De onde é o seu sotaque?

pequeno-budaA forma como uma pessoa com deficiência auditiva fala varia, mas uma parte considerável de D.As., adquiridos ou congênitos possui uma voz com som característico que vive despertando a atenção das pessoas.

E eu não fujo a regra. Apesar de eu ter ouvido normalmente até os 9 anos – e a língua portuguesa falada ser a minha língua materna  e meu idioma natural – minha voz é aquela denasal típica (ou seja, sai pouco ar pelo nariz nos fonemas que exigem nasalidade) que faz com que pareça que eu estou gripada o tempo todo. Além disso, meu sotaque é extremamente confuso, já que eu sou carioca e mudei para SP ainda no período de formação da linguagem e quando eu estava começando a falar feito paulista, perdi a audição e ficou uma mistureba no que se refere a sotaque, eu falo o S e o R meio híbridos, com um pouco de chiado. Com o passar dos anos sem feedback auditivo, minha voz ficou bem “fechada”, principalmente porque usava a vibração como controle do som e não a percepção auditiva normal. Depois de fazer o primeiro IC, ela melhorou um pouco. E depois de fazer o segundo que me deu uma audição excelente, ela ficou ainda melhor. Mas, mesmo sendo extremamente clara – afinal, eu dou palestras – ela ainda tem sotaque típico já que foram 25 anos sem ouvir minha própria voz.

Esses dias, estava conversando com uma pessoa. Não estava rolando nenhum tipo de dificuldade na conversa. Mas, eu comecei a notar que, pelo jeito que ela estava conduzindo as perguntas, queria saber da minha voz. Não apenas pelo sotaque, mas esse nome que eu tenho “Lakshmi” (porque pessoalmente, eu me apresento assim às vezes) faz com que muita gente ache que sou estrangeira. Educadamente, expliquei que eu era brasileira. Aí, a pessoa me perguntou se eu tinha morado fora na infância, hehehe.

Expliquei que era surda e mostrei o IC pra ela, que achou bonito (disse que já tinha ouvido falar), mas de novo deu um jeito de perguntar do meu sotaque. Sorri e expliquei com a maior boa vontade do mundo – a pessoa estava sendo muito simpática e educada, não tinha porquê eu me aborrecer – que o sotaque era típico de quem não ouve.

Aí, meu interlocutor me disse algo que eu já ouvi algumas vezes: “Parece sotaque de portuguesa”. Eu respondi: “É sotaque de surdo, acredite”. Ele insistiu que parecia mesmo sotaque de portuguesa. Brinquei: “Não é, porque eu falo você e não tu” e ele respondeu: “Bom, então passa a falar TU e você não precisa mais contar que você tem deficiência auditiva”.

Eu sorri, porque essa não foi a primeira vez que eu recebi essa sugestão na vida. E, confesso, eu não vejo maldade nela, apenas vejo uma longuíssima história de camuflagem das fraquezas para sermos aceitos. Não é da pessoa, é um inconsciente coletivo que diz que deficiência é sinal de falha/defeito/fraqueza/menor valor e, se isso puder ser camuflado, ser escondido sob a discrição, ser disfarçado de outra coisa, quem tem deficiência poderia simplesmente não sofrer todo o preconceito que o estigma da deficiência traz com ela.  Mas, apesar dessa “boa” sugestão ter sido colocada de uma forma tão educada e suave – juro que não tinha nem uma gota de maldade no olhar ou no tom da voz, ele realmente achou que estava falando algo bacana – eu respondi:

–  Não posso fazer isso, porque meu trabalho é justamente divulgar o caminho do meio.

Ele me olhou com uma cara intrigada.

Continuei: “Você assistiu ‘O Pequeno Buda’? Em determinado ponto do filme – que acredito que foi extraído de ensinamentos budistas –  o narrador diz que Buda estava sentado meditando na floresta havia anos, quando ouviu um professor de música falar com seu aluno sobre as cordas da cítara ‘Se você apertar demais as cordas, a corda arrebenta. Se você afrouxar demais, ela não toca’ “.  – Ele continuou me olhando com uma cara intrigada, mas não disse nada. Até que completei:

– É porque a maioria das pessoas não sabe que um deficiente auditivo pode falar com a voz dele, seja como ela soar. Ou ele tem voz igual de ouvinte, porque os ouvintes naturalmente são os que normalmente falam. Ou ele usa a língua de sinais e não se expressa oralmente. Porém, há os que perdem a audição, há os que tem resultado razoável com próteses e implantes, embora não ouçam perfeitamente e possuem o sotaque na voz. Essas pessoas, tal como eu, tem o direito de usar a voz oral para se manifestar. Se eu camuflar o meu sotaque fingindo que sou estrangeira, vou jogar uma pá de cal em todo o trabalho que venho fazendo há anos.

