Desculpe, não sou antipática. Sou surda…

Tempos atrás, ouvi uma pessoa me dizer que eu sou muito antipática, porque raramente converso com as outras pessoas do dia a dia.

Admito que sou muito preguiçosa para jogar conversa fora, falar do tempo ou ficar falando do que fiz na sala de espera do médico.  Em tempos de internet no celular, aí é que eu não perco tempo com isso mesmo, porque acho muito mais divertido fazer coisas comigo mesma.

Fiquei com essa coisa na cabeça por um longo tempo, até que cheguei a seguinte conclusão…

Verdade que eu não tenho muita paciência com conversinhas. Sou uma pessoa chata mesmo. Gosto de conversas complexas, que me fazem pensar, que me levam à reflexões, que viram debates acalorados. Ficar falando de família, de trânsito, de detalhes que ouviu do médico, nada disso me interessa. Mas, independente disso tudo – até porque se for necessário, eu consigo fazer isso sim, mesmo não gostando – depois de muito pensar, conclui uma coisa que as pessoas geralmente esquecem: eu sou surda.

Perdi a audição no auge dos meus 9 anos de idade. Quando estava começando a ter conversas mais “adultas”. Ou melhor, com adultos, porque é no começo da adolescência que os adultos começam a conversar com a gente. E eu era uma criança que conquistava todos os adultos, que era inteligente e comunicativa. Minha infância toda, das lembranças que tenho, foram marcadas por idas ao cinema com amigos dos meus pais ou ser levada para dormir na casa das pessoas adultas que tinham filhos, porque elas gostavam da minha companhia e queriam que os filhos me conhecessem. E, de repente, eu perdi a audição.

Vamos conversar sobre o que significa não ter audição: não ter comunicação bem estabelecida. Não é tão simples conversar com um surdo, mesmo oralizado. Tem regras que precisam ser cumpridas à risca: Fale mais devagar, sempre de frente pra ele, sempre sem cobrir os lábios. E repita sempre que necessário. Inclusive, se pedirem, mais de uma vez. Essa pessoa não vai falar no telefone. Essa pessoa não vai ouvir quando você bate na porta do banheiro. Essa pessoa não vai ouvir quando você chamar do quarto. Agora, acrescente isso numa criança que não é sua filha. Você levaria ela ao cinema ou pra casa? Então, aquela criança que sempre era convidada para tudo, de repente, já não era convidada para nada.

Além disso, chegar num lugar sendo surdo também não é o melhor cartão de visitas. A maioria das pessoas não quer jogar conversa fora conosco. Fala estritamente o necessário. Se possível, com a pessoa do lado e não conosco. Elas não fazem por mal, elas tem MEDO. Medo de não serem entendidas. Medo de não entenderem a resposta. Resultado, a conversa não é a corriqueira usual. É uma conversa mais rápida, onde visivelmente a pessoa está tensa e transborda essa tensão na forma de se comunicar.

Agora soma isso ao desconforto visível no rosto dela quando você se aproxima. Porque a voz pode ser controlada para dizer o que você quer. Mas a sua expressão, nem sempre. E é sempre uma expressão de “Não se aproxime, vá embora”.

Imagina se tratado assim por anos? Imagine se isso não vai tolher a sua forma de se expressar. Imagina se você não vai se sentir desconfortável toda vez que se aproxima de alguém para conversar. Imagina se você não vai se sentir mais confortável no seu cantinho, fazendo suas coisas?

A maioria das pessoas não tem boa vontade para repetir 10 vezes a mesma coisa. Elas não tem boa vontade de articular melhor ou falar mais devagar quando a gente pede. Elas não tem boa vontade de ficar repetindo o que está sendo conversado numa conversa de grupo. E a gente vai sendo deixado de lado, vai se acostumando a não se importar quando dizem “Ah, esquece.” o tempo todo. A gente vai querendo se comunicar menos e deixar para perguntar apenas o necessário, para falar apenas o que realmente é imprescindível.

Pois é, eu passei – e tenho certeza que muitos outros surdos oralizados passaram pelo mesmo (espero que a minoria) – a vida sendo tratada assim.

Hoje, quatro anos depois que a minha comunicação deixou de ser à base da leitura labial, depois que minha voz voltou a ser perfeitamente compreensível, eu ainda vejo a expressão de “não se aproxime” na maioria das pessoas. Talvez, na maioria das vezes ela nem esteja lá – porque hoje em dia muita gente nem nota que sou surda – mas ainda é a expressão que eu passei mais de 20 anos vendo e que, pra mim, é a natural das pessoas.

