Direito à diversidade!

Já me perguntaram várias vezes porque não falo sobre a Língua de Sinais aqui no DNO. E sempre explico que sinto necessidade de quebrar o estereótipo de que deficiência auditiva é sinônimo de lingua de sinais. Mas, muita gente insiste que isso se dá porque sou surda pós-lingual (ou seja, que perdi a audição depois de adquirir a linguagem oral), mas não é verdade, existem famílias que preferem oralizar a criança nascida surda com ajuda de fonoaudiólogas, próteses auditivas e, atualmente, implantes cocleares.

Há quem diga que isso vai contra a natureza da criança, mas eu discordo. Faz parte da natureza humana ouvir e se tem quem prefira insistir que mesmo uma criança com deficiência auditiva possa usar a audição residual que tem para ouvir, aprender a falar oralmente independemente do sotaque, ou implantar a criança esse direito deve ser tão respeitado quanto aqueles que optam tão somente pela lingua de sinais.

O problema é que, sem essa informação, muita gente cai no estereótipo de que todo deficiente auditivo fala Libras sim – esquecendo que é um idioma que precisa ser aprendido como qualquer outro – e tenta impor interprete de Líbras até para quem não o fala bem. Eu mesma já tive que explicar que leio lábios e falo somente português e isso é chato. Acho tão desrespeitoso me impor um idioma que eu não domino quanto tentar forçar um surdo sinalizado a falar.

Claro que tem quem ache que é exagero da minha parte e todo mundo respeita que haja surdos oralizados e deficientes auditivos que falam português e jamais imporiam Libras a nós.

Não é bem assim. Segue abaixo o depoimento de uma menina surda oralizada que sofreu com essa estereotipação e se sentiu desrespeitada por não aceitarem que ela poderia estudar somente com a leitura labial.

Olá, meu nome é Marcela

Sou surda bilateral severa desde que nasci e oralizada. Tenho 26 anos, e sou Pedagoga.

Tenho a sorte de ter pais que procuraram os melhores tratamentos que possam facilitar minha comunicação, minha fala e minha escrita. Buscaram maneiras para que eu possa ter um crescimento saudável sem comprometimento no desenvolvimento e alfabetização, com isso adquiri independência.

Só fui aprender libras em 2004, num curso de férias. Utilizo somente pra conversar com surdos adeptos dessa língua na comunidade surda.

Tive uma educação como a de um ouvinte, estudei sempre em escolas comuns e nunca precisei de intérpretes, sendo que já estava muito bem adaptada, sendo oralizada e fazia leitura labial, uso aparelho auditivo desde os seis anos, o que facilitou muito a minha vida.

Inscrevi-me no vestibular, passei em 1º lugar, me graduei recentemente.

Nunca na minha vida no ensino fundamental e médio precisei de algum profissional que pudesse me auxiliar na escola como intérpretes, por exemplo.

Chegando aos primeiros dias de aula na faculdade, os  professores foram se familiarizando comigo, se impressionaram com minha capacidade de comunicação, oralização e a escrita e a convivência foi fluindo em harmonia.

Já estava estudando nessa faculdade havia 4 meses e um professor coordenador da instituição, mesmo sabendo que eu não era usuária de Libras, me informou que, por causa da lei que foi regulamentada, sobre a obrigatoriedade de um intérprete de libras nas universidades, contrataram um intéprete, eu disse com toda a educação que não precisava e NUNCA precisei, pois estava indo muito bem nas aulas, mas creio que não fui levada a sério. Só que eu, ingênua como era na época, achava que eles não iriam à fundo nesse assunto e deixei pra lá.