Nessa altura, ele já começava a me olhar quase como se sentisse vergonha do que tinha dito, mas continuei:

– Se um estrangeiro se muda para o Brasil, ninguém espera que ele perca totalmente o sotaque. É uma característica dele, que é respeitada e, em muitos casos, até elogiada. Mas, de um deficiente auditivo, espera-se que ou ele tenha voz perfeita ou ele não use a voz. E eu discordo dessa postura. Acho que a nossa voz é um bem nossos e temos o direito de usá-la (ou não usar) conforme queremos.

Ele sorriu e concordou com a cabeça, completando apenas:

– Você tem toda razão. A sua voz é ótima, sabia? Foi apenas o sotaque que estranhei. Mas agora, entendo perfeitamente por que você não o esconde.

De coração, eu não acho que os deficientes auditivos sejam obrigados a falar oralmente. Aqueles que escolhem (e que são escolhidos) pela LIBRAS podem e devem ser respeitados pela sua língua, sua forma de se expressar, sua comunicação visual-espacial. Porém, aqueles que optarem por utilizar a voz, tem o mesmo direito de serem respeitados. A deficiência auditiva possui diversidade e todas formas de se expressar são válidas e dignas de respeito. Esse é o caminho do meio!

Beijinhos sonoros,

Lak

 

9 palpites

  1. Eliane Lobato disse:

    🙂 lindo exemplo de caminho do meio, tão importante e por vezes tão difícil de alcança-lo. bonito texto! 😀

  2. Infelizmente muitas pessoas acham que você deve camuflar a sua voz, o seu defeito. Eu aprendi que, se você não esconde ele torna-se menor. Necessariamente achei que, no seu depoimento, as pessoas procuraram especular o motivo de sua fala ser diferente. O preconceito existe, não que eu cite esse exemplo, talvez não seja o caso, mas você mais uma vez foi sublime ao encarar os interlocutores frente a frente, debatendo o problema. Estou nesse caminho do meio, com dois IC, não tenho sotaques mas se os tivesse, falaria abertamente como você. Com muito orgulho, afinal o problema não são as pedras em nosso caminho, mas ficar incomodado com elas.

    • Lak Lobato disse:

      Se você estiver se atendo ao significado real da palavra preconceito, sim, foi um caso de preconceito. Algum conceito sem informação foi feito para julgar pq minha voz não correspondia ao que deveria ser (uma voz de mulher ouvinte, falante do português, da região sudoeste do Brasil). Mas, eu use “preconceito” naquele sentido de intolerância, discriminação, descaso.
      De fato, a sociedade exige a camuflagem, mas como diria o poeta: Nadando contra a correnteza, só pra se exercitar 😳
      Beijinhos sonoros

  3. soramires disse:

    Não tenho sotaque porque perdi a audição com 20 anos e imediatamente comecei a usar aparelhos auditivos, não tive um tempo de privação da audição. Mas batalhando pela acessibilidade das pessoas com defici}ência auditiva conheci e continuo conhecendo muitas pessoas com esse sotaque, que não é uniforme diga-se de passagem. Essa característica pede de parte de quem conversa com uma pessoa surda pela primeira vez uma maior atenção (isso acontece comigo) até a gente assimilar o sotaque e conversar normalmente. Por ser surda também eu às vezs tenho que pedir para repetir porque não entendi mas acabamos por nos entender e conversar numa boa. E lembro que existem pessoas sem nenhum problema de audição que falam de uma maneira difícil de entender, falam baixo demais, têm voz estridente ou rouca…por isso muitos profissionais que usam a voz passam por fonoaudiólogos (as) para aprender a respirar, a falar bem e claramente.

  4. Por falar em discriminação, se me permite Lak, na semana passada fui ao Shopping Interlagos ver as sessões disponíveis para assistir ao filme Velozes e Furiosos, do qual sou fã, e, veja bem, todas as sessões em todos os horários os filmes eram dublados. A lei existe, mas acho que não é cumprida, pois deveriam haver sessões com legendas, mesmo os desenhos. Isso é preconceito, isso é excluir a nossa classe, a dos deficientes auditivos. O tema é fora da matéria, mas já que estamos falando de preconceito…Nos Estados Unidos existem sessões para deficientes auditivos, inclusive os nacionais (em inglês), porque aqui precisamos conviver com isso?