ENEM 2017: Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil

A escolha do tema da redação do ENEM, este ano foi, como sempre, polêmico. Teve quem adorou e quem odiou. O tema em si, eu achei péssimo: “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”.

Calma, antes de me jogar pedra, achei péssimo porque duvido que a maioria tenha qualquer coisa a dizer. Quantas pessoas, salvo nós que vivemos essa realidade, sabem sobre o assunto? Pensa no tanto de vezes que você já teve que explicar para um conhecido, um familiar, um colega de trabalho que não, a língua de sinais não é mímica nem português em forma de gestos. Que nem toda pessoa com deficiência auditiva fala LIBRAS fluentemente. Que existem surdos oralizados. Que surdos podem dirigir. Agora, imagina essas mesmas pessoas escrevendo sobre um assunto que ignoram totalmente?

Já é difícil para um jornalista, que teria que fazer uma pesquisa prévia para escrever um texto sem ter um monte de abobrinhas (raramente vejo uma matéria jornalística não ter coisas que a gente fica louco para corrigir). Imagina os estudantes escrevendo sem poder fazer nenhuma pesquisa?

Ou seja, eu achei o tema difícil demais para a população leiga, pareceu ter sido escolhido apenas para uma parcela da população mais instruída.

Agora, deixando de lado as dificuldades dos estudantes, eu acho importante sim a abordagem dessa questão, numa esfera massificada. Sim, é necessário abordar E MUITO o assunto surdez, educação, acessibilidade e inclusão. Só não sei se essa foi a melhor forma de trazer o assunto à pauta. Mas o importante: se funcionar, tudo bem!!

Precisamos sim falar sobre educação de surdos. Falar sobre a nossa existência muito ignorada pela sociedade. A começar que surdos precisam sim de educação adaptada à sua condição. Ter escolas especializadas em educação bilíngue acessível à população, não apenas escolas bilíngues particulares. E que essas escolas estejam preparadas para acolher toda a diversidade de surdos que existem: os que usam apenas LIBRAS, os que usam aparelhos auditivos e os que usam implantes ou que usem várias modalidades de comunicação. Que todas as crianças possam ser educadas no mesmo ambiente onde aprende-se LIBRAS e português escrito.

É preciso abordar também as escolas como o EPHETA, uma das pouquíssimas escolas do país com abordagem voltada para a oralização – quando for escolha da família – que está em risco de fechar. E que, em vez disso, deveria ser uma escola modelo de muitas outras escolas. Porque assim como as famílias que escolhem LIBRAS como principal forma de comunicação devem ter sua escolha respeitada, aquelas que preferem a educação oralista também deveriam ter escolas adaptadas para esse tipo de educação escolhida.

Também é importante que os alunos com deficiência auditiva encontrem um ambiente acolhedor na escola inclusiva. Que esteja preparada para receber um aluno com intérprete de LIBRAS e um aluno com tutor (quando oralizado). Ou um professor que não se incomode de usar tecnologias assistivas como o Sistema FM, Sistema Roger ou o Wireless. E que esses acessórios de acessibilidade sejam oferecidos pelo Estado. Ou até um aluno que faz leitura labial pura e simplesmente. Professores maravilhosos como eu tive, na minha época de estudante surda numa escola regular.

Que a educação seja oferecida de acordo com as possibilidades do aluno e não que seja o aluno que tenha que se adaptar ao que a escola “pode” oferecer.

Se o MEC acertou na escolha do tema? Para os estudantes leigos em sua maioria, certamente não. Mas para nós, que vivemos essa realidade todos os dias, o tema trouxe esperança de visibilidade, de discussão profícua, de representatividade e de alento de finalmente sermos abordados pela mídia.

Na torcida para ser um novo momento do debate da inclusão e acessibilidade para surdos! E que, dessa vez, junto com esse assunto, haja espaço para abordar também a diversidade da surdez! Sonhando tão alto possível!!

