Implante de força

Acordei cedo hoje. Na verdade, faz um bom tempo que tenho acordado cedo. Dormir não tem sido bem meu passatempo favorito.

Enquanto arrumava os cabelos, depois de tomar um banho quente, olhei-me no espelho e comecei a chorar.

É engraçado que poucas pessoas percebem, mas todas as minhas lindas postagens deslumbradas de recuperar a capacidade de discriminar os sons da fala vem recheados de uma dor imensa nas entrelinhas, por não ter conseguido fazê-lo por 25 anos.

As pessoas, hoje em dia, me dizem que sou a pessoa mais forte, mais otimista, mais “pra cima” que conhecem. Que sou um exemplo de força, de determinação, de coragem.

Não sei se elas sabem que isso é resultado de simplesmente não ter escolha. Eu nunca vi o “desistir” como uma escolha possível. Pra mim, enquanto estiver viva, é  necessário continuar lutando. É claro que eu tenho fraquezas imensas.  Tenho as minhas fragilidades, tenho meus medos, meus fantasmas… Mas, nada disso serviu de motivo para eu desistir de… continuar vivendo. Só admito que o fiz com uma dor imensa pela perda da audição. Eu sou uma pessoa extremamente auditiva. Alias, muito mais do que visual, tactil ou cinestésica. Ouvir me dá prazer, me relaxa, me completa. E isso me foi arrancado da noite para o dia, simples assim.

Tenho um certo bloqueio de me lembrar das semanas seguintes desse pesadelo – sim, muita gente vai achar absurdo eu usar esse termo, mas é o que melhor se encaixa – começar. Mas, uma das coisas que me lembro é de ser uma menininha de 10 anos assustada, sem entender o que estava acontecendo, inclusive porque ninguém sabia me explicar. Eu me lembro da televisão ficar silenciosa, de não poder ouvir música, de não poder ouvir as conversas dos outros. Dos olhares de compaixão e de nojo dos adultos em relação a mim (sim, os adultos olham com nojo para crianças deficientes, não pensem que elas não percebem!). Lembro dos meus pais e da minha irmã desnorteados e nada, mas nada ser suficiente para tirá-los daquele desalento de incerteza. Vi uma vida inteira desmoronar na minha frente e não saber como seria a partir dali.

E hoje, enquanto chorava, senti uma vontade imensa de correr ao alento da minha familia. De confortá-los. De dizer para que eles tivessem coragem, força, que não se deixassem abater. De botar aquela menininha que eu fui aos 10 anos no colo e falar “Não fique assustada! Você terá uma vida completa, maravilhosa. Vai poder estudar. Vai poder trabalhar. Vai ter amigos. Vai se casar. Vai viajar. Vai ser feliz. E quando tudo isso tiver acontecido, as pessoas vão se espelhar em você. Vão dizer que você é tudo o que elas esperam poder ser. E um belo dia você vai poder, através de uma tecnologia, ouvir de novo. Não tenha medo! Vai demorar, mas vai ser possível, tenha fé! Não se sinta sozinha, porque você tem a mim.”

Se fosse possível essa viagem no tempo, tudo teria sido tão mais fácil. Mas não, foi preciso 25 anos sem saber, para que eu chegasse até aqui.

Meu peito ainda doi pelas dores que eu sentia sem perceber. Que eu me congelei para não sentir. E agora sinto…

Viver um milagre é maravilhoso. Mas ele tem o preço de derrubar todas as barreiras anti-dor que a gente constrói ao longo da vida. É necessário, para que a gente supere os traumas, afugentes as mágoas, esclareça as dúvidas, se fortaleça e renasça.

Só que dor é um troço que dói, entende?

E, no fim, o que fica é a certeza de que a vida, seja como for, merece ser vivida. E que não existem heróis. Pessoas fortes também são humanas. E admitir que a gente precisa de ajuda é importante. Mas, algumas ajudas, só podem vir de nós mesmos!

Eu desejo que ninguém sinta a dor que eu senti – não é a pior dor do mundo, sei que há dores piores, mas ela é bem dolorosa – mas, admito que desejo sim, que vocês sintam a mesma dimensão de alegria, se for possível! Vale a pena….

Beijinhos sonoros,

Lak

46 palpites

  1. Juliana Santiago disse:

    Que emocionante Lak, chorei aqui…
    Continue assim escrevendo textos lindo, não me canso de ler e reler… Apesar que quase não comento, estou sempre lendo.
    Bjos!!

  2. Adriana disse:

    Linda, me fez chorar. Muito.

  3. Julia S. Pacheco disse:

    Emocionante…
    Parabéns, não só pelas conquistas, mas por sempre lutar por elas!!
    Beijos

  4. Chris disse:

    Lak, querendo ou não vc é uma vencedora e com todos os elogios devidos.
    Emocionante esse seu texto. E que bom chorar e poder ouvir o som do seu choro! Te amo! bjs ♥♥♥

  5. Ale disse:

    Caraca… pra variar me fez chorar!
    Sem comentarios!

