Deficiência auditiva, muito além da LIBRAS e do Implante Coclear

Hoje acordei com vontade de desabafar. Ando lendo muitas coisas sobre implante coclear, libras, surdez, etc…

E se tem uma questão que me faz ficar ressabiada, é essa afirmação “Todo implantado tem que aprender LIBRAS porque quando ele tira o IC volta a ser surdo e precisa se comunicar”.

Nem vou entrar no mérito se a LIBRAS deve ou não ser ensinada a todo surdo, toda a sociedade ou todo o universo. Isso não vem ao caso nesse desabafo.

Minha desalegria (essa palavra existe?) com essa afirmação é mais por dois pontos: “Ele volta a ser surdo quando tira o IC”.  Se vocês me permitem o palpite: ele continua sendo surdo inclusive quando está com IC. Ninguém deixa de ser surdo. A questão é que ele está ouvindo, mas através de uma tecnologia e com todas as limitações que ela apresenta (para algumas pessoas, quase nada; para outras bem grande). Logo, em momento algum um surdo implantado ganha status de ouvinte. E sempre será um implantado, alguém que biologicamente não tem capacidade de ouvir, mas graças ao apoio da tecnologia, consegue ter essa sensibilidade.

O outro ponto é colocar como se tirando o IC, ele perdesse a capacidade de se comunicar. Ou seja, como se as únicas formas de comunicação fosse ouvindo e falando ou usando a língua de sinais. Sem meio termo, sem alternativa.

Veja bem, o aparelho fonador, a capacidade de produzir voz oral não tem nenhuma ligação física com a capacidade de ouvir. A questão é que o aprendizado da língua falada depende de boa audição. Mas, uma vez aprendido – por audição natural ou tecnológica ou por reabilitação com fonoaudiólogos – a capacidade permanece. Claro que a voz pode ser mais clara ou menos clara devido a N fatores, mas tendo audição naquele momento ou estando com o IC desligado, a pessoa que é bem oralizada, vai continuar falando normalmente, porque desligar o IC não desliga automaticamente a língua nem as cordas vocais.

A outra questão é: como ela vai entender a resposta do interlocutor sem ouvir ou sem LIBRAS? Através da leitura labial. Pois é, a Leitura Labial também é uma forma de comunicação válida, extremamente natural (ela geralmente se desenvolve sozinha na grande maioria das pessoas que domina a técnica) e eficiente. Obviamente tem suas limitações, assim como a audição, assim como qualquer outra forma de comunicação.

De fato, ela depende de N fatores para ser eficaz: boa visibilidade dos lábios, fala natural, etc. Mas, ela permite sim um diálogo fluente e claro, com uma comunicação bem estabelecida. E é isso que importa.

Nem todas as pessoas que usam implante coclear conseguem desenvolver (ou manter, caso a usassem como forma de comunicação anteriormente) a leitura labial. Mas muitas pessoas, de todas as idades, mesmo usando implante coclear complementam a comunicação através dela. Eu, por exemplo, apelo para ela toda vez que estou sem implante ou o ambiente não favorece a conversa através do áudio (ambientes com acústica ruim, por exemplo).

Meu desabafo é contra um discurso engessado de que a comunicação só pode acontecer de uma forma X ou Y.  Porque existem inúmeras formas de se comunicar e todas merecem o mesmíssimo respeito. Não menosprezem a leitura labial. Ela é possível. Muita gente a utiliza e ela deve ser tão respeitada quanto qualquer outra forma de comunicação.

Beijinhos sonoros,

Lak

36 palpites

  1. Também me irrito com esse tipo de discurso…outro dia uma senhora muito culta, militante há muitos anos nas causas em favor de desmitificar a deficiência e promover a acessibilidade me disse esatamente isso: todo surdo PRECISA APRENDER LIBRAS, porque quando fica sem as próteses precisa se comunicar…ISSO É RESULTADO DE NÃO TERMOS NENHUMA REPRESENTAÇÃO NOS GRUPOS MUNICIPAIS, ESTADUAIS E FEDERAIS que tratam DE DEFICIÊNCIA…ESSE MULHER, CULTA, INFORMADA APENAS ME REPETIU O QUE ELA RECEBEU DE INFORMAÇÕES NESSES GRUPOS “oficiais”. Além de não termos representantes, nesses grupos existem pessoas dedicads a impor um modelo único de surdo, o surdo sinalizado.

