Implante coclear e o telefone

Quando fiz a primeira cirurgia de implante coclear, em 2009, todo mundo vinha me perguntar quando eu iria falar no telefone. Porque falar ao telefone é o ápice de sucesso de um implantado (na verdade, de qualquer ouvinte, já que é uma situação que não existe qualquer pista visual). Tendo em vista que eu perdi a audição ainda criança e não fiz nenhum tipo de reabilitação auditiva nos 23 anos entre a perda da audição e o IC, a argumentação que me davam, para o meu fracasso de independência auditiva era atrofia do cortex auditivo. Tudo bem, porque realmente o tempo PODE atrofiar algo que não é usado.

Depois que fiz o segundo IC e confirmei que eletrodos a menos faziam diferença sim, comecei a arriscar pequenas ligações telefônicas. Óbvio que eu AINDA não vou ligar pro banco pra cancelar um cartão de crédito e nem vou preferir um filme dublado, tendo opção de legendado. Mas, admito que sim, começo a dar passos cada vez maiores ao telefone.

É ligar pro meu pai no dia do aniversário dele. É ligar pra confirmar se o marido quer que eu leve algo do supermercado pra ele. É ligar pra saber como foi a semana da minha mãe. Coisas pequenas, cuja ausência faz uma falta monstruosa.

Mas agora, começo a pentelhar os amigos mais chegados, para experimentarem falar no telefone comigo. O que é complicado é explicar como as pessoas devem falar comigo… Na verdade, a única coisa que preciso é paciência, porque tem horas que eu não entendo – o medo me emburrece às vezes – e preciso que repitam… mas, a partir do momento em que existe boa vontade, a ligação flui.

Geralmente, faço ligações curtas. Não passo de 5 minutos jogando conversa fora (não tenho prática nessa área). Resolvi, assim do nada, puxar conversa com uma amiga de infância. É uma história engraçada: nos conhecemos quando eu tinha 6 anos e ela, 7. Moramos no mesmo prédio por 3 anos, até que ela e as irmãs se mudaram. Coincidência (ou não?) elas se mudaram no exato dia que eu acordei surda. E a partir dai, a nossa amizade foi mantida por cartas. Nos correspondemos a adolescência toda…

O tempo continuou passando, veio a internet, os programas de conversação, as redes sociais. A amizade continuou dessa maneira, virtual… Mas, confesso que a vontade de ouví-la de novo, sempre esteve latente, esperando um momento em que isso fosse possível.

Eu, minha irmã e nossas amigas de infância. Para facilitar, eu sou a única de cabelo cacheado e a Marilia – que falou no telefone comigo hoje – está sentada na poltrona, fazendo cara de conteúdo hahaha

Hoje (domingo, 27/01, quando escrevo o post), resolvi brincar com ela no facebook. Disse que sentia saudade dela lendo as coisas pra mim. Eu era uma criança muito preguiçosa que detestava ler e ela gostava. Daí, eu pedia pra ela ler os livros (porque ela vivia com um na mão) em voz alta pra mim. Escrevi, no facebook, que ia pedir pra ela ler qualquer coisa pra mim, no telefone, alguma hora dessas.

Ela, que também sentia saudade da minha voz, pegou o celular e me ligou na mesma hora. Com aquela doçura que a gente tem com os amigos de infância, foi tendo toda a paciência do mundo de conversar com calma, até a conversa fluir naturalmente.

11 minutos.

Foi o tempo que durou a ligação. Falamos da vida, dos nossos pais, das nossas irmãs. Falamos dos filhos (dela, porque eu não tenho). Dos planos do passado e dos planos pro futuro. Falamos muito mais do que as palavras são capazes de dizer. A própria entonação da voz falava por si mesma.

26 anos, quase, sem poder ouví-la e parecia que foi ontem, que éramos meninas arteiras, aprontando até de  madrugada (na verdade, 22h, que era a hora que a gente sempre tinha que voltar para casa).

A vida leva muita coisa, com o passar do tempo. Mas, ainda assim, algumas delas são eternas, porque nunca deixam de estar vivas dentro de nós.

Obrigada, meu deus, por me permitir esse resgate da minha infância. O IC não devolve apenas os sons, ele me devolve uma alegria que eu não sentia há muito tempo. Vozes queridas, de pessoas amigas, que felizmente, nenhum tempo ou distância geográfica foi capaz de apagar!

Ouvir vale a pena!

Beijinhos sonoros

Lak

12 palpites

  1. SôRamires disse:

    😡 😥 😥 😥 😥 😥 😀 não dá pra segurar…bonito demais!

  2. Marcelo P disse:

    Lak Lak! Que orgulho ler isso aqui Lak!
    Saber que através do Implante Coclear a gente tem a oportunidade de resgatar tantas emoções, e isso por que a gente tem a CORAGEM de ARRISCAR. Quando enfrentamos esse nosso medo de não conseguir ouvir, a gente já da um passo a frente e o não desistir que fará de nós, pessoas de sucesso!
    Parabéns Lak!

  3. carol disse:

    Novamente, me fez emocionar!! Falo em nome de todos implantados, é uma dádiva conseguir tal proeza!!!

    bjos bjos! tomara q qlq dia eu ligue p vc! hahahaha 😀

  4. carol disse:

    ps.! Agora tem q mudar a imagem do blog novamente pra outro IC! Hhehe bjos

  5. Eliane disse:

    Agora precisa ter um telefoninho no IC… mas estou FELIZ! puxa, acho que tb resgato um pouco de mim com seus relatos, e essa foto, irradiando e eternizando felicidade…Putz é mesmo, a Marilia se mudou no dia de vc ficou surda, perdeu as amigas e a audição juntas, as amigas no dia a dia, pra brincar. E, agora audição e 11 minutos com a Marília nem imagino a alegria, o prazer imenso. É, quando o coração se derrete empoça os olhinhos…estou assim, nesse instante, emocionadíssima!!! mãe é um “ser”sem palavras pra definir mas ser mãe da Lak rsrs o diconário fica menor ainda… 🙂 😡 😉

  6. Rogério disse:

    Uai, Lak, você faz escova? Ou enrolava o cabelo quando criança? Antes de ler a legenda tentei encontrá-la na foto, e só consegui porque sua fisionomia pouco mudou.
    Tenho lido todos os seus post, mas falhado nos comentários. Perdão, não é descaso. Devido a uma cirurgia recente, tenho me sentido mais confortável deitado (acho que vou contar a historinha lá no cafofo), então pouco tenho permanecido online. Comprei um tablet, mas não é a mesma coisa.
    Mais uma vez, um texto impecável e emocionante. Você merece alguns sapinhos. Adoro isto aqui.
    Beijos
    🙂 😈

  7. Marilia disse:

    Agora a danadinha arrancou lágrimas pra valer, que vontade de te dar aquele abraço!!!!!!!!!! Nem eu sabia que tinha sido no mesmo dia em que fomos embora, que a surdez apareceu… É uma honra fazer parte da sua história e sempre será! Ainda vou te fazer uns telefonemas! E quando nossa casa for nossa mesmo, faço questão da sua visita! Beijo cheio de amor!