Abordagens para pessoas com deficiência auditiva

Semana passada, tive um enorme desprazer de me deparar com uma dessas pessoas detestáveis, que faz  a gente começar ter pensamentos maquiavélicos em relação a ela. Sabe, essas pessoas que parecem ter uma total falta de delicadeza, tato, educação e qualquer coisa que a torne uma pessoa minimamente agradável de esbarrar ao longo da vida.

Estou fazendo um tratamento dentário que, por ser feito numa clínica especializada, envolveu passar por nada menos que três profissionais. A primeira delas, cometeu o infortúnio de anestesiar minha gengiva de tal maneira que minha pálpebra ficou anestesiada e eu tive que ficar duas horas segurando-a, porque ela anestesiou aberta e se eu não segurasse, perigaria o olho ressecar. Nem todo mundo sabe, mas há alguns anos, eu tive uma séria lesão na retina, que deixou uma cicatriz eterna e, portanto, além do fato de ter deficiência auditiva e precisar da visão, eu ainda sou extremamente paranoica com qualquer coisa que possa acontecer com esse olho.

Pois bem, chegando na terceira profissional da série – a segunda foi um amor, apesar de não ter feito a mais agradável das consultas, mas porque o tratamento era chato mesmo – sexta-feira de manhã-ainda-de-madrugada, me veio a seguinte situação:

Ela nem me falou oi, começou a consulta perguntando “Você é 100% deficiente auditiva?” (com tom de afirmação já, como se quisesse confirmar e uma expressão de desprezo nada educada).

Respondi secamente “Não”…

Ai ela fez uma pausa me encarando, como se esperasse uma explicação sobre a deficiência. Tamanha foi a grosseria, que eu não me senti na obrigação de explicar nada. Já cheguei no ponto que entendo se a pessoa falar comigo de máscara.

E ela continuou, com o mesmo tom grosseiro: “Então você consegue entender o que eu digo?”

Respondi um mero “sim”…

Ela fez a mesma pausa e eu continuei calada.

Vendo que eu não estava interessada em passar meu histórico auditivo pra ela, uma vez que ela não me pareceu digna de ouvir a minha história, ela perguntou se podia dar uma anestesia forte, se eu tinha problema de rim, fígado e sei lá mais o que. Respondi que não, mas pedi pra ela tentar não anestesiar minha pálpebra, porque a outra dentista anestesiou e eu tenho retina com sequelas de uma lesão e a pálpebra anestesiou aberta e tive que ficar um tempão segurando o olho, pra não ressecar.
Ai ela responde com o infindável tom grosseiro “Não tenho controle sobre isso. Você tem que entender que a gente não sabe onde o líquido vai se instalar”.
Respondi com cada  vez menos simpatia:  “Ok, mas faça o possível, por favor.”
E ela “Ah, não cabe a mim”.
E eu “Olha, nunca tive problema com isso, a não ser nesta clínica. Então, acho que deve ser possível não anestesiar meu olho, mas se não der, ok”. Ela deu a anestesia, enquanto falava com o mesmo tom sem educação pra assistente colocar um óculos na cabela dela, o que tornou a injeção ainda mais “gostosa” . Quando tirou a seringa, eu levantei a mão e segurei a pálpebra.
E ela, com aquela simpatia ímpar (só que nã0): “O que é isso que vc está fazendo?”.
E eu “Segurando a pálpebra pro caso dela anestesiar, pelo menos anestesiar fechada”.
Ai ela começou a reclamar “Você não pode fazer isso porque…”
Interrompi e disse “E você não precisa ser tão grossa, sabia?  Está nessa grosseria desde que entrei aqui, credo!”
Ai ela saiu da sala e voltou uns segundos depois. “Mandei remarcarem pra vc com outro dentista, porque não tem clima pra eu te tratar.”
E eu “Eu quero terminar o tratamento logo, não estou preocupada com clima, minha filha. Não quero namorar você”
E ela “Ah, não posso, eu estou nervosa. Você está na defensiva desde que entrou!”.
E eu “Eu? Você que já começou sendo completamente mal educada pra perguntar da minha deficiência.”
E ela “Ah, é que eu preciso entender a sua deficiência. Eu entendo tudo, porque tenho parentes deficientes auditivos e sei que tem graus que precisa de atenção especial.”
E eu: “Mas não era o caso. Se fosse, cabia a eu te falar, não você chegar me interrogando.”
(falei isso de raiva, porque eu sempre começo contando da surdez e do IC nos primeiros 2 minutos da consulta. Só que ela não me deu tempo…)
E ela “É que podia ser que vc não me entendesse de mascara”
E eu “Pois é, mas entendo, por isso não precisava te falar nada.”
E ela “Eu não tenho preconceito mas não posso atender você”
Aí eu explodi: “Puta que pariu de má vontade! Nunca vi pessoa mais incompetente”
Sai da sala e remarquei com outro dentista. Mas falei que não cabe a um profissional atacar o paciente que nem conhece.