Beijinhos sonoros,

Lak

30 palpites

  1. Aline disse:

    Lak sua nota na redação foi 10 com louvor, palusos, fogos e purpurina

  2. Bela reflexão, Lak! Que venham as discussões para novas conquistas. Grande abraço!

  3. Olha, no início achei legal, pq poderia ser um modo do MEC enxergar a oralização como um modo de ensino para os surdos. Mas conforme os alunos vão saindo das provas e falam sobre, e as reportagens recheadas de opinião dos “intérpretes, professores, amantes” de libras aparecem, eu fico mais puta 🙂
    Tive que ler uma reportagem do OGlobo com uma professora falando que o português não é tão importante para o surdo, pois a língua materna de um surdo é libras. Olha… não sei nem mais o que falar, só sentir mesmo.

  4. Marilia Equi Marilia Equi disse:

    Concordo contigo, poucos estão preparados para um tema pouco midiático, porém de suma importância, como todos ostipos de inclusão. Bela reflexão!!

  5. Sara disse:

    Vocês querem uma redação sobre surdos no ENEM?

    Tinha algum tempo que eu não vinha aqui. Tinha prometido que dado o cansaço de um ambiente cheio de opiniões e mais que isso, CERTEZAS, era campo fértil para sentimentos que não quero alimentar, eu deixaria meio que morto o perfil. Isto não quer dizer que não os tenha alimentado no passado recente.

    Mas hoje, para minha incrível surpresa me deparo com o tema da redação ENEM: Educação para surdos.
    Confesso que minha espinha gelou. Minha memória me levou para alguns anos atrás. Um misto de sentimentos tomou conta de mim. Alguns, confesso, não foram bons.

    Poucos de minha lista de amigos capitaneada com o tempo e uma participação em programa de TV, sabem sobre a deficiência auditiva de minha irmã. Assim, poucos acabam sabendo também de sua história de superação. Não só sua, mas de toda a nossa família e educadores.

    Vocês querem uma redação sobre surdos no ENEM? Conversem com minha irmã. Colocada à margem do processo seletivo por uma limitação cognitiva clássica em não ouvintes. Menos pessoas ainda sabem que um surdo tem severas dificuldades de escrita, dado que a linguagem falada lhe é tolhida por questões às vezes genéticas ou por quaisquer motivos.

    Vocês querem uma redação sobre surdos no ENEM?
    Conversem com minha mãe e toda a sua jornada para garantir que a síndrome degenerativa de minha irmã não a alçasse de forma definitiva ao mundo dos não falantes. (sim minha irmã é uma surda oralizada, faz uso da leitura labial para se comunicar).

    Vocês querem uma redação sobre surdos no ENEM?
    Conversem com a tia Lila… que não mediu esforços junto ao corpo de professores da minha irmã para garantir a ela acesso à informação que é negada à grande maioria daqueles que como ela, não ouvem.

    Vocês querem uma redação sobre surdos no ENEM? Conversem com o INEP… aplicador da prova, que negou auxilio oralizado para a interpretação de texto da prova da minha irmã (outra grande dificuldade dos surdos), ofereceram um interprete de libras uma língua que tirando o A de AMOR da Xuxa, ngm sabe do que se trata. Ou ainda, o mesmo INEP que negou requerimento para que minha irmã tivesse sua prova de redação corrigida a luz de suas limitações. Isso em meados de 2010.

    Vocês querem uma redação sobre surdos no ENEM? Conversem com o poder judiciário que negou, exatos 4 QUATRO anos depois, o pedido de revisão da negativa do requerimento . A rápida justiça de nosso país se manifestou quando minha irmã já estava próxima de concluir a faculdade particular.

    Vocês querem uma redação sobre surdos no ENEM?
    Procurem a Universidade onde minha irmã estudou, procurem conhecer a teoria do “Microfone sobre a boca”. O microfone que permite a aula, mas impedia que ela fizesse leitura labial.

