Ditados acústicos

Um dos meus maiores pesadelos da vida escolar, antes e depois de perder a audição, era aquele tal de DITADO. Antes, porque eu não sabia ler. Parece estranho falar isso, eu sei, mas é até ser obrigada a ler por conta da falta de audição, eu só lia qualquer coisa que fosse, por obrigação e de má vontade. E, sem o hábito de leitura, fica difícil escrever bem. Então, eu odiava ditado, porque sempre errava muito.
Depois de surda, de aprender a ler (na marra), criar gosto pela coisa, comecei a ter facilidade com gramática. Mas, embora eu consiga repetir com uma boa facilidade o que dizem, por leitura labial, se eu tiver que escrever também, cria um tipo de bloqueio e eu não consigo lembrar do que disseram.
Comentei disso com a Aline, minha fonoaudióloga e ela comentou que faria parte do tratamento fazer alguns ditados – inclusive, para quebrar o bloqueio.
Bom, mas achei que não era nada pra agora, iria levar mil anos, quando eu já estivesse com bom QA (quociente  auditivo <- não sei se o termo existe, tá?) . Só que, chego lá hoje e ela me olha já avisando: Hoje vou sentar do lado da sua orelha implantada e te fazer um ditado, ok?
Só pensei: “Ai…”
Mas, ela fez um aquecimento – sempre faz, ela fala devagar e  pronunciando prolongadamente várias sílabas – e começamos o ditado. Como eu tenho dificuldade de compreensão sonora, meu Ditado não era como o de vocês, ouvintes inteligentes. Era um ditado que, na folha, tinha também o desenho da palavra que ela diria, num contexto fechado de possibilidades audíveis.
No começo, por causa do bloqueio, tive uma certa dificuldade de reconhecer o som. Mas depois, o medo foi desaparecendo – a vantagem da terapia é essa, é um ambiente seguro, controlado e que o paciente se sente confortável diante dos desafios, que acabam servindo de ótima base para enfrentar o mundo real – e, no final, ela ja estava falando sequencias aleatórias de 3 palavras.
O legal foi perceber a evolução. Antes, quanto mais devagar fosse a pronuncia das sílabas, mais fácil ficava para eu ouvir. Agora, é exato oposto. Se ela falava na velocidade normal, eu entendia bem. Se ela falava pausando entre as sílabas, eu ficava meio confusa e dependia da repetição.
Eu ainda sinto dificuldade de discriminar plenamente o que ouço. Mas, percebo que confio cada vez mais no sentido auditivo. E, pra mim, isso é um passo enorme. É bom saber que posso confiar na “minha própria” capacidade auditiva! Ouvir é muito bom!

Beijinhos sonoros e ótimo final de semana,

Lak

16 palpites

  1. SôRamires disse:

    Lak é tão bom ver que sua adaptação está indo bem, que de fato o implante é uma solução para muita gente. É uma alegria mesmo e em breve terei o prazer e acompanhar o processo de implantação de outro amigo querido, o professor D.
    Ao mesmo tempo participo de um grupo de gente com otosclerose, cuja cirurgia é a colocação de um “estribo” novo. Com dificuldades diferentes e cirurgia diferente mas iguais esperança de ouvir.

    • laklobato disse:

      É, o Draj foi até convidado pra fazer relato aqui no DNO.. hihihi fiquei feliz por ele…
      Bom, espero que haja solução pra todos os casos de surdez, viu? Beijos

  2. zuleid disse:

    Isso mesmo! Confie cada vez mais em você e em suas capacidades! E nós cada vez mais encantados com seus progressos! Bom fim de semana!!!
    Beijos! 😀 😛 😉

    • laklobato disse:

      E eu nem contei que fiquei discutindo mentalmente comigo uma hora. Tinha um gatinho pintado que eu achei que era um tigre. Ela dizia “onça”. Primeiro, eu tentei associar com outra figura, não deu. Depois, ouvi “onça” mas não conseguia assimilar a palavra a significado nenhum, como se fosse um som sem sentido. Finalmente, caiu a ficha que meu tigre era uma onça. Foi relativamente rapido (não deve ter durado nem 15 segundos até chegar no resultado, mas pra mim, pareceu milênios) mas deu tempo de rejeitar, duvidar e, finalmente, reconhecer haha.
      Beijos

  3. zuleid disse:

    Exatamente! Você “pôs na boca, sentiu o gosto, mastigou, engoliu e digeriu”!! Ciclo completo!
    Eu estava na Alemanha e ouvi a enfermeira dizer prá minha nora
    SCHWANGER que é grávida, mas eu não conhecia esta palavra e a “mais próxima” em som que eu já ouvira era SCHWESTER que é cunhada, a escrita é diferente mas o som é “parecido”. Na mesma hora eu perguntei: o que ela está perguntando de sua cunhada? 😳 Risada geral né!!!
    Acho que o processamento é o mesmo quando ouvimos palavras estrangeiras que não conhecemos!

    • laklobato disse:

      Mais ou menos, Zu. Eu ainda dependo de repetições pra confirmar o que ouvi…Ela realmente falou a palavra ONÇA 3 vezes, pra, só na terceira vez, eu assimilar à figura… É um pouco mais complexo que meramente aprender outro idioma. No meu caso, requer criar uma conexão cerebral pra que a voz tenha significado e ai, aprender idioma. hehehe
      Beijos

  4. Eliane Lobato disse:

    delicia esse seu “ouvir é muito bom”
    e, melhor ainda esse voltar cada vez mais a confiar em vc.
    Adorei essas noticias.
    Mas que ditado é uma chatice é, uma chatice necessária mas, quando
    criança aiaiai ou quando estamos aprendendo outra lingua…
    Feliz pelos sapinhos estarem de volta eeee!!! 😮 😉 🙂

  5. Alexandre disse:

    Eu também tenho problemas com ditados e concordo que é muito chato ter que ouvir e escrever… Sempre me perco…

  6. Rogerio disse:

    Taí uma afinidade entre nós (temos poucas, né?): ditado para mim sempre foi um agonizante desafio. Tanto no período de alfabetização quanto no curso de música, que tem uma matéria chamada ‘percepção musical’, em que é tocada uma frase musical e os alunos devem escrever a partitura (chamam isso de ditado também e, na prática, é). Um saco. Não é propriamente por desconhecer a matéria, meu problema é preguiça e espírito imediatista; eu já queria sair escrevendo e tocando um instrumento. Ainda bem que você é bem mais disciplinada do que eu. Delícia receber notícias de seus progressos.
    Um grande beijo.

  7. Rogerio disse:

    Por necessidade e devido à prática já de anos, consigo ler uma partitura com facilidade. Para escrever já é um pouco mais complicado, mas com perseverança e deixando a preguiça de lado também é possível. Para registrar músicas instrumentais no Conselho de Direito Autoral tenho que apresentar cópia da partitura, então o jeito é ir à luta. Mas não consigo identificar uma nota ao ouví-la, como minha professora faz e me mata de inveja. Mas, como disse, é uma consequência da minha falta de aplicação no ditado.

  8. paola disse:

    adoro a tua força de vontade!!!!
    a tua determinação e a tua disciplina também, nada vem de graça.
    um abraço!