A história de Guilherme, implantado.

Estereótipos são estereótipos e paradigmas foram feitos para serem quebrados.

Com perdão do floreio introdutório (sim, eu copiei essa expressão de outra pessoa, cara de pau não me falta!) sem pé nem cabeça,  a entrevista de hoje é especial, porque quebra um paradigma a respeito de pessoas com deficiência auditiva.

Uma coisa as pessoas tem o hábito de achar é que surdo em geral, não fala. E os poucos oralizados são restritos ao idioma que aprenderam antes de perder a audição (ou, se pá, o idioma oficial do País e olhe lá). Quando conto que falo francês, que aprendi francês depois de ensurdecida, que faço aulas de inglês e até que estudei espanhol em Madrid deixo muita gente com cara de tacho, me olhando como se eu tivesse acabado de chegar de Krypton. Mas, heroísmos à parte, eu sou eu e todo mundo já está careca de ter certeza que devo ser alguma aberração da natureza.

Como modéstia e humildade são virtudes que eu nunca vou ter, admito que, às vezes, cometia a bobice de pensar que eu realmente era um caso à parte, portanto, quando conheci o Gui, soube que ele era causo perfeito para ser trazido ao DNO. Ele é surdo oralizado, perdeu a audição com menos idade que eu. Foi implantado no tempo certo (com poucos anos de privação sonora, ainda na adolescência, portanto, o resultado dele com o IC é muito bom) e me contou que fala inglês fluentemente e, na ocasião, estava passando uma temporada morando fora do Brasil, sozinho…

Tudo que vai contra o senso de que surdos tem dificuldade de se comunicar, que sempre dependem do apoio alheio e que aprender idiomas é algo bem além das nossas possibilidades…

Resolvi fazer uma entrevista dinâmica, via MSN. Segue o rumo da prosa:

Você nasceu surdo ou perdeu a audição?

Guilherme: Não, nasci ouvinte fui perdendo a audição aos poucos até ficar no nível atual, surdez profunda bilateral.

Sabe a causa?

Guilherme: Doença de Menière, suspeitam. Mas, achei estranho, as informações que achei foram que acontece mais em mulheres, em um lado só e em idade avançada, é dose né?

Tem histórico de perda auditiva na sua família?

Guilherme: ninguém…

E você tinha quantos anos quando ficou completamente surdo?

Guilherme: acho que 4 anos (Gui tem 24 anos atualmente)

Como sua família lidou com isso?

Guilherme: ficaram preocupados em como proceder, porque não conheciam outros surdos. Não sabiam se me colocavam em escola normal ou especial. Testaram nas duas.

E como foi em cada uma delas?

Guilherme: Na escola especial, minha mãe disse que eu saí correndo! Fiquei assustado. Já na escola normal, aceitei bem, então acabei ficando…

Você fez fono? Como desenvolveu a leitura labial?

Guilherme: Sim, fiz fono, aprendi a fazer leitura labial lá. Fazia fono até o final do ano passado.

Sua voz é muito boa,  você usou aparelho? (já conversei com o Gui por videoconferência!)

Guilherme: Obrigado =)
Usei sim, nos dois lados.  Atualmente só de um lado,  no outro tenho Implante Coclear.

E quando você soube do Implante Coclear?

Guilherme: por volta de 2001.  Eu fiz a cirurgia em 2003 só. (Aos 16 anos)

Por que demorou para fazer?

Guilherme: Teimosia, burrice…pensei que o IC me deixaria igual a todo mundo e queria continuar sendo diferente, aí não quis fazer no primeiro instante.

Você fala outros idiomas além de português, né? Aprendeu antes ou depois de fazer IC?