Talvez por isso, eu tenha tanta dificuldade de me aproximar das pessoas. Talvez por isso que eu seja tão reservada. Talvez por isso, eu prefira o meu cantinho. Talvez por isso eu não goste de festas, nem de muita gente ao mesmo tempo. Hoje em dia, talvez a surdez não seja um problema real, mas os calos que ela causou ainda estão ali.

São raras as pessoas de quem eu me aproximo. Porque foram raras as pessoas que não tivessem se deixado intimidar pela surdez naqueles 25 anos de surdez. E são elas pra quem eu devoto meu tempo e meu carinho. Até porque hoje em dia, tem muito mais gente que insiste e que não se deixa recuar pelo meu jeito distante.

Então, em vez de chamar um surdo oralizado de antipático, tente enxergar que ali existe uma pessoa com deficiência. Deficiência que afeta a interação social e por isso, deu origem a uma pessoa introspectiva e reservada. Ninguém sai de uma experiência como adquirir uma deficiência de forma ilesa. Ela sempre afeta algo da personalidade e dos hábitos. Para os surdos adquiridos, geralmente, ela faz a pessoa se tornar menos comunicativa.

O mesmo vale para gente que vai se tornando quieta de uma hora para a outra. Pode ser que ela esteja perdendo a audição e não queira dizer, porque tem medo da rejeição. Nessas horas, que é importante procurar uma ajuda profissional, em vez de ficar julgando a pessoa. Um médico e uma fono para detectar e tratar a perda auditiva. Um psicólogo para tratar a perda emocional da segurança na comunicação.  A rejeição que elas tanto temem é real e realmente deixa marcas na alma! Nem toda pessoa antipática é surda e nem toda pessoa surda se torna introspectiva. Mas, certamente, as coisas podem sim estar intimamente ligadas.

Beijinhos sonoros,

Lak

20 palpites

  1. Lak é isso mesmo pois quantas pessoas me achavam antipática mas na época do uso de AASI. Agora com o IC eu sou mais extrovertida, acho mais confiante.

  2. Pois é. Alguns tbm me acharam antipática mas sou surda!!

  3. Magda Ap. Vagli Zobra disse:

    Pois Lak tímida eu sempre fui…e o fato de perder a audição já adulta me fez ficar mais ainda. Principalmente com quem não conheço mesmo o meu implante sendo um sucesso …sou assim e ponto…Mas o que me deixa triste nisso tudo é o foto de alguns familiares não me entenderem e até me criticarem… ainda bem que são pessoas que não tenho muita convivência. Mas vivendo e aprendendo sempre com as diferenças….bjs

    • Lak Lobato disse:

      Você é uma linda… Mas, infelizmente, nem sempre família (nem família, o que é pior) consegue ter empatia. Terrível, ne? Mas, fazer o que? Beijinhos sonoros

  4. Daniela Dias Daniela Dias disse:

    Como te compreendo fofinha ❤️

  5. Nicola Pacheco disse:

    Lak,adorei o texto é bem por ai mesmo,mesmo tendo perdido a audição subitamente aos 56 anos e ser oralizado sinto isto com algumas pessoas, porem sou falador não suporto muito longos períodos de silêncio sou capaz até de falar com cartazes e manequins rsrs, te acho autêntica ñ fica dourando a pílula quando ñ é necessário, sou seu admirador ,bjs

    • Lak Lobato disse:

      Graças a Deus, Nicola, não deu tempo de te calejar. Vantagem de ter o IC tão acessível logo que perdeu a audição. Um brinde à essa tecnologia maravilhosa! Beijinhos sonoros

  6. Fatima disse:

    É uma verdade que vivenciei tambem desde os meus 10 anos, nao do mesmo modo, porque cada um tem um temperamento diferente Tambem fui considerada antipatica p pessoas q sabiam e q nao sabiam Tambem me.isolei, mas nunca deixei de gostar e participar de festas de me divertir,Estou em todas, nao deixo de curtir.a vida por nao ter sempre companhia Melhor só que mal.acomoanhada Amo vive

    • Lak Lobato disse:

      Diversão não se resume a festas, felizmente hahaha curtir a vida sempre dá, né? Mas, o importante é que a gente não deixa de viver, só não faz o mesmo que todo mundo. Beijinhos sonoros.

