O dom de voar (ou não)

Esses dias, estava conversando com o Leandro  Portella autor do blog Ser Lesado, que é tetraplégico e  me explicava (tadinho, eu fiz umas perguntas que ele já deve estar cansado de responder) como ele substituiu o tato pela visão (no caso dele, a sensibilidade corporal é praticamente nula).

Pra quem não tem deficiência nenhuma, é complicadíssimo explicar essas compensações cerebrais que, volta e meia, quem possui alguma limitação física e/ou sensorial acaba fazendo.

O cérebro humano é capaz de coisas que os paradigmas não permitem que a gente pense muito a respeito, mas entendi o que o Leandro queria dizer, por conta de uma emoção que tive, recentemente, com o implante.

As pessoas me perguntam como são meus sonhos, acho  até que já fiz um post sobre eles aqui (preguiça de procurar), mas meus sonhos sempre foram sonoros. Muito porque meu cérebro nunca deixou de ser totalmente um cérebro de ouvinte. Tanto que meus contos – sim, eu os escrevo, apenas não os publico porque são, digamos, impróprios pra menores – sempre tem presença de sons abundantes. Eu nunca consigo imaginar nada completamente silencioso, embora o silêncio tenha sido parte do meu cotidiano por décadas.

Para tudo o que se move, meu cérebro imagina um som. Então, quanto mais compassado for esse movimento, mais próximo de uma melodia aquilo se torna. Adoro movimentos ritmados, porque viram uma verdadeira orquestra na minha cabeça. A visão substui muito da audição.

Mas, cada vez mais, percebo que o implante vem preenchendo essa função e tirando da visão essa capacidade de “sonorizar”. As vezes, de maneira bem abrupta…

Dia desses, estava vendo um vídeo, lá no trabalho. Meu computador do trabalho fica com a caixa de som desligada, porque trabalhamos 20 pessoas numa sala. As pessoas só ouvem coisas se estiverem de fone de ouvido. Eu tenho um cabo especial que liga direto o computador (ou a tv ou qualquer aparelho eletrônico) na parte externa do implante, mas sempre esqueço de por na bolsa. E dado o fato que não tenho o hábito de usar o som do computador, acabo não tendo muita  necessidade mesmo.

Mas, naquele dia, eu estava vendo um video de uma dança, acho…

E ouvia perfeitamente a música. Linda! Até que….

Dei-me conta de que não estava realmente ouvindo a música. O audio do computador não estava ligado e, auditivamente, eu não estava captando nada, era meramente a minha imaginação.

E um silêncio enorme se fez na minha cabeça, porque a música imaginada sumiu de repente…

Sabe aquelas cenas de desenho, que o personagem está correndo e passa por um abismo e continua correndo, até que se dá conta que o chão sumiu e a gravidade finalmente surge, fazendo o personagem levar um tombo?

Pois é, foi exatamente isso. Uma sensação absurda de cair num abismo de silêncio!

Pela primeira vez, me dei conta de que realmente retorno a ser uma ouvinte comum, que ouve com os ouvidos e não com os olhos hehehe

E pra ilustrar, fiquem com  Coyote & PapaLeguas

BeepBeep

ops, beijinhos sonoros

Lak

14 palpites

  1. alex martins disse:

    belo post

    como vc mesma diz: cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é…

  2. Renata disse:

    Que incrivel, Latika. Beijos

  3. Maíra disse:

    Isso reflete exatamente o fato de vc já estar fazendo uso dos sons, do implante e que o silêncio, por si só, só fará parte se, de fato, estiver tudo silencioso.
    beijinhos, Maíra (diretamente do Rio alagado)

  4. SôRamires disse:

    Alucinações sonoras…eu vivo tendo, ouço latidos de cães fantasmas.
    às vezes vendo TV com som desligado tenho a impressão de ouvir a voz e não é leitura labial, é som fantasma mesmo criado pelo cérebro.
    Nos sonhos às vezes ouço sons mas muitas vezes sou surda mesmo, com dificuldades para ouvir um telefonema por exemplo.
    A gente que nasceu ouvinte e depois perdeu a audição fica flutuando mesmo entre dois mundos…eu não imagino o que é ter nascido surdo.
    É muito bom seguir suas descobertas. 🙂
    Qunado ouvimos falar de gente que sente coceira em membro amputado deve ser algo parecido, o cérebro continua registrando a existência desse membro desaparecido.

  5. Andressa Engel disse:

    Olá…vc me esclareceu um assunto q tinha vontade de saber…eh sobre os sonhos!!!! Desde q fiquei surda tenho sonhado muiiito e sempre com som, às vezes sonho que minha audição está voltando, e é tão prazeiroso que acordo feliz…Tinha curiosidade p saber se isso era normal….heheheh.
    Outra coisa q acontece e acho engraçado, é quando os amiguinhos do meu filho veem aqui em casa brincar, mesmo não escutando, tenho a sensação de gritaria da mulecada e às vezes fico irritada como se o barulho estivesse na minha cabeça….heheheheh.
    Agora se existe uma coisa que me irrita muiiito, são os cutucões que as pessoas me dão qdo querem falar comigo…rsrsrsrs.
    Esse meu novo universo tem sido interessante, está me proporcionando muitas descobertas e aprendizado. E vc tem ajudado, adoro seu blog.
    Bjus

    • laklobato disse:

      O cutucão é irritante mesmo. Fale pras pessoas te chamarem de maneira mais delicada. Não é legal se estiver te machucando….
      Mas sim, os sonhos são normais, especialmente se a perda se deu depois de adulto. Vc sempre será uma ouvinte ensurdecida, não surda simplesmente.
      Beijocas

  6. Judy disse:

    Lak, perdoe a filosofia de quinta, mas se não há grande perda sem algum ganho, não há grande ganho sem alguma perda. Você ganha a audição e perde um pouco de “imaginação compensatória”.

    Adorei a comparação com o Coiote… Você já viu criança que cai da bicicleta porque percebeu, quilômetros depois, que o pai não está mais segurando a dita-cuja?

    Em relação à percepção, comigo aconteceu o contrário: não perceber que estava ouvindo algo. Do tipo o som estar ligado baixo em um cômodo, eu estar em outro bem barulhento, cantando, e ao voltar ao primeiro perceber que estava acompanhando extatamente a música tocada. Tipo as tais mensagens sublimiminares das teorias de conspiração…

    Beijokas 😀

  7. zuleid disse:

    Oi minha querida,
    Você hoje tá me fazendo chorar como louca (é que eu cheguei no sábado à noite e tô pondo em dia as leituras).
    Esta noite sonhei que estava com minha neta no meu braço, dormindo comigo e a sensação era tão real que senti o cheiro e o calor dela ao meu lado; ao acordar que sensação de vazio!!! Exatamente como você descreve, o abismo entre o meu sentimento e a realidade! Este abismo de 14.000km foi transposto durante o sonho com ela grudada em mim. Acho que todos nós somos eficientes em substituir o que nos falta no momento.
    Beijos molhados de emoção. 😡