Infelizmente, um mês e meio depois, para minha surpresa, no meio de uma das minhas aulas, fui informada pela coordenadora do nosso curso, que minha intérprete contratada estava à minha disposição para me acompanhar em todas as aulas da faculdade. Confesso que fiquei chocada, fui logo obrigada a sentar nos fundos, o que odeio pois sempre sentei na primeira carteira a vida toda e no decorrer dessa aula, a intérprete foi repassando todo o conteúdo da matéria em Libras, mas eu só fiquei calada, com maior cara de paisagem e extremamente revoltada por dentro, mas só estava esperando a aula acabar, para logo conversar com os coordenadores e tentar contornar a situação alegando que houve um mal-entendido por partes deles, eu não imaginava que eles levariam isso adiante,  toda a sala me olhando como se eu estivesse sendo tratada como uma idiota, porque com 4 meses de convívio, todos sabiam que eu não precisaria e perceberam o quanto eu estava revoltada e me sentindo humilhada, pois toda a coordenação da minha faculdade sabia que eu NUNCA precisei de intérprete e NUNCA SOLICITEI uma. Eles ficaram chocados pela atitude da faculdade de agir daquela forma, ignorando o fato de que não precisava de acompanhamento nenhum.

Achei que fosse piada na realidade, de muito mal gosto, mas não, era o que estava acontecendo.

Depois da aula fui conversar com dois professores que contrataram a intérprete, e pedi que pudesse transferir ela pra alguém surdo sinalizado que realmente estivesse precisando dela, em outra faculdade na nossa cidade, mas não, eles alegaram que não podiam fazer mais nada, que ela já era contratada e que eu era OBRIGADA a aceitar.

Achei muita falta de respeito comigo por parte da faculdade, um tremendo descaso. Porque eles nunca procuraram conversar comigo. Tudo foi feito sem minha autorização, mesmo sabendo que eu não exigi e ainda neguei, eles levaram adiante, me ignorando.

Creio eu, que eles não acreditaram que uma estudante surda poderia acompanhar as aulas, mesmo sendo oralizada. Falta de informação é lamentável, acontece situações dessas que acaba sendo desagradáveis para ambas as partes. Acredito também que eles queriam dar uma imagem melhor da nossa Instituição sobre a inclusão de deficientes e outras coisas típicas dessa equipe de coordenação, tanto que chamaram um jornal local da minha cidade comunicando a “conquista”. Sabe o que foi pior? Eles disseram que eu estava sendo muito ignorante, que eu tinha que aceitar minha “identidade surda” usando a Libras no meu dia-a-dia!  Quase não acreditei que eles realmente tinham dito isso!

Eu percebi que não adiantaria mais nada tentar alguma coisa com ele através do diálogo, porque isso não era o forte deles, é você aceitar o que eles impõe pra você e pronto. Eu era boba e ingênua, então resolvi deixar de discutir com eles, não levaria a nada. Conversar com um bando de ignorantes não adianta, tive que pensar e tentar resolver a situação do meu jeito, pois não poderiam mandá-la embora, a intérprete era concursada.

Todo o pessoal da minha sala sabia que a atitude da coordenação da nossa faculdade foi muito equivocada, não concordaram com essa contratação e sabiam que eu me sentia ofendida pela faculdade em me obrigar a conviver com uma intérprete, minha colegas de classe e alguns professores conversaram com a coordenação, mas eles não quiseram fazer nada a respeito. O que eu podia fazer? Conversei com essa intérprete, ela percebeu o erro da faculdade e chegamos a um acordo: Ela ficaria no meu lado na sala de aula, mas somente auxiliando em alguns casos como por exemplo, algum professor se esquecer e fazer a aula de costas pra mim, dificultando a leitura labial, ela foi bem compreensiva comigo, aliás até uma profissional da educação exemplar, pois era pedagoga também, mas especializada em educação de surdos. Ficamos juntas durante três anos, no ano seguinte ela foi contratada pra ser professora da nossa faculdade.

Olha, não me lembro de sofrer preconceito, se sofri algum, não me afetou, isso até na faculdade, nunca me senti tão ofendida na minha vida, e sendo logo numa Universidade? Foi demais pra mim, foi a situação mais desagradável na minha vida, a pior dela, posso dizer.