Guilherme: sim, eu sabia inglês escrito antes do IC, mas pra falar era um desastre, não sabia o som nem ler lábios em inglês. Espanhol aprendi antes do IC também, o IC facilitou no entendimento porque a articulação labial também era diferente. Hebraico eu tinha aprendido bem mal sem o IC, com ele ficou bem mais fácil. A leitura labial mais o som captado juntos, me dão praticamente toda a informação que preciso. Só leitura labial não resolve, nem só escutar; tem que ser juntos, com a maioria das pessoas… (nota da Lakinha: implantados tem a tendência de entender a voz de pessoas familiares com mais facilidade que outras vozes em geral, como se o cérebro aprendesse a ouvir pessoa por pessoa)

Você sofreu preconceito na escola, por ser surdo oralizado?

Guilherme: Não. Pelo menos, não ouvia nada de preconceito, pelas costas não entendia nada hehehe
A única situação que me senti diferente foi em uma aula de Ed. Física que tinha uma pessoa no centro, com uma bola. Ela gritava o nome de uma pessoa e a pessoa chamada tinha que pegar a bola e jogar em outra pessoa. Aí, a pessoa que fosse acertada aí pro centro. Fizeram maldade! A pessoa no centro me procurou no círculo ao redor e se virou, dando as costas pra mim. Gritou algum nome e todos saíram correndo…  Foi o meu nome que foi gritado… Como não li os lábios, não fui na bola…

E quanto a sua família, você notou algum preconceito?

Guilherme: Não, nunca! São as melhores pessoas que já conheci!

E como foi encarar a cirurgia do IC? Sentiu medo? Teve receios?

Guilherme: Não lembro direito, mas acho que não tive medo… Me doparam e caí no sono rapidinho uhahuahu Quando acordei, tava com a cabeça mais pesada num lado que no outro por causa dos curativos. Foi um desafio divertido ficar equilibrado ^^

E sua cirurgia foi tranquila? A recuperação foi rápida?

Guilherme: Sim, foi tranquila. Foram 3 semanas de recuperação acho. Nada de esportes nesse período… Fala isso pra um pré-adolescente de 16 anos viciado em esportes…

Por 3 semanas  apenas? Ou  te disseram pra não praticar mais esportes?

Guilherme: Sem esportes, sim bueno, falaram pra não praticar esportes também, principalmente os que envolvem a cabeçaentão futebol até vai, mas sem dar cabeçadas. Na real, jogo até hoje, dou cabeçadas e nunca deu nada… Preocupação em excesso dos médicos!
Jogo sem IC, claro…

Quando você voltou pra escola implantado, notou diferença?

Guilherme: Ah. não foi ativado de imediato, mas senti diferença porque tava de cabeça inteira raspada a zero, pessoal me cercava mó curioso hehe
Quando ativaram senti diferença, conseguia escutar uma das professoras sem precisar fazer leitura labial. Podia anotar e escutar como uma pessoa normal

Você conseguiu compreender a fala de imediato?

Guilherme: Não, tive alguns meses de adaptação, fono, mapeamento etc… Foi um processo gradual, mas fiquei muito feliz de poder entender alguém de novo sem depender de leitura labial.

E quanto a Líbras, você teve contato com ela ainda na infância?

Guilherme: não, não tive. Só recentemente tive vontade de aprender LIBRAS. Tô aprendendo aos poucos

E  está gostando?

Guilherme: Sim. Sei muito pouco, mas tô gostando. Os professores na universidade são surdos sinalizados, mas respeitam o IC. Infelizmente vejo que um deles acha que IC e LIBRAS trilham caminhos inversos, o que é verdade na maioria dos casos…

E falando das suas experiências com viagem… Você morou fora, né? Como foi morar em outro país, sendo deficiente auditivo?

Guilherme: Sim, morei nos EUA por 3 meses e Israel por 6. Foi um desafio, pela dificuldade de entender um idioma que não é o português, mas cada vez me sinto mais seguro para ir para fora, sozinho.

O que você pensa do IC bilateral?

Guilherme: Não conheço quem tenha, mas não vejo necessidade de ter 2 ICs. Prefiro salvar a outra orelha por alguma solução mais definitiva, que não precise de pilhas, como células-tronco… Não sei se quem tem 2 ICs pode retirar sem problemas para a aquisição de uma nova tecnologia porque compromete a cóclea…

Pois é… Mas então… conte do seu blog – Um Novo Começo – que bilíngue português/inglês… Como nasceu a idéia de criá-lo?