  6. Alza Alves disse:

    Sim… é de chorar. E de aprender. Lindo Lak. Obrigada. Bjs

  7. Bia disse:

    Vc sempre me faz chorar guria! 😉

  8. Raul disse:

    Força Lakita. Um beijo do seu BFF 😡

  9. Marcelo P disse:

    Lak! O mais interessante disso tudo é ver você compartilhando todas essas experiências com a gente, e saber que muitos ainda encontram uma luz no fim do tunel chamada de “esperança”… Passei por muita coisa como você e sei como é essa dor (ainda pior quando a falta de atenção pode vir de pessoas que admiramos). Depois das cirurgias eu pude olhar para trás e ver que tive um passado limitado, depois das cirurgias, vi que ainda existe um mundo “cheiinho” de coisas para mim conhecer, é como nascer de novo, dessa vez em um mundo mais fantástico e sonoro! Beijos!

  10. Greize disse:

    Texto que te faz chorar e pensar que:”Cada um sabe a dor
    E a delícia..De ser o que é…”.Bjos. Força Sempre! 😡 🙂

  11. José Petrola disse:

    Acho engraçado que, quando a gente tem alguma deficiência, tudo que fazemos é encarado como um ato de heroísmo… Como se sempre fõssemos guerreiros, vencedores, pessoas que “se superam”… E na verdade nós somos bem normais. Também temos medo e choramos. E isso que muitos veem como superação, é o dia-a-dia…

  12. Denise disse:

    😡
    Não só chorei, mas me arrepiei dessa vez…

  13. Livia disse:

    Concordo com a Greize, Lak… somente nos sabemos o q é essa dor … vem da alma… e a certeza de termos atravessado tantos obstaculos nos faz cada dia mais fortes! bjo no coracao! 🙂

  14. Ver, falar, sentir, ouvir…parece coisas tão simples e natural, para quem tem o privilégio de ter todos esses sentidos intactos que poucas vezes essas pessoas param para avaliar e agradecer a Deus por ser um desses privilegiados.

    Entre todas as deficiências creio que a perda da visão é com certeza uma das piores mazelas que alguém possa ter, ficar privado da luz, das imagens em geral, e de todas as coisas que os olhos podem captar é deveras algo aterrorizante.

    A Surdez, creio eu, vem em segundo lugar, a vida é um mundo de sons, são milhões de vibrações que traduzem tudo ao nosso redor, e com eles as emoções, a alegria, o prazer de viver, o pior, é que a capacidade de ouvir é algo que está intimamente atrelado a vida social, falar bem, persuadir, impressionar ou até ser ou não aceito em uma grupo ou comunidade depende muito de ouvir e se expressar verbalmente.

    Não parece nada para quem ouve bem, mas, a perda auditiva causa inúmeros problemas na vida social. A sociedade em geral é preconceituosa com um deficiente auditivo, dificilmente alguém se relaciona com uma pessoa nessas condições de igual para igual, geralmente trata a pessoa como se fosse inferior, conduz a conversa com tom de deboche, faz piadas, como se a surdez fosse sinônimo de idiotice, como se o portador fosse literalmente um imbecil.

    Olhe que estou falando sobre um deficiente auditivo moderado a profundo, aquele que ouve sons, batidas, apitos e até música, mas quando alguém fala é como se estivesse falando japonês, quando ouve música só pega algumas palavras e não consegue formar frases, esse tipo de deficiente auditivo, não parece, mas é o que mais sofre na sociedade, sofre porque fica no meio termo, nem é surdo total nem ouvinte completo, então fica no impasse, não se encaixa no surdo total que usa libras, nem pode se enquadrar nos ouvintes que se expressam sem leitura labial.

    Quem vai perdendo a audição gradativamente e chega nesse ponto, e quando essa metamorfose dura anos, geralmente a personalidade desse pessoa fica seriamente prejudicada, começa a evitar grupos, se isola, pode ficar solitária, perde a auto-estima, a confiança, e se não for suficientemente forte, pode inclusive partir para o alcoolismo, ou outras formas de doping ainda piores.

    Se a surdez moderada a profunda já causas tantos problemas, imagine uma surdez total, quando nenhum som pode ser captado. Viver no silêncio total dia após dia é algo que só quem vive essa situação pode ter noção exata da imensidão desse sofrimento.

