Aprendendo a ouvir um novo idioma

No começo do ano passado, eu escrevi contando que estava indo fazer intercâmbio de inglês. Eu sempre fui apaixonada pelo idioma, mas só com a leitura labial nunca consegui aprender nada além da gramática (leitura/escrita). Salvo o básico do básico, simplesmente não conseguia progredir.

Antes de continuar o texto, como sempre, quero que os leitores saibam que eu não falo em nome de todos os deficientes auditivos. É uma experiência pessoal, que algumas pessoas podem se identificar e outras não.

Quando decidi estudar inglês em Londres, nem foi uma escolha baseada unicamente na vontade. Eu trabalho na área de comunicação, que hoje exige conhecimento em outros idiomas, especialmente inglês e espanhol. E essa barreira sempre me impediu de mandar meu curriculum para vagas que eu realmente desejava, em grandes empresas multinacionais.

Eu sei que tenho limitações por causa da deficiência. Mas, ainda assim, a vontade de crescer sempre foi combustível suficiente para ir além…

Passei cinco semanas em Londres e voltei com inglês intermediário. Foi legal, mas ainda assim, minha comunicação era limitada. Eu só conseguia entender quando ouvia em inglês e fazia leitura labial ao mesmo tempo. Não era nem perto da minha compreensão com o português, por exemplo.

Voltei de Londres e, por causa de vários reviravoltas profissionais, não consegui continuar estudando. E o tempo passou. No começo desse ano, eu dei uma chutada de balde e desde janeiro estive trabalhando de casa e nos horários que eu fazia. Isso me deu flexibilidade para voltar a estudar inglês. E lá fui eu, fazer uma sequência de cursos intensivos de inglês na Cultura Inglesa. No começo, meu obstáculo com o inglês auditivo era o mesmo que o de Londres. Eu ia muito bem na parte escrita (muito bem mesmo, nunca tirei uma nota abaixo de 10 em interpretação de texto), muito bem em gramática,  bem em produção de texto, bem em produção oral (embora eu tenha dificuldade com vários fonemas, mas sai o compreensível)… Mas continuava péssima na compreensão sonora. Foram vários meses de aula, vários áudios que eu tinha que ouvir 7, 8, 9 vezes até compreender o mínimo. Muita frustração, muita reclamação dos meus professores (eles não entendiam essa dificuldade para quem tinha uma compreensão acima da média na parte escrita).

Até que uma hora – depois de mais de um ano e seis meses – as coisas começaram a fluir melhor. E foi aí que começou uma coisa engraçada. Eu comecei a ter uma compreensão razoável sem apoio visual e fiquei chocada ao descobrir que muitas palavras eu imaginava o som completamente diferente do que é e, por isso, eu pronunciava muito errado mesmo. Não sei determinar o que aconteceu, foi simplesmente um estalo de uma hora pra outra, como se tivesse quebrado uma barreira mental.

E, nesse momento, comecei a observar como as crianças aprendem a ouvir via implante coclear. Quando fui implantada, eu já tinha ouvido naturalmente num período importante da formação da linguagem. Embora meu resultado com o primeiro IC nunca tenha chegado na espontânea compreensão da linguagem, assim que fiz o segundo, foi questão de dias, para estar entendendo frases inteiras.  Em pouco tempo, eu já falava no telefone e ouvia música entendendo a letra. Mas isso, porque a base da  aquisição do idioma foi feita naturalmente, muitos anos atrás, na minha infância.

Não era o caso do inglês. Não é meu idioma nativo, não tive aulas de inglês quando criança. Eu não tenho sequer afinidade com o idioma, diferente do francês, por exemplo. Logo, foi algo que tive que começar do zero e ir trabalhando o cérebro para reconhecer os fonemas, alguns que sequer existem no meu idioma materno.

Não digo que já cheguei no nível da fluência e teria uma conversa por telefone, em inglês, sem dificuldade. Só digo que meu cérebro não rejeita mais a compreensão dessa língua. Eu já consigo, por exemplo, ter uma conversa informal, participar de um debate, assistir um seriado em inglês sem legenda e compreender (pelo menos) o tema da conversa mesmo sem apoio visual. O mesmo vale para exercícios em áudio. Não é uma compreensão de ouvinte com inglês fluente. Mas, é muito mais do que eu achava que seria capaz de compreender há um ano atrás.

Nessas horas, eu reforço a convicção que o implante coclear não é um milagre no sentido de ser imediato, instantâneo. Ele pode levar à conquistas inimagináveis, mas com trabalho árduo, empenho, dedicação, força de vontade e persistência. Muitas vezes, vai parecer difícil demais e dará vontade de desistir. Mas, quando a gente insiste e chega o momento em que começa a colher os frutos da nossa dedicação, a gente se dá conta do quanto vale a pena seguir em frente. Mesmo que pareça uma realidade distante, como diz meu pai, o futuro chega!

E por que eu escrevi esse texto? Não para me gabar das minhas conquistas linguísticas. Mas para incentivar as pessoas (e os pais de pessoas pequenas) que ainda não chegaram nessa etapa de colher os frutos do trabalho de reabilitação auditiva a não desistirem. É um exercício diário de paciência e perseverança, que às vezes vai parecer uma batalha perdida, mas que uma hora dá resultado e todo esse esforço vai valer a pena, tenham fé!

Beijinhos sonoros,

Lak