Guilherme: Criei logo após a formatura da universidade. Estava com vontade de escrever fazia tempo e finalmente tive tempo. É bilíngue porque queria treinar o inglês. Ainda não achei um tema para escrever sempre no blog, então escrevo sobre coisas do meu cotidiano filmes, viagens, aulas…

Imagem de Guilherme, de perfil, de modo que aparece o aparelho auditivo que ele usa na orelha não implantada. Ele segura um filhote de gato, que também aparece de perfil. Guilherme o segura com apenas uma mão, de modo que seu nariz e o do gato, se tocam. O gato está de olhinhos fechados.

Foto durante a estada em Israel. O gato era de um amigo canadense.

Beijinhos sonoros,

Lak

 

22 palpites

  1. Marcelo disse:

    Show de bola essa entrevista!

    Muito bom saber que logo já poderei voltar a praticar esportes, e dar muita cabeçada jogando futsal,

    Abraços!

  2. Tatiana disse:

    Lak,

    adorei a entrevista, muito boa! E esse trechinho aqui: “(nota da Lakinha: implantados tem a tendência de entender a voz de pessoas familiares com mais facilidade que outras vozes em geral, como se o cérebro aprendesse a ouvir pessoa por pessoa)”, não é só pra implantado, não. Comigo é assim também. Sempre que conheço alguém, preciso me acostumar com o jeito de falar da pessoa, e quanto mais converso com a pessoa, mais fácil fica de entender.

    Bjs

  3. Mariana disse:

    Adorei, muito bacana! Esse tipo de entrevista me dá tanta esperança, de por exemplo, poder acompanhar palestra. :):):)

    Beijinhos, Lak! 🙂

  4. Deborah disse:

    Oi, Lak!
    Adorei a entrevista e aprendi um monte. Perguntinha de quem escuta e está entrando neste mundo para ajudar uma pequenina: o que é LIBRAS? Por que o Gui diz que LIBRAS e IC trilham caminhos inversos? Tem alguma maneira de falar que torna mais fácil a leitura labial?

    • laklobato disse:

      Oi, Deborah… Bem vinda ao blog…
      LIBRAS é a sigla de Língua Brasileira de Sinais, aquela forma de comunicação usada por surdos que não são oralizados (ou seja, que não falam verbalmente).
      Alguns acham que quem fala Libras não precisa usar próteses auditivas ou vice e versa. Não que um impeça o outro, mas geralmente, quem usa prótese, prefere a leitura labial e falar oralmente e quem usa Libras dispensa as próteses. Mas é comportamental e não um impedimento físico. Existe quem faz uso de ambos também. É que a maioria prefere um ou outro.
      Sobre dicas pra falar com quem lê lábios, sugiro a leitura de duas colunas minhas num site de acessibilidade:
      http://www.acessibilidadetotal.com.br/dicas-para-falar-com-deficientes-auditivos/
      http://www.acessibilidadetotal.com.br/leitura-labial/

      Se tiver mais dúvidas, conversamos mais. Beijocas

  5. Maíra disse:

    Um encanto! Se não fosse mais novo, pediria para vc me apresentar, Lak!
    Brincadeirinha! 🙂
    beijinhos

  6. maria h elena disse:

    Querida,
    Quanto mais leio, mas me empolgo com as histórias de vida que você nos cont a
    Com isso, verifico que nunca estive errada em trilhar o caminho que escolhi.
    Próteses auditivas, oralização e implante coclear.
    Parabéns para todos nós
    Um grande beijo

  7. Deni disse:

    Que bacana a entrevista! Gosto de histórias de gente bonita que não se acomoda e o principal não usa suas dificuldades para não ir pra frente.

    Bjos!

    PS. Você não está sozinha, modéstia e humildade também nunca foram meu forte, mas a cada linda história de desafios superados de seus leitores, eu acredito mais ainda que podemos tudo!