A minha faculdade tem ótimos professores mestres e doutores, mas a equipe de coordenação era ineficiente, ignorante e incompetente. Não soube e até hoje não sabe lidar com várias questões na nossa faculdade em variados assuntos, o que é triste. Mas graças a Deus, já me formei e acabei de ser chamada no concurso público municipal no qual fui aprovada, para trabalhar como Pedagoga Coordenadora de uma escola. Foi uma fase triste naquele momento na faculdade, mas agora tudo passou, creio que não ocorrerá mais, porque de todos os surdos da minha cidade, somente eu, meu irmão e mais uns 4 colegas são surdos oralizados como eu, outros são adeptos de libras, com eles não terá esse problema, mas comigo, foi uma situação embaraçosa que não desejo a ninguém.

Para um oralizado, sentar longe do professor é péssimo, porque a boa leitura labial depende de proximidade com o interlocutor. Sinto afliação de pensar que poderia ter passado por essa situação.

Respeito é um direito de todos, de acordo com as particularidades de cada um. Se existe espaço para a Libras, existe espaço suficiente para os oralizados também. Portanto estereotipação não!

Beijinhos sonoros,

Lak

16 palpites

  1. “Respeito é um direito de todos, de acordo com as particularidades de cada um. Se existe espaço para a Libras, existe espaço suficiente para os oralizados também. Portanto estereotipação não!”

    Perfeito! 🙂

    Não me agrada nem um pouco o radicalismo e nem o tratamento igual para todos os surdos. Lamentável!

    Lak, hoje de manhã no Jornal Hoje teve uma matéria sobre uma resolução da ANS que os planos de saúde não são mais mais obrigados cobrir implantes em deficientes entre 6 e 18 anos. Para as outras faixas etárias, os planos só precisam pagar pelo implante de um ouvido.

    Queria que você desse sua opinião a respeito já que é implantada.
    Você pode dar sua opinião lá no Blog?
    Beijos

    • laklobato disse:

      Derei sim. Essa informação não tem nenhum embasamento médico, é exclusivamente pautada em valor financeiro. O IC bilateral é indicado em diversos casos e serve para crianças de 6 a 18 anos SIM. Um absurdo essa resolução. Espero que voltem atras nessa mudança de resolução.
      Beijocas

  2. Gabi VA disse:

    Verdade Marcela, complicadíssima essa situação, eu já passei por isso, e ainda passo num instituição aqui do meu Estado, foi esse tipo de situação que me levou a fazer meu Blog, a primeira postagem foi a respeito disso, pq eu não sabia Libras e frequentava as reuniões se surdos e mudos, duas vezes ao ano, e era o suficiente para aquelas pessoas toda hora me obrigando a aprender Libras, isso foi aumentando a minha frustração e como não era um direito meu ir lá reclamar pq eu não era parte daquela instituição, então a unica coisa que fiz pra expressar minha irritação foi fazer o Blog e explicar a importância de termos nossos direito como surdos oraliazdos que até hoje não é respeitado, e disse pra minha mãe que não iria mais participar nas reuniões pq sempre saia de lá humilhada e constrangida pelos surdos sinalizados e pelas pessoas que trabalhavam lá, até hoje é difícil pra mim, pq parece q sou a unica surda oralizada do meu Estado, fico uma coisa difícil de defender sozinha e tenho minha família do meu lado, e prometi q meu Blog ia ser humorado para não deixar essa frustração me dominar. Marcela parabéns pela sua luta, nunca devemos desistir, temos que mostrar nosso direito! Vo falar no Blog sobre esse Post da DNO e de você pra mostrar que eu não sou a única!

  3. zuleid disse:

    Olá!
    Lamentável esta situação! Veja que houve um gasto desnecessário, um mau aproveitamento da habilidade da intérprete que poderia ter ajudado quem realmente precisasse dela, e um desgaste na vida da Marcela além do desrespeito total! E se pensarmos que isto ocorre em uma faculdade de psicologia é MUITO MAIS GRAVE!!! Estas pessoas estão formando profissionais de educação, profissionais que iram lidar com alunos com diversos perfis de necessidades. Em que parâmetros vão se basear??
    Recentemente uma amiga que tem Dislexia sofreu constrangimento por ter seu direito à provas especiais negado, e isso é fundamental para os disléxicos uma vez que seu processamento cognitivo se dá de uma forma diversa do habitual! Isto em uma faculdade de Psicologia!!
    Acho que nosso Sistema Educacional está precisando ser revisto!
    Beijos!