Infelizmente, esse tipo de situação acontece mesmo. Não tem como a gente esperar que todas as pessoas do mundo sejam educadas (até porque pelo tom que ela falou com a assistente, acho que ela é dessas pessoas totalmente de mal com a vida) mas é possível que algumas pessoas simplesmente não saibam abordar o assunto, quando se deparam com alguém com deficiência auditiva que foge ao lugar comum de surdo-usuário-da-língua-de-sinais. Então, vão aqui umas dicas de como lidar:

– Comece se apresentando. Isso dará oportunidade da pessoa fazer o mesmo. É provável que ela já conte logo de cara que tem deficiência auditiva e que precisa que você fale mais alto ou mais baixo ou mais devagar, ou virado pra ela. Uma boa parte de  nós faz isso, numa primeira consulta médica ou dentária. A gente tem interesse de entender/se fazer entender.

– Se por ventura, a pessoa não falar nada e você perceber ou souber previamente que ela tem deficiência auditiva e você sentir necessidade de abordar o assunto, pergunte. Não deduza nada, pergunte. Por exemplo “Você tem deficiência auditiva?” “Eu soube que você tem deficiência auditiva” ou ainda “Posso fazer algo para facilitar a nossa comunicação?”. Procure fazer isso com uma expressão receptiva e não grosseira. A pessoa precisa se sentir  a vontade para falar com você. Lembre-se que ela já deve ter se deparado com situações de preconceito e quase sempre se sente insegura diante de uma pessoa nova.

– Lembre-se que o fato de você ter parentes com deficiência auditiva não te torna, necessariamente, especialista no assunto. E que seus parentes nem sempre são moldes-mestre da humanidade. A deficiência auditiva tem uma diversidade enorme e o que funciona pro seu primo não funciona, obrigatoriamente,  pra toda e qualquer pessoa com deficiência auditiva.

– Se você se sentir inseguro de fazer alguma determinada coisa – por exemplo, usar a máscara durante o procedimento, porque não sabe se ela vai entender assim – pergunte, mas sempre com um tom de dúvida, não de dedução. “Você entende quando falo com a máscara?” e não “eu sei que gente como você não entende quando eu falo usando máscara.”. Lembre-se que a deficiência auditiva é da pessoa e não sua. Cabe a ela te falar das necessidades dela, do que facilita a comunicação entre vocês e não você bancar o adivinho.

– Se a pessoa tiver sotaque na voz e você não entendê-la, não tenha vergonha de pedir para ela repetir. Lembre-se que ela também quer manter o diálogo. Mas evite comentários grosseiros a respeito do sotaque. Não tem nada mais chato que conversar com uma pessoa que fica fazendo críticas em relação a nossa voz. Isso cabe ao nosso fonoaudiólogo e pessoas próximas. Se feito por um desconhecido palpiteiro, só irá gerar insegurança. Pedir para a pessoa falar um pouco mais devagar ou mais alto é bem diferente de dizer “Nossa, por que sua voz é esquisita desse jeito?”

