Implante Coclear para quê mesmo?

Uma frase bem frequente que qualquer usuário de implante coclear que não tem um resultado perfeito (ou seja, que não fala no telefone, não ouve música ou não conversa sem leitura labial) tem que lidar frequentemente é a seguinte “Para que serve esse implante coclear então?”.

Eu passei três anos ouvindo essa frase, ainda que eu estivesse absurdamente feliz com meu IC. Porque entre não ouvir nada e apreciar a trilha sonora da vida, independentemente dela ser uma voz compreendida ou a letra de uma música, eu escolheria a segunda opção sempre, sem pestanejar.

Ainda que a medicina considere o sucesso do IC (e falo da medicina como um todo, não de todos os médicos, porque conheço vários que concordam que o sucesso não se mede pela discriminação auditiva, mas com o impacto emocional favorável do paciente) como a total discriminação da fala, somente um usuário que gosta do IC e é feliz usando a tecnologia poderia determinar se ele se sente ou não um caso de sucesso.

Segue, então, um emocionante relato do meu BFF (pra quem não sabe, “best friend forever”, sigla em inglês de melhor amigo) Raul Sinedino sobre  uma experiência que ele viveu recentemente e  ilustra perfeitamente essa questão de “para que serve um IC que não traz a audição perfeita”. Aproveito para lembrar que foi o Raul a me apresentar o Implante Coclear e me incentivar durante anos a fazer a melhor das escolhas da minha vida. Daí o título de BFF atribuído a ele!

Talvez se não fosse o implante coclear, eu não estaria aqui para falar da importância dele já que costumo ouvir perguntas do tipo: “para que ele serve já que você não fala no telefone? Não discrimina as palavras?”. Sei que não são perguntas maldosas, mas ouvir é muito mais que falar no telefone. É se sentir pleno no mundo, é estar vivo!

Pois ontem tive uma prova, depois de 13 anos estando com implante coclear, da grande importância dele. Quase fui atropelado ontem por uma moto e pela velocidade dela, certamente, teria batido as botas.

No caminho para o trabalho, desatento, pensando na vida, atravesso uma rua que achava que era somente de mão única, olho pro lado, nada de carro. Começo a atravessar a rua e no meio dela, escuto o barulho de moto. Por instinto, resolvo parar e olhar pro outro lado que não tinha olhado, nem tive tempo de ver o que era, a moto já estava passando raspada no meu corpo na velocidade de quase 80km/h – senti até o vento dela e me tremi todo.

Sim, corri o risco enorme de morrer de atropelamento com quase 40 anos na cara…

São cenas como essas em que fico pensando sobre a existência de pessoas contra tecnologias que nos dão qualidade de vida, independente do sucesso que você tem com elas. Sem falar que a palavra sucesso é um termo bem subjetivo – o que é sucesso para você pode não ser para os outros e vice-versa.

Ontem mesmo, minha mãe no Whatsapp: “Nossa, filho, você já vai fazer 40 anos. Quantas conquistas!”

Realmente, me parei pensando quando fiz 5, 10, 20 e 30 anos e nas conquistas que obtive. Uma delas foi ter me permitido explorar o implante coclear e conhecer os novos sons.

Com quase 40 anos, penso no quanto sou afortunado em ter alcançado essas conquistas que talvez se eu fosse ouvinte não teriam tanta importância ou não teria alcançado elas.

Não acredito em Deus, mas se existe, cai bem o seguinte ditado: “Deus escreve certo por linhas tortas”. Essa tem sido a minha vida desde 25 de julho de 1977.

Ouvir não traz só comunicação com o outro. Traz interação com o mundo ao nosso redor. O mundo fala conosco constantemente. Seja no som poético da chuva caindo, o conforto do barulho do mar ou o alerta de uma buzina, ouvir é um elo de ligação com o mundo, que vai muito além de palavras discriminadas. O que torna o valor da audição inestimável é o quanto ela nos conecta com o universo ao nosso redor!

Beijinhos sonoros

Lak Lobato

7 palpites

  1. «O que torna o valor da audição inestimável é o quanto ela nos conecta com o universo ao nosso redor!» – é isso mesmo! E o valor emocional/afetivo que o IC nos dá e que é diferente de pessoa para pessoa, como disseste. Essa questão de me sentir mais segura ao andar na rua para mim é mesmo muito importante. Dantes, os amigos e a família estavam sempre atentos aos carros, para me avisarem e eu sempre a olhar de um lado para o outro quando caminhava sozinha e a rezar para não aparecer nem carro, nem moto nem nada, assim do nada!

    • Lak Lobato Lak Lobato disse:

      Não vejo como sucesso algumas pessoas que tem total discriminação auditiva, mas só reclamam do IC, como se fosse um fardo ser obrigado a usar. É a única alternativa, então reclamar é algo que eu acho desprezível. Mas, vai de cada um, né? Acho que GOSTAR é o ponto chave de tudo.

    • olha, poder ouvir ou voltar a ouvir é uma coisa que não tem (bem, tem, o IC é bem caro!! 🙂 ) preço. Ainda ontem estive num evento organizado pela Widex, com «showcases» de músicos portugueses e chorei imenso, por voltar a ter prazer em ouvir música ao vivo, algo que tinha como ouvinte, que perdi há 11 anos e que o IC me devolveu. Não é igual, claro, mas nunca seria, a audição natural em condições perdi-a. A alternativa seria ouvir muito pouco, sem perceber quase nada, portanto, ainda que o resultado fosse menos bom, seria sempre melhor que o que tinha. Às vezes há quem procure uma perfeição inexistente e não olhe para trás, quem pareça ter esquecido como era antes. Mas para esses se calhar nunca nada é bom, não? 😉

    • Eu uso IC há 06 meses. E desde que perdi a audição em 2015, somente agora voltei a experimentar a alegria de viver e isso graças ao IC. Nem existem palavras para dizer o quanto amo o IC… é parte de mim e será até o fim.

  2. Mesmo verdade. Quase fui atropelada por um carro e ao ouvir a aproximação deste parei sentindo a força do carro passando pelo lado esquerdo que era o lado não implantado. Perigoso mesmo .

  3. Por isso não prescindo de qualquer forma o uso do IC. Nao uso mais o assi ha tempos desisti de andar com a mistura dos sins graves doa dois lados o que enervava. Simto me muito aliviada e a escutar muito melhor com este mapeamento recente a 5 Junho.