  8. Deni disse:

    Ah! Esqueci, fui ativada nessa segunda-feira. Te devendo um e-mail para contar minhas peripécias de iniciante. 😉

  9. alice disse:

    ameeeei o gatinho laranja!

  10. Andrea Prado disse:

    Adorei seu blog, as histórias.
    Eu uso aparelho auditivo há quatro anos, e senti muitas coisas como vergonha, dificuldade em adaptar, perda de um dos aparelhos, etc.
    Mas tenho muita fé e admiro demais quem supera as dificuldades e trilha novos caminhos.
    Adorei saber que estão estudando outras línguas depois de perderem a audição, sempre tive vontade de falar inglês fluente e tinha receio de não conseguir isto nesta vida por conta da minha perda auditiva, mas com essas histórias eu percebo que quando a gente quer de verdade nada nos impede de realizar, a não ser o comodismo.
    Beijos e obrigada.

    • laklobato disse:

      é isso mesmo, Andrea. Permita-se tudo!! Não há obstáculo nesse mundo maior que a nossa força de vontade! Aprenda inglês fluente!! Você pode e consegue! Beijocas

  11. luciane disse:

    🙂 oi sou mãe de uma criança recém implantado mas ainda sem ativação ira ser feita a ativação dia 19 de setembro, estou muito ansiosa para ver a reação dele . O Paulo tem bastante oralidade por a gente forçar ele falar mas ele faz muita leitura labial , ele foi implantado apenas em um lado a perda dele profunda bilateral , ele usa aparelho desdo 2 anos faço tratamento dele em bauru na usp mas consegui o implante no HC de Curitiba . cada vez que leio um depoimento como o de Guilherme fico mais feliz . Quero muito que meu filho seja independente,ou eu me torne independente pois sou muito apegada a ele e tenho muito medo de tudo mas tento deixar ele fazer tudo sozinho. estou em casa a quase 1 ano e meio sem trabalhar por motivo de doença agora que melhorei estou com medo de voltar trabalhar e deixar ele em casa .Mas vou superar esta dificuldade mas ainda estou com muitas dividas sobre o implante…. cuidados , se ele vai fazer exames tipo audimetria sempre como vai ser ?…e será que com implante ele vai ouvir normal e aprender falar normal? São varias outras coisas que passa na cabeça de uma mãe de um menino de 7 anos implantado que não tem parada e esta descobrindo o mundo …. e ler escrever como será…..

    • laklobato disse:

      Olha, os primeiros 2 anos do IC são mais intensos, mas depois, o mapeamento passa a ser anual… Fono, eu recomendo que ele faça por um bom tempo (vai chegar uma hora que ele mesmo vai pedir alta, é normal, depois ele volta)… Agora, um conselho: não compare ele com ouvintes, ele nunca vai ser um ouvinte natural. A audição dele é uma audição especial feita por tecnologia. Fala normal e audição normal só bebês conseguem ter com o IC, mas ainda assim, com pequenas limitações, como por exemplo, ter que tirar o IC na hora de dormir e tomar banho.
      E tire a deficiência dele de foco. Veja-o como uma criança completa que usa um aparelho, como poderia usar óculos aparelho de dentes. O aparelho é um acessorio que ele usa, mas nunca o ponto principal de pessoa que ele é.
      O importante é que a fala seja compreendida perfeitamente, que ele não dependa de ninguém pra conseguir as coisas nem precise repetir 100 vezes cada frase que diz. Não ter voz de ouvinte. Ter voz com sotaque é até charmoso. A sociedade exige uma perfeição desnecessária cuja única função real é gerar uma ansiedade insuportável da parte do implantado. Se ele estiver se comunicando bem, tiver amigos, conseguir satisfazer as próprias necessidades, como ir à padaria e pedir um pão sem precisar de alguém pra traduzir as coisas pra ele, é o que interessa.
      No mais, ame seu filho e empurre-o para a independência e o sucesso! Isso é o que importa.
      Beijinhos

  12. Greize disse:

    Isso mesmo Gui, vai fundo , trilhe seu caminho 😉