Novos Olhares sobre o TEDxLaçador

Hoje, vou pedir permissão aos meus leitores para sair um pouco da temática do blog.
O texto de hoje não é sobre surdez, é sobre uma jornada de fé!

Quando fui convidada para participar do evento Novos Olhares do TEDx Laçador, confesso que senti um misto de lisonja e pânico. Estranho falar sobre dois sentimentos tão antagônicos, mas eles descrevem bem a sensação que tive naquele momento.

Eu geralmente falo pouco da minha infância e adolescência. E quando falo, geralmente me refiro a momentos em que a surdez foi marcante. Mas, antes de perder a audição, entre meus desenhos animados e músicas em LP, fui uma criança como qualquer outra, cheia de sonhos, de energia e de imaginação.

Desde criança, como a maioria das crianças (acho) eu sempre sonhei em estar no palco. Meus pais são palestrantes e eu os via ali e queria seguir os passos deles. Não apenas queria, eu realmente fechava os olhos e me via no lugar deles, dando palestras para um público sedento pela informação que eu passaria.

Aí veio a surdez que afetou minha voz e tive que engavetar esse sonho.

Mas como dizem, o universo sempre conspira a favor dos sonhadores. Justamente por causa da surdez, que antes era o obstáculo que me afastava do palco, de repente se tornou o motivo para eu subir nele. E tive oportunidade de dar várias palestras…

Mas, a minha vida nunca foi um caminho fácil!

Tempos atrás, me deparei com algumas pessoas que fizeram comentários bem ruins sobre a minha performance. O que me colocou cada vez mais pra baixo. Ouvi que eu não era tão inteligente quanto pensava. Que minha história não era tão especial assim. Que o implante coclear não era tudo isso que eu dizia. E, como se tudo isso não bastasse por isso só, ainda tive que ouvir que minha voz era horrível e muito difícil de entender.

E aí, eu não consegui mais acreditar que eu teria futuro como palestrante. E desisti!

Quer dizer, dentro do meu nicho, com as minhas palestras para fonos e médicos otorrinos, para pais de crianças implantadas e futuros implantados tudo bem.

Mas, enfrentar pessoas que não sabem nada sobre surdos oralizados? Melhor não.

Aí, eu recebi um convite para participar do TEDxLaçador! E eu quase recusei. Porque vi que era um evento de grande porte e fiquei com medo da minha voz não dar conta.

Afinal, ela era horrível para um público despreparado entender (ou seja, que não está acostumado com surdos), segundo me disseram.

Não sei bem por que, decidi aceitar. Mas confesso que não estava confortável com esse evento. Tanto que não tinha conseguido preparar uma boa palestra.

Antes mesmo de chegar no evento, no entanto, eu percebi uma atmosfera diferente. Acolhedora e amistosa, não hostil como eu estava esperando. No aeroporto, a equipe que nos recebia era simpática, amigável, carinhosa. E os outros palestrantes, que chegavam em vôos simultâneos, igualmente queridos.

No ensaio, a gente já subia no palco e tinha oportunidade de sentir a “vibração” do lugar, das pessoas e do porte do evento. E nesse auditório da UniRitter havia, naquela equipe maravilhosa, a atriz Lu Adams, que estava atuando como preparadora corporal para ajudar as pessoas a se sentirem confortáveis no palco.

Afinal, nem todo mundo é palestrante profissional, eu inclusa.

Subi no palco, falei o texto que tinha decorado mais ou menos e observei a reação da platéia. Foi boa, mas assim, não foi nada intenso (afinal, era um ensaio), mas a Lu subiu no palco e me fez um elogio tão inesperado, surpreendente e bom de escutar: “Estão vendo ela? Ela vai ser a nossa referencia de presença no palco hoje. Porque está muito confortável com ela mesma, ao contar sua história”. E, de repente, todas aquela couraça que tinha se formado ao meu redor, que eu mesma tinha colocado para me proteger, caiu no chão e desapareceu com todos os meus medos!

Um elogio simples, mas dito na hora certa, num momento que eu precisava ouvir, me desarmou.

Aí eu desci do palco e tive que refazer a palestra, porque ela precisava estar à altura do que eu tinha acabado de ouvir!

E refiz…

Mas o evento era um evento completo. Tivemos oportunidade de jantarmos todos juntos no Baalbek. Pessoas com histórias de vida tão fascinantes, que são famosas na área em que atuam e, ao mesmo tempo, tão simpáticas, tão humanas, tão verdadeiras.

