Entrevista com meu muso de Implante Coclear

A minha amizade com o Raul está muito ligada ao implante coclear. Quando nos conhecemos, eu estava numa fase de descobertas. Eu, como a grande maioria dos surdos oralizados, achava que era um caso único de surdo que falava oralmente e não pela língua de sinais. E foi nos tempos de orkut que descobri um grupo chamado Surdos Oralizados onde descobri que eu era uma de muitas pessoas com esse tipo de história. Havia gente igual a mim, que não ouvia mas falava, que tinha afinidade com a língua portuguesa e lia lábios muito bem.

E foi através desse grupo que eu tive contato com o implante coclear. Foi o Raul quem mais insistiu para que eu fizesse o IC. E foi no ombro dele que chorei quando soube dos eletrodos a menos, que no meu caso (engraçado, mas eu já previa, mesmo sem saber) afetou a discriminação auditiva. Principalmente, foi no Raul que eu me espelhei para perceber que o sucesso do IC não depende de conseguir se livrar da leitura labial ou de falar no telefone. Tem a ver com você GOSTAR de ouvir, de ser implantado, de querer compartilhar conhecimento e experiência.

Ele era a única pessoa (que não fosse da família ou do trabalho) que sabia do IC bilateral e até me mandou flores para comemorar o sucesso da segunda cirurgia. Porque eu já sabia que ele estaria lá para me apoiar independente de qual fosse o resultado.

Confesso que eu me divirto com a desconfiança de muita gente em relação a nossa amizade. As pessoas não acreditam em amizade entre homem e mulher, menos ainda entre gente que fica se provocando. É que a nossa amizade é de irmãos mesmo e implicar um com o outro é o que torna ela forte. O que as pessoas não sabem, é que amizade como a dele é aquele porto seguro que falta, de alguém que já passou pelo que você está passando e que sabe as coisas certas para te dizer quando você pira. Se hoje eu consigo apoiar tanta gente, foi porque aprendi com o Raul quando era minha fase de novata.

Enfim, depois dele me encher o saco por meses, finalmente trago uma entrevista com ele aqui pro blog. Nossos casos são diferentes, porque ele é um surdo de nascença com implante tardio, que gosta de usar o IC mesmo sem ter o resultado de sucesso absoluto avaliado pela medicina. Além do vídeo, trago um texto que ele postou semana passada no perfil dele, relativo ao IC.

Espero que gostem do vídeo, não esqueçam de ativar as legendas e assinar o canal do DNO no YouTube!

 

“Ontem eu estava conversando com um colega que estava curioso sobre o Implante Coclear. Papo vai e vem, daí me lembrei de uma cena que me ocorreu nos primeiros meses de IC.

Eu estava curioso sobre a possibilidade de conseguir dormir ouvindo, me deitei, fechei a janela. Três minutos depois do silêncio absurdo, eu escuto um som desconhecido. Tento descobrir do que se trata este som, penso que deveria ser o barulho do vento, mas depois me dei conta de que não podia ser, pois a janela se encontrava fechada. Pensando muito, me vem a mente: “barulho da respiração? Não, não pode ser, nunca me falaram que era possível ouvir isso”. Mas resolvo virar criança e descobrir isso: prendo a respiração, o som morre. Volto a respirar, o som volta. Pronto! Só pensava: caraaaaaaaca! Que coisa louca!

Me lembro como se fosse ontem a sensação de descobrir que respiração, sim, emite som. E assim, fiquei impactado por uma semana por ter feito uma descoberta que pode soar banal ao ouvido dos ouvintes (sim, é pleonasmo, mas ficou legal assim).

Eu preciso urgentemente fazer uma lista das descobertas fantásticas com o Implante Coclear para usar como resposta às perguntas banais que me fazem, do tipo: “Mas por que você gosta do IC se nem consegue falar no telefone?”

Realmente, vocês não fazem a mínima ideia do impacto que o Implante Coclear causou em minha vida e da emoção que tive nos primeiros anos em ouvir sons que nunca imaginei que fosse ouvir um dia – um deles é descobrir que pisar em folha seca também emite um som poético. Só por ter experimentado essa mistura de emoções e por ter descoberto uma nova perspectiva de vida quando adulto, já valeu muito a pena a experiência em ter passado pela cirurgia de Implante Coclear.

Talvez vocês não façam a mínima ideia por que não sou uma pessoa de compartilhar emoções, mas estou fazendo isso hoje por que de alguma forma essa lembrança foi necessária vir à tona para eu ver com mais clareza a revolução que este pequeno apetrecho causou em minha vida.

Agora respondendo a curiosidade que alguns devem ter tido ao ler este texto, não, não consegui dormir ouvindo. É tão gostoso poder dormir no silêncio.”

beijinhos sonoros,

Lak

7 palpites

  1. RUIDO DE PISAR FOLHAS SECAS…ADORO…no Jardim botânico fico indo e vindo sobre as folhas secas só prá ouvir o barulhinho….
    Legal o depoimento do Raul.

  2. Quem tem amigos, tem tudo e quando esses amigos compartilham as mesmas emoções é demais, né? Parabéns aos dois por tantas conquistas e emoções sonoras. :*

  3. Lak Lobato Lak Lobato disse:

    😀 obrigada.. e sim, ter amigo é ter a mão que te guia para o seu destino! <3 <3 <3

  4. Eliane disse:

    Amei ler tua história Raul…..eu também vibro com muitos sons que somente depois de implantada voltei a ouvir. As vezes dependendo do som acho que ouço pela primeira vez pois eu era ouvinte na fase da infância até a adolescência e provavelmente nestas fases não prestava atenção como hoje implantada.

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