Falando da Palestra “As Diferenças e Semelhanças entre Ouvir e Escutar” no SENAC (SP)

Descrição da palestra, a quem possa interessar.
Eu sabia que teria intérprete de LIBRAS e que, se eu fizesse um esforço, os ouvintes iriam conseguir me entender. Mas, o que pegava eram os surdos oralizados, porque não teria legenda em tempo real.
Pensando no grupo ao qual pertenço, preparei uma apresentação bem completa, assustadoramente completa, para que, caso não conseguissem ler lábios, pelo menos pudessem acompanhar pelo texto.
E, claro, ensaiei muito em casa, para poder falar bem na hora da palestra.
Admito que falar em público – ainda? – não é meu forte, mas precisava encarar essa, não dá pra ficar a vida inteira atrás de uma tela de computador, esperando que o mundo mude, enquanto fico sentada no sofá. É preciso dar a cara a tapa, se você quer ser a mudança que você quer ver no mundo (frase do Gandhi).
Chegamos mais cedo, para dar tempo de fazer umas últimas alterações na apresentação e rolar um ensaio em cima da hora… Tudo isso muito bem escoltada, digo acompanhada, do melhor marido que alguém poderia ter. Parceirão nessas horas, porque ele não poupa críticas construtivas até eu chegar nos trinques.
Antes da palestra, sentei no palco, fechei os olhos fiz um respiratório e rezei pro meu mestre, Yogananda, me permitir um dom que ele descreveu no livro dele “Autobiografia de um Iogue” (quando ele foi pros EUA divulgar o yôga, ele não falava bem inglês e tinha medo de não ser entendido. O mestre dele respondeu que, quando a pessoa tem uma mensagem importante para divulgar, o universo dá um jeito das palavras fluirem como precisam ser).
Como muitos amigos foram, sabia que teria rostos familiares na platéia e que, fosse como fosse, teria gente pra me dar apoio moral, caso a palestra fosse um desastre.
Comecei me apresentando, bem nervosa e, acredito, os primeiros minutos devem ter sido assustadores. Mas, passando o vídeo “Memória do Silêncio”, fui me acalmando. Afinal, é um assunto que eu conheço, que eu divulgo há anos, que eu me sinto à vontade falando sobre, etc…
Em questão de minutos, estava totalmente à vontade, a ponto de brincar com a platéia, ao contar histórias absurdas.
O roteiro da palestra foi o seguinte: Quem eu sou e o que faço. Sobre o DNO, sobre meu implante…
Quem são os deficientes auditivos no Brasil, especialmente falando dos oralizados. Quais as nossas dificuldades em termos gerais.
Falei sobre as tecnologias auditivas: aparelhos, tecnologias assistivas. Quais as nossas dificuldades em sala de aula e como podemos driblar isso, com ajuda dos professores.
Contei da minha experiência de aprender francês, espanhol e inglês.
Falei sobre trabalho, das experências péssimas que tive, por conta do sistema de cota que nos enfia goela abaixo das empresas. Mas, que ele também pode ter um lado ótimo, caso da empresa que trabalho atualmente. Falei sobre a cartilha que fizemos e o resultado dela (isso levou a platéia ao delírio, louca por nosso programa de inclusão).
E terminei falando sobre ouvir e escutar, o porquê dos termos…
Recebi muitos aplausos e elogios. Inclusive quanto a minha voz.
Faço questão de falar que sim, eu tenho voz de surdo oralizado, de quem tem um péssimo feeedback auditivo, mas não interessa, essa é a minha voz e eu tenho direito de usá-la! Inclusive, nessa hora, achei bom eu ter sotaque, porque se minha voz fosse ótima, iriam enfatizar que só falo em publico, por não ter sequelas na voz. Besteira, minha voz é voz de surdo, mas as palavras são suficientemente fortes para serem entendidas!
Agradeço de coração aos amigos que estavam presente. Ter vocês na platéia me deixou mais calma, mais confiante!
Agradeço ao SENAC pela oportunidade e pelas perguntas recebidas pelos expectadores, que deixaram claro do quanto gostaram e se interessaram pelo tema abordado.
Agradeço também aos intérpretes de LIBRAS, que permitiam que os surdos não-oralizados pudessem também assistir à palestra.
Beijinhos sonoros,
Lak Lobato

p.s. algumas fotos (depois coloco mais) ainda sem descrição (faço isso mais tarde, prometo). Todas de autoria da Cybelle Varonos, que autorizou a publicação das fotos.