  2. Também me irrito com esse tipo de discurso…outro dia uma senhora muito culta, militante há muitos anos nas causas em favor de desmitificar a deficiência e promover a acessibilidade me disse esatamente isso: todo surdo PRECISA APRENDER LIBRAS, porque quando fica sem as próteses precisa se comunicar…ISSO É RESULTADO DE NÃO TERMOS NENHUMA REPRESENTAÇÃO NOS GRUPOS MUNICIPAIS, ESTADUAIS E FEDERAIS que tratam DE DEFICIÊNCIA…ESSE MULHER, CULTA, INFORMADA APENAS ME REPETIU O QUE ELA RECEBEU DE INFORMAÇÕES NESSES GRUPOS “oficiais”. Além de não termos representantes, nesses grupos existem pessoas dedicads a impor um modelo único de surdo, o surdo sinalizado.

  3. Apoiadíssima Lak Lobato!
    Aqui estamos exatamente nesse caso, IC + Leitura Labial. E confesso que até eu, ouvinte, em ambientes barulhentos busco apoio também na leitura labial.
    Joana aprendeu sozinha a fazer leitura labial, pra ela uma brincadeira em alguns momentos, e que nos mantém conectadas, com diálogos e muita comunicação até nos momentos sem IC.

  4. Conheço um professor universitário, entre outras atividades que ele tem, é pós doutorado, que é surdo bilateral pela mesma síndrome do meu filho. Ele conta em seu livro o pq aprendeu a utilizar a leitura labial e o que sua mãe, professora de surdos, fez pra que ele não ficasse só com as libras. Ele tem um português perfeito, além de inglês e francês, se não me engano. Incrível como fala bem em todos os sentidos …e toca piano! E não pode usar nem ic nem baha devido ao tipo de má formações que a síndrome causou. Se chama Armando Nembri e o livro ” Ouvindo o silêncio” é excepcional! Lak Lobato, Mariana Candal, vale muito a leitura!

  5. Escutei “normal” até janeiro desse ano. Não sei falar nem bom dia em libras, e sinceramente não vou aprender pra agradar ninguém. Eu não sou obrigada a me enquadrar em um perfil só pq os outros querem! Acho ridículo esse papo que a gente TEM QUE aprender libras. O Brasil inteiro é fluente em libras? Não! Então pq querem me obrigar só pq perdi a audição? Eu simplesmente ignoro a criatura e me afasto. Pq se eu for falar o que eu penso e quero pra ela, capaz de eu ir presa.

  6. Raquel Basilio Ribeiro disse:

    Lak, toda vez que acesso seu blog é impossível sair sem ler nem que seja um post.

    Hoje, li este.

    Obrigada por estar sempre ampliando nossa visão com relação a surdez.

    A maioria dos ouvintes, assim como eu, ocupa um lugar que foi mencionado por Oliver Sacks: “SOMOS NOTAVELMENTE IGNORANTES a respeito da surdez (…)” .

    Grande abraço.

  7. Aninha Cruz Aninha Cruz disse:

    Eu observo que a fala e de quem n usa implante n e surdo e geralmente quem n passa pela situação n sabe nada a respeito país de crianças pequenas geralmente sabem muitas coisas por conviver com elas no aprendizado eu perdi a audição adulta e nem a família sabe metade da realidade de estar com surdo como eu e da realidade do ic q sou implantada e nem médicos nem fonos q são estudados tbm ouvi da fono que ñ tem diferença em ic bilateral q sou uni quero fazer bi n altera nada ou pouquíssimo já depoimentos dos bi implantados tem um resultado significante acho q ninguém que ñ viva a realidade do outro sabe o que se passa isso pra tudo vc informa q e surdo q usa prótese o comportamento do outro n muda

  8. Meu filho tem nove anos, implantado a seis, unilateral e quando fica sem IC o único recurso que nos resta é a leitura labial, funciona muito bem aqui em casa, e nunca o ensinamos, desenvolveu naturalmente!!! Graças a Deus ele faz isso Pq imagina como seria quando ele ficasse sem implante, até porque ele não sabe libras.

  9. rodrigo dias martins disse:

    Antes de usar IC só me comunicava por leitura labial, até pq perdi a audição já adulto e aprender libras não estava nos meu planos devido a aceitação psicológica do fato de saber que não iria poder ouvir mais como ouvia antes. agora com ic uso leitura labial mas bem pouca msm. qlq coisa escreve em bilhetinhos. não é todo “ouvinte” que sabe libras, mas é por certo que todo “ouvinte” sabe ler e escrever. rsrsrs

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