Conversando sobre Surdez e Implante Coclear no Colégio MOPI (RJ)

Que tal a oportunidade de conversar com 75 crianças de 7, 8 e 9 anos? Ainda mais para alguém que perdeu a audição nessa faixa etária e, por isso, sabe que é uma idade que já entende muita coisa, mas que ainda não perdeu a pureza nem a inocência? Pois é…

Foi o que me aconteceu semana passada. O convite veio de uma maneira muito inesperada – como a maioria dos convites que recebo – quando comentei com minha amiga Mariana Candal que iria passar uns dias de férias no Rio de Janeiro.

De repente, eu estava sentada numa sala, esperando começar uma reunião e Mariana me chamou para perguntar se eu teria interesse de conversar sobre surdez e implante coclear com crianças ouvintes do terceiro ano do fundamental.

A primeira reação que tive foi agradecer mentalmente a Mari pelo voto de confiança! Afinal, não tenho nenhuma experiência com crianças. Mas, depois, reconheço que me bateu um certo pânico. Porque é um público totalmente novo (nos dois sentidos dessa palavra) e que precisa de uma linguagem única e especial. Crianças precisam que você fale com elas de igual para igual. Um discurso poético, literário, cheio de simbolismos funciona lindamente com adultos. Mas, criança carece de uma linguagem acessível, com poesia própria. E como não tinha nenhuma experiência prévia de falar com elas, confesso que fiquei em pânico sim.

Mas, como vocês sabem, acima de todas as coisas (menos meu marido, minha família e meus implantes) eu amo desafios! E qual o desafio maior que encarar uma situação que você não tem experiência nenhuma, sob o olhar mais crítico e sincero de todos: as crianças? Pois é, como vocês devem imaginar, eu aceitei o convite e fui lá, de coração aberto para qualquer tipo de acolhida (ou não) por essas crianças.

O mote do convite foi o fato que a escola escolheu um livro muito especial para eles lerem: “Daniel no Mundo do Silêncio” de Walcyr Carrasco, que conta a história de um menino que perde a audição aos 7 anos e aprende a língua de sinais e a viver a surdez. De certa forma, guardada as devidas proporções, a história é parecida com a minha.

Então, separadas em 3 turmas de 25 crianças, sentei com elas para contar sobre acordar acordar surda de manhã, tendo ouvido até então e descobrir o mundo sem audição nenhuma. E só reencontrar o som 25 anos depois.

Descobri que falar com crianças é totalmente diferente de falar com adultos. Elas são extremamente interativas e participativas. Contam as experiências delas junto com as minhas. Fazem milhares de perguntas. Tem curiosidades extremamente óbvias – que provavelmente adultos também tem, mas não tem coragem de perguntar.

Qual não foi minha surpresa (que inclusive passou pela minha cabeça na época, mas eu tinha esquecido disso) quando, depois de contar “E depois de acordar e perceber que meu quarto estava muito silencioso, eu levantei e andei até a janela. Contra tudo o que eu poderia imaginar, a obra estava lá, funcionando normalmente. Eu que não conseguia ouvir, porque tinha perdido a audição subitamente durante a noite” – que a classe ouvia quase sem respirar, como uma boa história de suspense – uma mãozinha não se levantou, para perguntar “Você perdeu a audição por causa do barulho da obra?”

Fonte: Acervo Colégio Mopi

Fonte: Acervo Colégio Mopi

Elas me interrompiam toda hora para saber quando e como voltei a ouvir (e só ficaram sossegadas quando confirmei que isso aconteceu). Perguntaram se eu chorei muito. E como consegui aguentar. Se a cirurgia doeu. E muitas contaram que tinham parentes surdos parcial ou totalmente.

A interação com elas foi a mais linda e especial experiência que já tive. Admito que voltei completamente apaixonada por crianças dessa idade. Sobretudo, pela poesia que transborda delas. Diante do meu final – contando que eu imaginava o som do pôr-do-sol e que mesmo hoje, com aparelho, fecho os olhos para imaginar esse som – uma menininha de 7 anos me interrompeu para sugerir que eu levasse dois colegas dela (que tocavam violino) para praia comigo, para que eles pudessem criar a verdadeira trilha sonora do pôr-do-sol. Porque ainda mais bonito que poder ouvir esse som, é o fato da solução vir da cabeça de uma criancinha de 7 anos!

Abaixo, o texto publicado pelo próprio Colégio Mopi, relatando a experiência das aulas:

“Aos nove anos, ela ficou surda e mostrou muita determinação para seguir em frente!

Com nove anos, Lak Lobato se deparou com algo que transformaria sua vida para sempre. Um dia, ela acordou e não ouvia mais nada.
Consultou-se em vários médicos e até hoje ninguém descobriu o motivo da surdez, mas com determinação e força de vontade, ela viveu por 25 anos com essa nova realidade a que lhe foi imposta. Mas a surdez não a impediu de seguir o caminho: retornou ao colégio, cursou faculdade e aprendeu novas línguas como espanhol e inglês. Até lançou o livro “Desculpe. Não ouvi”. Há alguns anos, passou por uma cirurgia onde implantou um aparelho, o qual lhe devolveu a audição, para a felicidade e surpresa de Lak.

Essa linda história de perseverança foi contada aos alunos do 3º ano, da Unidade Tijuca, nessa semana. Eles estão trabalhando as diferenças e dificuldades. Para um maior embasamento do tema, lerão neste bimestre o livro “Daniel no Mundo do Silêncio”, de Walcyr Carrasco.
A publicação conta a história de um menino que perde a audição quando criança, aos 7 anos. Agora que ouviram o relato de Lak, eles têm o desafio de comparar a história dela com a do personagem fictício do livro.

“Fiquei encantada em redescobrir os sons. Tudo faz barulho. É incrível! Acho lindo ouvir os passarinhos cantando, o som de uma latinha de refrigerante sendo aberta. Enfim, tudo! Já fiz muitas palestras em faculdade e para adultos em geral, mas para crianças foi a primeira vez e é o que tem de mais especial. Elas são puras e fazem perguntas que os adultos não têm coragem de fazer. Me sinto privilegiada de poder passar essa vivência para todos”, diz alegremente Lak.

E assim foi a segunda-feira para a garotada do 3º ano: cheia de emoção, descobertas e muito aprendizado sobre a vida e suas dificuldades.”

Obrigada à Mariana Candal e Colégio MOPI pela indescritível experiência de conversar com crianças.

Beijinhos sonoros,

Lak

1 palpite

  1. Emocionada de ter feito parte dessa história! Foi muito legal mesmo! Compartilhando em 3, 2, 1…

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