  4. ana clara disse:

    nossa Lak, confesso q sou uma def auditiva de outro planeta! 😮 sinceramente antes de conhecer seu blog não tinha noção das proporções q o preconceito e a falta de informaçao pode tomar, atrapalhando a vida de gente q simplesmente não pede nada além de respeito com a sua diferença! E eu achando q tinh sofrido preconceito e desinformação na época da escola! bju

  5. SôRamires disse:

    Estou chocada! Como é possível tanta ignorância e prepotência?
    Em algumas ocasiões tentaram conversar comigo em libras mesmo eu
    respondendo em português. Quando digo que não sei libras a resposta invariável é: mas precisa aprender.
    Aprender prá que? Não conheço ninguém que usa libras.

    Numa feira sobre equipamentos para deficientes em Sampa alguns intérpretes até ficaram irritados quando viam meus aparelhos auditivos e vinham tão simpáticos e sorridentes sinalizar.
    Acho que muitos intérpretes ficam irritados com os surdinhos rebeldes como a gente. É como se estivéssemos roubando o emprego deles.
    Eu me limitava a mostrar minha camiseta onde estampei SULP Surdos Usuários da Língua Portuguesa e a repetir: eu falo e entendo português!
    Basta ver a publicidade que fazem dos cursos de libras, é um mercado e tanto mas me digam se eu e meus aparelhinhos nos viramos tão bem para que vou querer andar com intéprete a tiracolo?
    E eu sempre sentei na primeira fila porque com meus aparelhinhos e meus olhinhos dava para seguir as aulas muito bem.

    • laklobato disse:

      O que pega é confundirem direito à Libras por obrigação a Libras.
      A Libras não tem nada a ver com o português, então não basta que a gente aprenda os sinais, tem que aprender toda a sintaxe. E, pra quem sempre usou português, nunca vai ser como um idioma materno.
      Se querem tanto respeito à diversidade, respeitem a nossa. Da mesma forma que não querem obrigar sinalizados a falar, pq não respeitam que oralizados não querem falar Libras?
      Um absurdo e um desrespeito completo!

  6. Sandra disse:

    Estou chocada com o relato da Marcela. Não podia imaginar que os surdos oralizados sofressem tanto preconceito. E o que mais me deixa indignada e perceber que falar a língua portuguesa num pais onde a língua mãe e justamente essa, parece ser coisa de outro planeta.
    Vamos ensinar as pessoas a respeitar as diferenças!!! 😉

    • laklobato disse:

      Pois é, mas você sabe que acabar com estereótipos é dificílimo, ainda mais quando um grupo fica fazendo uma barulheira dando a entender que isso serve pra todos daquele grupo. Quem quer simplesmente continuar vivendo como sempre viveu, integrado à sociedade sendo diferente, paga o pato, sacumé…
      Beijos

  7. SôRamires disse:

    O que pega é confundirem direito à libras com obrigatoriedade de libras.

    E uma coisa que notei acabamos até por imitação escrevendo libras com maiúscula e português com minúscula. Agora me policio para escrever com minúscula como escrevemos o nome de qualquer outra língua. 😛 😛 😛

  8. Marcela Cordeiro disse:

    Oi Lak!
    Foi um prazer dar meu depoimento para o seu blog.

    Realmente a situação foi feia, mas olho pra tras e vejo que passei por tudo isso e ainda estou aqui, firme e forte com a minha opção de comunicação, que é a oralização, nada contra libras e sim contra a situação lamentável de tentarem me obrigar a ser algo que eu não sou, se eu tivesse cedido e me obrigado a viver de libras que a minha faculdade tentou me impor, acho que seria uma pessoa estremamente frustrada na vida acadêmica e não concluiria a faculdade, certeza que eu até desistiria, porque me chateio fácil com essas situações desagradáveis de falta de respeito, mas graças a Deus cheguei até o final. Nesse final, consegui mostrar à eles que cada caso de surdez é um caso diferente, nem todos somos iguais, temos de ter nossos direitos respeitados e principalmente: o direito à diversidade!
    Bjos! 😉