Ontem, pela primeira vez em toda a minha vida, eu subi no palco desarmada dos medos, confortável comigo mesma (com a minha voz, minha maneira sentimental de falar das coisas, minha história), com a ideia fixa que eu queria estar ali, realizando meu sonho de criança: no palco de um evento lindo, com a casa cheia e amigos verdadeiros na plateia. Pela primeira vez, eu subi num palco sem meu nervosismo habitual, sem a ansiedade que sempre me acompanha e soltei a voz com toda a emoção e sinceridade possível.

Ali, eu não era Lak que sofreu críticas pesadas porque nunca era boa o bastante.

Ali, eu era a menina sonhadora, que subia nos palcos da vida para contar uma história.

Foi um dos melhores momentos que eu tive na vida. Desde o café da manhã de boas vindas à última taça de champanhe do coquetel de despedida, com direito a muito amor em forma de brownie do Charles Brownie, (o melhor de POA, do Tiago Schmitz). Eu me senti em casa, me senti abençoada pela vida, pelas histórias que ouvi, pelas pessoas que tive oportunidade de conhecer, pelas amizades que nasceram por causa desse dia! Não pela oportunidade apenas de palestrar, mas pela oportunidade de sentar na platéia e assistir! Por ser parte na corrente de harmonia que se formou naquele auditório. Graças ao coração acolhedor dos organizadores: Ana Goelzer, Livia Ghanem e a maravilhosa equipe Mara, Kelen, Cris, Vitorio, Julia Fabris e Julia de Bortoli, Patrícia, Samuca, Joice, Claudia,  Vini, Giovanna Canozzi e Giovana de Bortoli.


Eu falo muito sobre sons, sobre encontrarmos a trilha sonora das nossas vidas, porque eu passei dois terço da minha vida enclausurada numa bolha de silêncio.

Mas ontem, eu descobri que a vida também precisa de cor! E apesar de eu poder ver por toda vida toda (afinal, eu nunca tive deficiência na visão), eu não tinha conseguido enxergar essa necessidade que todos nós temos!

Ontem, graças a equipe maravilhosa que realizou o evento do TEDx Laçador Novos Olhares, eu descobri que a vida também precisa ser colorida! Aprendi que mais do que sons, a vida precisa ser uma experiência completa: com luzes, sons, aromas e sabores, além de uma quantidade quase palpável de amor!

Todos nós precisavam sentir que pertencemos ao grupo, porque só quando somos parte, nós conseguimos chegar a ser o TODO! 

Voltei para casa diferente da pessoa que pegou um vôo para Porto Alegre. Voltei para casa com um Novo Olhar sobre mim mesma, sobre a importância das outras pessoas na minha vida e sobre a experiência maravilhosa de participar de um TEDx.

Eu fui ali, apenas para dar uma palestra e, inesperadamente, voltei para casa com a fé restaurada, em mim mesma e nas outras pessoas!

Beijinhos sonoros,
Lak Lobato

15 palpites

  1. TÁ CREXENDO A CADA PALESTRA…QUE ÓTIMO! PARABÉNS!

  2. Tiago Schmitz Tiago Schmitz disse:

    “Todos nós precisamos sentir que pertencemos ao grupo, porque só quando somos parte, nós conseguimos chegar a ser o TODO!”. Arrepiei mais uma vez. Quando, depois de te ouvir brilhando no palco ontem, eu ainda tenho a oportunidade de ler palavras vindas do teu coração, só posso dizer que restauro minha fé também, Lak. #gratidao

  3. Adoro os seus beijinhos sonoros! Não desista jamais! Você é necessária, perfeita no que faz. Beijos sonoros de vó!

  4. Aline Boldrin Aline Boldrin disse:

    Que pessoa maravilhosa você! Que bom poder ter tido a oportunidade de estar na plateia e te ouvir no dia de ontem! Parabéns Lak 😊

  5. Que texto show!
    Impressionante como algumas pessoas fazem diferença nas nossas vidas – tanto positiva como negativa !!!!!!
    👏👏👏👏👏👏👏👏

  6. Parabéns Lak, pela sua coragem, seu entusiasmo, seu amor pela vida! Como participante do evento, deixo aqui o meu muito obrigado, por você ter aceito o convite de palestrar no TEDxLaçador! Obrigado por ter acreditado que nós que estávamos na platéia teríamos a sensibilidade de ouvir a sua fala e perceber a riqueza que ela traz consigo! 🙏🙏🙏

  7. Nina Cardoso Nina Cardoso disse:

    Kaká Menuzzi….lê…. A emoção continua! Aula 2 da Lak !