– Lembre-se que a deficiência auditiva provavelmente não acarreta deficit intelectual. Portanto, não trate um deficiente auditivo/surdo oralizado como se ele fosse um idiota.

O bom senso deve prevalecer sempre. E educação é um dever de todos!

Beijinhos sonoros,

Lak

 

9 palpites

  1. Eliane disse:

    É verdade, educação acima de tudo e um pouco de delicadeza tb. Aliás, ouvindo um médico outro dia, ele disse:”não existe doença, existem doentes”pq cada um manifesta de uma determinada forma, ligada a história de vida dele, portanto cabe ao médico ouvir o que a pessoa tem a dizer para saber a melhor maneira de lidar com ela. Sabe, o que acho mais louco de tudo? é a pessoa não se dar conta que não esta imune. E, como seria se fosse ela em questão, como gostaria de ser tratada, afinal em qq situação gostamos de ser bem recebidos e, quando já trazemos na bagagem o cansaço de anos de preconceito fica ainda mais intragável encontrar um “ser” como essa dentista, SOS! 😳

  2. alice disse:

    lak, esse post falou tudo! Nota 10! 🙂 🙂 🙂

  3. IRIS disse:

    oi achei o seu site buscando como entender minha filha e lendo o relato do dentista pude perceber que é um pouco do que ela vive ou seja muito na defensiva(por favor não se ofenda é o que acho dela) que acaba vendo mal em tudo que fazemos amo demais minha filha por isso quero entende-la e ajuda-la a viver neste mundo de discriminação. sinceramente não sei mas o que fazer? se tentamos conversar acha em algum momento que estamos chamando de burra, se não falamos, acha que nao ligamos e ninguem gosta ela.

    • laklobato disse:

      A escritora Anaïs Nin escreveu “não vemos as coisas como elas são, vemos as coisas como nós somos”.
      Eu não conheço sua filha, nem a situação como um todo, para poder dar um parecer valido.
      No entanto, fazendo a mesma analise que vc fez, que diz que assim como eu (ou seja, me analisou por tabela) ela vive na defensiva.
      Se vc leu meu texto com atenção e se prestasse a ler mais alguns posts, saberia que eu adoro contar daninha história (acabei de recuperar a capacidade de ouvir, logo, estou vivendo um milagre) adoro ajudar as pessoas a saber como se comunicar com surdos oralizados e nao tenho vergonha nenhuma da minha condição. Mas é claro que isso nao me priva de humanidade e, diante de uma pessoa estúpida como essa dentista (o problema nao foi a pergunta, foi o tom e a abordagem) eu não me sentir a vontade de ser receptiva.
      O que eu vejo é uma intolerância com a nossa má vontade. Como se ter uma deficiência desprovesse as pessoas de humanidade. Do direito de reclamar. Ou se chatear. Querem que sejamos iluminados, ponderados e sábios. Coisa que vcs tb nao são…
      Quanto a sua filha, é possível que ela nao se sinta integrada à família, porque fiquem lembrando o tempo todo que ela é diferente. Pode ser que você tenha uma postura defensiva em relação a ela e interprete tudo o que ela faz como grosseria. Ode ser que seja fase. Pode ser que ela seja mal resolvida. Quem sabe?
      Certamente não é vindo reclamar dela no meu blog que vc vai achar a solução.
      Tente conversar com ela sem julga-la, ouvir o lado dela também e, conforme for, considerar a ajuda de um psicólogo pra família toda!
      Abraços

  4. Crisaidi Bento Sodré disse:

    Kkkkkkkkk Ela ficou com medo de levar uma mordida!

  5. ANTONIO disse:

    ola lak parabems por esta materia,gostaria de lhe comunicar que fiz o implante coclear estou de repouso quando estiver bem vou postar minha historia de superacao ate chegar ao implante ok abraço fica com deus

  6. antonio disse:

    ok so o mes que vem beijos