  15. Me identifiquei muito com seu post, Lakzinha! Às vezes, até mesmo sem perceber, não nos permitimos chorar ou admitir nossas fraquezas. E após um bom choro, tudo parece ficar mais leve, hihihi 😎

    Há poucos meses, depois de 4 anos sem andar, voltei a dirigir! E a primeira coisa que me veio à cabeça não foi emoção de ter uma nova ‘chance’, mas a tristeza de ter perdido minha ‘velha’ habilidade de conduzir um carro, pois achava bem melhor acelerar e frear com os pés 😀 . Após umas duas ou três aulas de direção é que fui começar a ver o lado bom da coisa e a curtir de verdade dar umas voltas por aí.

    Não sei se meu sentimento pode ser comparado ao seu diante do espelho, mas senti vontade de compartilhar isso depois de ler seu texto 😳

    Beijinhos rolantes 😉

    Fred

  16. Roselle disse:

    Lak linda…como não me emocionar com vc?Nem sempre comento suas postagens mas não deixo de,qdo entro na net,te buscar nos meus favoritos.Suas palavras só mostram o quanto vc é iluminada!Continue assim:humana,com sorrisos e lágrimas,perdas e ganhos e sempre nos presenteando com suas histórias!Bjos sonoros,meu e da Marcellinha!!! 🙂

  17. Mariana disse:

    Lak, você me fez chorar de novo…mas já me acostumei com isso ao ler o seu blog. Você escreve muito bem e seus textos me tocam.
    Você não teve a escolha de não viver esse pesadelo, mas escolheu sim uma forma de viver bem e superá-lo. Você é forte, mas ninguém o é todos os minutos.
    Eu te conheço antes do IC. Você já tinha escolhido a vida.

  18. Rogério disse:

    Quer saber? Eu sempre notei essa ‘dor nas entrelinhas’, em que pese não identificar nela a figura sempre perniciosa do rancor, da inconformidade. Não faço idéia do que você sentiu esses anos todos – ninguém faz, quem os viveu foi você -, e tudo o que me resta é estar feliz com sua felicidade, radiante com a luz que você exala e a paz que distribui sempre que fala da (re)conquista dos sons. Isto, sim, me é dado sentir de forma compartilhada com você, e sou-lhe grato por ser generosa a esse ponto. É claro que sua conquista teve um preço, porque forçosamente você abriu as comportas e baixou os escudos, mas veja que eles não são mais necessários.
    Não vou ceder à tentação de dizer que seu período de silêncio serviu de aprendizado, seria piegas demais e você já deve ter notado minha aversão a coisas invisíveis ou intangíveis.
    Mas devo dizer que você nunca me passou a imagem de divindade da alegria (o que diabos isso significa?), já que o que vejo em você é uma pessoa de personalidade forte, que briga por si, compra brigas dos outros quando as acha justas e diz o que pensa (adoro!), “duela à quién duela” – perdão, amigos hispanófonos, a culpa é do Collor. Também tem o lado sensível e doce, que produz com a alma textos emocionantes como o que acabamos de ler, alguns comentaram e a maioria desabou em lágrimas.
    Nós dois sabemos dos laços fraternos que nos unem, por isso não tenho o menor constrangimento de dizer que amo você.

  19. elizabeth disse:

    Amei Lak, que bom que você pensou, lembrou, sentiu, chorou, aprendeu. A dor de ninguém é pequena. Um beijo.

  20. Armando Austregésilo disse:

    Querida, compartilho de sua dor, e mesmo tendo falado já mais de uma vez ao celular com você, acho que ainda preciso de mais algumas vezes para me convencer que a tecnologia, que aqueles médicos nos prometeram, sem tanta certeza, pôde fazer de você uma nova ouvinte feliz. As dores na definição oriental são como faróis, que no escuro orientam e permitem que não haja o naufrágio! Sua dor, não incluiu, a rigor, esta possibilidade de fracasso, ou melhor, de silêncio para sempre. Até porque, na impossibilidade de ouvir, você desenvolveu a visão que orienta e permite vencer o silêncio, de forma que nem os idiomas foram suficientes para criar barreiras intransponíveis. Foi a sua força interior que a impulsionou na direção do sucesso e da transmutação. Parabéns pela coragem e a perseverança que fazem de sua vida um exemplo, mesmo para os velhos que no fundo temiam que você não superasse. Minha eterna admiração, te amo!

  21. Bruno Sequeira disse:

    Lindo e profundo como sempre…
    Bjs

  22. Crisaidi disse:

    Muito bem, Lakshmi!

    Faz bem reconhecermos fraquezas e tristezas e por elas chorar. Acho que merecemos esse acalento ‘de vez em quando’.

    E, após chorar, merecemos um prêmio, uma compensação, um mimo, certo?

    A vida é um maravilhoso presente e todos os momentos, sejam bons ou ruins, são preciosos. Cada momento é único e não devemos desperdiçá-lo. Cada momento é parte desse presente – ‘nossa vida’.

    É maravilhoso você compartilhar esses momentos sofridos com tanta elegância. Tudo que você compartilha neste blog é de extrema importância para muuuuita gente.

    Obrigada.