    Vocês querem uma redação sobre surdos no ENEM?
    Conversem com as parcelas da caixa que tem chegado mensalmente em casa para pagar as despesas de formação da minha irmã. Ngm chegou tão rápido em casa para ajudar como os boletos tem chegado.

    Vocês querem uma redação sobre surdos no ENEM?
    Ahhh Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira Que tema infeliz. Que tema triste. Que escolha de mau gosto.

    Vivemos em país onde as leis são criadas antes das bases para que elas possam ser aplicadas. Cria-se a obrigatoriedade de salas mistas – crianças sem e com limitação sendo educadas juntas. Mas nenhum professor recebe instrução para tal. Cria-se uma lei de inclusão de deficientes nas empresas, mas as universidades públicas, que há muito atendem interesse majoritariamente da classe dominante desse país, não educa seus filhos de papai para conviver com o diferente.

    Essa Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira É a minha redação não sobre “Educação de surdos”, é minha redação sobre “A hipocrisia só vence onde o silêncio dos justos impera”. Não me calei e jamais o farei. Que nota eu mereço?!

  6. Gente, nem os avaliadores estão preparados. O Brasil não trabalha a inclusão fora do papel. As pessoas só conseguem enxergar LIBRAS como a única opção para surdos porque não existem muitos trabalhos, pesquisas, divulgação de informações a respeito dos surdos que ouvem, e que são oralizados. Cabe a nós não desistirmos de divulgar a diversidade dentro da surdez. As pessoas só reproduzem o que elas ouvem, elas não se aprofundam, de fato. Pra mim, este tema é um tapa na cara de muita gente, pra despertarem com relação a esta parcela da população que se torna invisível. Agora, com a visão de uma professora, o tema não foi favorável a quase nenhum aluno por ser muito específico. Se gente que trabalha na área da educação já não sabe muito o que falar e o que fazer , imaginem os alunos.

  7. Achei otimo o tema vai causar um despertar sobre a questao. Torcendo por todos que tem alguma deficiencia auditiva ou pelo nenos na familia que possam desenvolver um bon texto.

  8. Eu mesma só vim a saber sobre a EPHETA através do DNO.

  9. Evelin disse:

    Os textos apresentados aos estudantes para apoio a redação não citam os surdos oralizados… Nossa luta por esta modalidade de inclusão ainda está só no começo… Muito difícil o debate com a educação neste aspecto.

  10. Disse tudo o que eu pensei hoje a tarde quando vi o tema Lak. Vou compartilhar. Parabéns, excelentes palavras. 👏👏👏

  11. Fiquei pensando na complexidade do tema para alunos do ensino médio na atual situação da educação, meu filho fez o ENEM, é de escola pública, e vejam, eu enquanto educadora me preocupei, pois, não é um assunto abordado com frequência. Ao voltar da prova conversamos sobre a redação, ele me contou que escreveu sobre a dificuldade da universidade em incluir, que a mesma não está preparada, que a sociedade ao contrário do que falam tem dificuldades, então pensando na fala dele percebi que não está tão alheio assim ,que foi difícil, mas ele tinha o que falar e sobre o que falar.

  12. Tatiana Kalil de Queiroz disse:

    Ao meu ver o MEC deu um tiro no pé. A prova de que a inclusão não funciona é que tanta gente não tinha nada pra falar. Claro, inclusão é utopia! Cadê as políticas de inclusão e acessibilidade do MEC? Sérião que o MEC pensa que inclusão é dar uma aulinha de Libras aqui e outra ali e fim??? Pra mim foi um atestado de incompetência, viu…

  13. Cristiane Paiva disse:

    Vc conseguiu descrever tdo o q senti! Parabéns! Trabalho com pacientes de deficiências múltiplas há 11 anos, e tenho uma sobrinha de 7 anos com deficiência auditiva, hj implantada. Não posso negar a emoção q senti de saber q finalmente vão se descutir sobre o assunto. Aqueles q ao menos conseguiram falar de “empatia” na redação se saíram bem. A luta é nossa! Gratidão por esse texto!🙏

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