de semana, pessoas.
Uma das coisas que os ouvintes parecem ter obcessão de me perguntar é sobre música. Para uma pessoa que sempre ouviu, parece impensável que dá pra viver uma vida boa e plena sem ouvir música. Eu entendo, apesar de ter uma birra enorme desse hábito das pessoas de acharem que a única maneira de ser feliz é a que ela conhece.
Mas, tudo bem, ouvir música ainda é um aprendizado para mim. Quando eu pensei em fazer o IC, admito que ouvir música não era uma das coisas que eu mais ansiava, tinha uma lista infinita de coisas que vinham primeiro, muitissimo mais importantes que música. A primeira delas era conhecer a voz das pessoas, depois me deliciar com barulhos do cotidiano. Música não fazia parte dos meus hábitos e, portanto, não tinha a menor importância.
Só que, pelo simples fato de poder tentar ouví-las, logo que sai do consultório da Dra. Valéria Goffi, no dia da ativação, pedi pro Edu colocar músicas que ele gostasse, para eu ouvir. Muito porque a gente pegou um trânsito pesadaço do consultório até em casa e era uma maneira de poder ouvir coisas novas.
A primeira música que me lembro de ter gostado foi Save Tonight, do Eagle-Eyes Cherry e, durante o primeiro mês da ativação, ouvi essa música várias vezes. Depois, fui conhecendo outras, gostando mais de outras e ai, acabei deixando essa um pouco de lado hehe
Como já expliquei, eu (ainda) não tenho plena discriminação sonora e muito da música era apenas pela música, não pela letra que eu sequer conseguia ouvir o suficiente para compreender. Por isso, eu tenho uma leve predisposição a preferir música clássica, já que elas não tem letras nem ninguém cantarolando.
Enfim, ontem a noite, esperava o Edu no carro, enquanto ele vinha do trabalho. Começo, engatinhando, a usar música como passatempo. Em geral, ouço apenas Jamiroquai, porque eu adoro hehehe Mas ontem, coloquei Save Tonight para ouvir, ja que fazia um tempão que eu não ouvia.
Em dado ponto da música (repito, eu não costumo sequer ler a letra das músicas, porque não considero importante ainda) ouvi nitidamente a voz do intérprete dizer “Save Tonight”. Pensei comigo “ué” e se repetiu “save tonight“. Nesse mesmo momento, o Edu chegou e, antes mesmo de eu falar qualquer coisa, perguntei “ele fala save tonight na letra?”
Edu, que está acostumadissimo com as minhas perguntas, disse com a maior calma do mundo: “Claro, Lak, é o refrão!”
Nem preciso dizer que chorei, né?
Salvar a noite e lavar a alma, segue o video da música:
Outro dia, estava conversando com a Anna, amiga virtual (por enquanto, por causa da distância), amiga da Rê, uma amiga de Portugal que eu amo. Ela veio me perguntar no MSN sobre o Implante, porque ela brincou comigo no twitter em relação a música e eu expliquei que sempre vou ter uma certa dificuldade com algumas coisas, visto que 18 eletrodos jamais substituem com perfeição milhões de células nervosas (mas claro que substituem muito bem, embora com diferenças consideráveis) e ela comentou que não sabia disso, que achava que era uma audição normal…
Dai, eu expliquei o que sempre explico aqui no blog, que a tecnologia (ainda) não consegue substituir 100% das funções da natureza (embora, nalguns casos, a supere, caso das próteses de pernas cangurus), mas que o Implante Coclear faz muito bem o trabalho dele e eu sou feliz de usá-lo.
Depois de uma boa conversa sobre as particularidades do IC e da vida de cyborg, Anna disse: “Você sempre tem uma santa paciência de explicar nossas dúvidas.”
Dando a real (adoro essa expressão, o contrário seria “mentindo na cara dura”?) eu não sou a pessoa mais paciente do mundo não. Sou daquelas pessoas que xinga todos os antepassados alheios quando precisa encarar uma fila.
Mas, quando se trata de uma forma peculiar de vida que eu vivo, não acho que o mundo tenha obrigação de se informar e saber nada. Acho que me cabe explicar timtim por timtim de como funciona a prótese auditiva e o implante coclear ou porquê a voz de surdo oralizado pode ter sotaque ou porquê leva anos pra gente conseguir compreender bem a fala sem a leitura labial. Simplesmente porque ninguém aprende isso sem ler a respeito ou que outro deficiente auditivo explique. Pergunte-me o que eu sei sobre cegueira ou epilepsia, pra ver se eu sou tão expert assim no assunto.
A única coisa que me faz perder a paciência, confesso, é falarem comigo em Líbras, em resposta da minha verbalização oral, por conta do estereótipo de que ela é uma forma de comunicação apenas e não um idioma a ser aprendido como qualquer outro. Se eu estivesse falando em sinais, acharia lindo responderem em Libras, confesso. Mas fala oral, se responde com fala oral. Fica a dica!