31 palpites

  1. Pedro Augusto Bentes disse:

    Parabéns Lak! Não importa se tem ou não uma voz boa, mas expressar com alma, de dentro pra fora. Forte abraço!

  2. SôRamires disse:

    Você se saiu muito bem mesmo, a prova disso é que terminou o tempo e o público queria continuar perguntando. Outras palestras virão, com certeza. Parabéns. Agora é descansar da tensão 😎

  3. Leandro Kdeira disse:

    Você arrasa em tudo que faz.
    Parabéns Lakita!!

  4. Camila Lopes Nascimento disse:

    Muito bom! Continue assim com as palestras por aí, e assim o mundo vai tomar conhecimento sobre a existência dos surdos oralizados e seus modos de viver dentro da sociedade. Viva o árbitro livre! Vai fundo,sem medo! Parabéns,Lak.

  5. Elisabete disse:

    Lak
    Bom dia! Parabéns pela palestra! Infelizmente nao pude ir!
    Gostaria de saber q cartilha é essa q vc situou aquino DNO.
    Obrigacz 😀

    • laklobato disse:

      É basicamente uma cartilha com dicas de integração de funcionários PcDs. Mas, na verdade, são sugestões de convivência, para facilitar a aproximação das pessoas sem deficiência conosco. Porque, sabe como é, até pouco tempo atrás, as pessoas com deficiência eram isoladas da sociedade e as pessoas eram educadas pra ver deficiência como uma vergonha, então não podiam chegar perto, perguntar, o que as deixava curiosas e medrosas em relação a nós.
      O que fizemos foi montar um livreto com dicas explicando sobre as principais deficiências, como se aproximar, como ajudar. Dicas de como usar o bom senso e o que pode ser evitado.
      Escrito de maneira descontraída, pra abrir espaço pra debate.
      O pessoal da empresa gostou e se sentiu bem mais confortável pra me fazer as perguntas que tinha curiosidade de fazer a respeito da surdez. Foi ótimo!
      Bjs

  6. Eliane disse:

    Olha, eu poderia fazer um discurso, afinal tenho uma tendência prolixa mas, prefiro apenas dizer que vc faz jus ao nome que tem e quando vc cita o receio do Yogananda e a orientação dada por Yukteswar caiu como uma luva…antes já havia citado Gandhi só poderia lhe dizer que vc é muito bem acessorada e, claro além da sua vivência, da sua experiência pessoal, do seu interesse, da sua capacidade de se informar enfim de mergulhar fundo no que acredita e colocar-se a serviço de melhorar a qualidade de vida das pessoas num geral, não só dos que não escutam mas, tb dos que o cercam. “pessoa linda”vc!!! Parabéns! 😉

  7. Karen disse:

    Lak,

    Sou surda oralizada, conheci você pessoalmente ontem na palestra, finalmente! Está de parabéns pela apresentação! De fato, no início ficou nervosa e depois, tudo fluiu, isso porque conhece o assunto. Como já conheço também sobre o assunto, a sua apresentação foi clara e objetiva. Sobre o implante coclear que só apenas ouvi superficialmente e você esclareceu bem, obrigada!
    Pude ler todos os lábios de todos que estavam falando…rs….
    Sou formada em Psicologia, trabalho na área de Recursos Humanos atualmente em remuneração, embora que já tenho experiência em recrutamento e seleção, treinamento e desenvolvimento, em uma empresa multinacional que valoriza profissionais com deficiência. Também tenho projetos para desmitificar a deficiência auditiva que não está clara para a sociedade brasileira.
    Já trabalhei como psicóloga voluntária no atendimento de pais que tem filhos com deficiência. Vi de tudo…
    Conheci a sua professora de francês, a Cissardi, achei-a simpática e parabenizei-a também pelo lindo trabalho em acreditar em seu potencial.
    É isso aí, necessitamos de pessoas que acreditem no potencial da pessoa com deficiência e dar a chance de crescimento pessoal e principalmente, profissional para chegar a cargos de gerência que são raríssimos que encontramos no mercado de trabalho e inclusive, com salários dignos e iguais aos pares que fazem as mesmas atividades.
    Além disto, Lak, as pessoas com deficiência TEM e DEVEM acreditar no potencial que possuem e correr atrás dos sonhos, independente das diversas opiniões que recebem das pessoas, sejam da família, dos amigos etc. Ou seja, saber triar os comentários e eliminar os negativos.
    Mais uma vez, parabéns pela apresentação e muito sucesso!!!
    Se precisar de algo, disponho-me. 🙂

    • laklobato disse:

      Karen, fiquei feliz com a sua presença lá e fico igualmente feliz com seu comentário. Realmente, há muitos mitos em relação a deficiencia auditiva. Alias, sejamos sinceras, a todas as deficiências, que ainda causam medos, dúvidas e angustias.
      Enfim, vamos conversando, porque tenho certeza que temos muitas figurinhas pra trocar, não é mesmo?
      Beijo enorme

  8. Andrea disse:

    Linda,
    Sempre me emocionando.
    Queria tanto ter ido…mas não deu…
    Falo sempre de você no meu blog do quanto me emociono e identifico de vez em quando (uso aparelho).
    Enfim….continue sempre querida, vc dá forças para muitas pessoas.
    E não importa como sua voz é…use-a
    Eu fiz uma traqueo e por isso e pela perda escuto minha e sinto minha voz super diferente do que era…parece que sou outra pessoa…ops..peraí…no fim sou mesmo..rs
    Beijos

  9. Kali disse:

    Ahhhhhh que emoçao!!!!! Quanto orgulho!!! Muito orgulho da pessoa incrível e corajosa que vc é! Não por ir falar em público com o sotaque que vc tem, mas por encarar de frente seus medos e não aceitar que limites são paralizantes!!! Orgulho por vc ser tão generosa e dividir o que vc tem tão lindo com todos nós!!! Te amo muito!!!!! Parabéns! Que venham muitas outras palestrar e que eu possa estar lá para me maravilhar e chorar horrores!!! Beijos 😀

  10. marta disse:

    primeiramente muitos parabens!! 🙂 deu informaçoes completos sobre surdez. foi muito bom conhecer vc, finalmente!!!pena que foi rapidinho, devia viajar…espero um proximo encontro pra conversar, fazer batepapinho… 🙂
    beijos italianos

  11. Greize disse:

    Oi Lak vi seu vídeo li seu texto.Vi que ficou nervosa sobre sua voz.Bom como perdi audição adulta, posso falar que tem pessoas ouvintes que tem a voz diferente, às vezes meio anasalada, às vezes meio aguda demais.Isso tb virava piada na escola.E muito artistas fazem fono, caso da atriz Ana paula Arósio, que tinha a voz muito grave.Então eu ouvi sua voz vi que ela é muito boa, dá para entender perfeitamente e sim é sua voz.Ora bolas..rsrs.Cada um tem a sua, surdo ou não.
    Eu estou pesquisando uma pós-graduação , e se morasse em SP eu iria com certeza na sua palestra, pois ela me pareceu bastante Educativa.Pelo que vc relatou.E estou interessada, em Gestão de EaD.São várias possibilidades de Aprender e Ensinar.
    A foto mostrando vc, o intérprete , e a tela.Achei o máximo.Ah,se tudo fosse assim, isso seria Inclusão de verdade.Parabéns, se tiver vídeo estou no aguardo.
    Bjo
    Greize 😀

  12. Armando Austregésilo disse:

    Laksmi, fico muito feliz com toda a sua emoção e sucesso em sua primeira (de muitas, estou certo) Palestra oficial, ao vivo, pois o seu blog é uma permanente palestra! Todo o meu respeito pela sua incansável batalha, e força para vencer qualquer obstáculo que se apresente. Fico feliz também em ver o Edu, sua mãe, sua irmã e todos os seus amigos mostrando o tanto que gostam de você. Ainda que de longe, mantenho a minha torcida pela sua caminhada bem sucedida frente à vida. Parabéns!

  13. Armando Austregésilo disse:

    Perdão pelo erro na grafia de seu nome LAKSHMI, minha linda!

  14. Karen disse:

    Lak, com certeza, vamos trocar as figurinhas, porque não?
    Deste modo, podemos juntas fortalecer nos esclarecimentos dos mitos das deficiências que, aparentemente, são bichos papões (rs…) para quem não conhece.
    Fique a vontade e vamos nos falando!
    Beijos. 🙂

  15. Cybelle disse:

    Minha linda, a palestra foi um show, parabens, vc merece toda a felicidade e sucesso!!! Obrigada por tudo!!! Bjus 😀

  16. Gabi Antunes disse:

    Nossa Lak, parabéns, sei pelo que você passou, eu tive que fazer apresentação pra um público pra defender meu TCC, e olha a gente fica nervosa e com medo de não entenderem nossa voz, mas é nossa voz! Não sei como é meu sotaque, mas todo mundo nota e já me acostumei com isso. Parabéns, outras virão! Orgulho de você por falar sobre nossa existência!

  17. Gabi Antunes disse:

    Ah Lak Obrigada! Nem imagina como fico toda emocionada hauhauhaua 😳