  7. Isso gera a fobia social! Eu tenho, faço tratamento, mas demora pra curar 😔

  8. CINTHIA disse:

    Empatia total. Tenho até a impressão que você tirou as palavras da minha boca, rss…exceto que diferente de você, ainda me apoio na leitura labial. A reclusão social, no meu caso acaba sendo pior por nem sempre tomar a iniciativa de construir a ponte, iniciar a conversa. Porque a obrigação deve ser sempre minha? Devo sempre bancar a corajosa? Não basta os perrengues sociais que precisamos ter jogo de cintura para vencer diariamente?
    Sou um “grilo falante” entre amigos, familiares ou quando o papo é interessante, mas me reservo também a liberdade e o direito de ficar quietinha em meu canto quando a situação social é complicada ou não me interessa.
    Admito e constato hoje que talvez minha introspecção social seja em boa parte em razão da surdez, mais do que uma condição natural.

    • Lak Lobato disse:

      Também acho que independe da nossa natureza. A surdez acaba sendo o alicerce de tudo, porque somos julgados por ela e não pela nossa personalidade. Fazer o que? Beijinhos sonoros

  9. Gostei muito desse post. Uma realidade de uma grande parcela dos surdos. Eu vivo isso diariamente, mesmo com o IC, 31 anos de silêncio e sons incompreensíveis, sempre apoiado pela LOF, isso acaba te transformando, fazendo parte de você, se tornando uma das características suas, a pessoa vira por definição uma pessoa reclusa, tímida, isolada, antipática…
    Ao moldar meu comportamento, minhas atitudes, mesmo depois do IC ainda é difícil eu me relacionar abertamente com todos, me esforço sempre, mas depois de um tempo me isolo naturalmente.
    Esse post veio a calhar bem no momento em que eu estava refletindo sobre isso na empresa em que trabalho.
    Peço sua permissão para utilizar trechos de seu blog, claro que citando a autoria, no meu trabalho para conscientizar as pessoas.
    Um grande abraço Lak! Saudades de papear contigo.

    • Lak Lobato disse:

      Lobo, o IC permite que a gente ouça, mas não apaga nosso histórico de vida. E tampouco muda nosso comportamento de uma hora pra outra. Até porque, em determinados momentos, ele não quebra todas as barreiras de comunicação (num ambiente ruidodo, por exemplo). No fundo, a gente vai ter resquícios desses anos de surdez. E quanto mais tempo tiver sido, mais difícil é apagar o comportamento que esse tempo gerou.
      Fique a vontade para utilizar os trechos. Espero que ajude! Beijinhos sonoros e saudade tb

  10. É exatamente isso Lak, a gente ouve, mas não apaga nosso passado e nossas transformações. Porém podemos mudar o comportamento em um prazo maior. Só acho que é algo complicado para mim.
    É como você falou mesmo, quanto mais tempo de surdez, mais difícil é apagar o comportamento gerado.
    Obrigado.

    • Lak Lobato disse:

      Também acho complicado conseguir mudar todos os meus comportamentos adquiridos pela surdez. 25 anos é uma vida. No meu caso mais de 65% dela. É muito tempo de construção de comportamento para ser mudado de uma hora para outra do nada. Como tempo, talvez mude. Ou não… Beijinhos

  11. Cleusa Rejane disse:

    Oi, estou aqui com lágrimas nos olhos e um nó na garganta porque você descreveu como me sinto muitas vezes… tenho 46 anos e por causa de otite crônica nos dois ouvidos fui perdendo a audição desde pequena. nunc ouvi direito, mas fazia que ouvia pra ninguèm descobrir… estou me formando em Direito, uma conquista pra mim, chegar à conclusão de um curso superior, sou um pouco mais falante agora, mas já teve um tempo que eu fazia de conta que ouvia e respondia uhum… pra tudo hehehe. uso aparelho auditivo em apenas um ouvido, pois no outro perdi toda audição. queria ter um blog como voc~e pra poder escrever minhas histórias e percepções da vida, como se faz isso? preciso descobrir…. kkk abraço e como você diz, beijinhos sonoros!

    • Lak Lobato disse:

      Os detalhes são diferentes, mas as histórias são parecidas. Deficiência auditiva faz isso.. Na torcida para você ir além do que jamais sonharia. Beijinhos sonoros

  12. Joana disse:

    E verdade. realmente as pessoal nos excluem, o dizer não e nada, deixa pra lá, e muito irritante. No meu caso perdi a audição há dez meses, acordei ouvindo e fui dormir surda. Estou fazendo exames para o implante. Estou deficiente auditiva, e muitos me deixam de lado.