O longo processo de cura…

 

Hoje, queria falar sobre cura. Não sobre a cura da surdez, mas sobre uma outra cura que a gente também precisa em alguns momentos: a cura da ferida emocional causada pela surdez adquirida.

Existe 2 tipos de surdez adquirida: a súbita e a progressiva. A surdez progressiva, geralmente, é bem dolorida. Porque a pessoa sabe que um dia não vai mais ouvir. Cada dia é um dia que ela vai estar ouvindo um pouco menos que ontem, ainda que esteja escutando mais do que amanhã. É complicado, porque chega uma hora que o aparelho não funciona mais e é preciso trocá-lo. Chega uma hora, que o implante coclear se torna a única realidade possível para continuar tendo acesso aos sons. E nem todo mundo quer passar por uma cirurgia, nem todo mundo gosta da idéia de viver com um aparelho dentro do ouvido para o resto da vida.

Mas, a surdez súbita é um susto. Simplesmente as coisas mudam de uma hora para outra. Em boa parte dos casos, nem há explicação. Pode resultar de acidentes, de doenças como meningite, pode ser que não haja diagnóstico. E é preciso aprender a lidar com uma nova condição, de um minuto para o outro.

Obviamente, a primeira pessoa que se deve procurar é um médico otorrinolaringologista. E depois, um profissional de fonoaudiologia. Eles vão indicar tratamentos e soluções auditivas. E terapias para adaptação às soluções auditivas. Ok, a parte física a gente já sabe os passos, de cor e salteado.

Mas a parte emocional? Será que a gente recebe orientação suficiente sobre essa questão?

Primeira coisa a saber: deficiência adquirida, súbita ou progressivamente, é um processo de luto. Nossa sociedade vê muito mal essa questão de LUTO, toma como uma coisa mórbida que deveria ser evitada. Sofrer é uma coisa tida como feia e irritante. “Sai dessa que a vida continua” só é bacana de se dizer, se a pessoa estive há 10 anos escondida embaixo da cama. Do contrário, é importante respeitar o momento dela.

Ficar de luto significa aceitar uma morte. Morte de uma parte sua. Morte de alguns sonhos seus que provavelmente se tornaram inviáveis com a perda auditiva. Morte de uma personalidade sua que você já conhece. Mudanças grandes – e não conheço ninguém que tenha dito que não mudou em nada na vida ao perder a audição – sempre requerem tempo de adaptação, reflexão, aceitação e modificações dos hábitos. E é preciso viver esse período de forma completa, para extravasar as mágoas, deixar o coração libertar o sofrimento. E só depois de deixar os sentimentos do luto virem à tona, quando finalmente sentimos o alivio de chorar, é que chega o momento de se reestruturar e começar um novo momento da vida, com as regras do jogo bem diferentes do que era antes.

Nem sempre as outras pessoas vão entender que você precisa desse período de luto. Para quem NÃO está sentindo a dor da perda – e perder um sentido dói muito – é sempre fácil dizer “Deixa de sofrer e segue com a vida”. Mas, pensa, a surdez afeta justamente a comunicação. Para quem sempre ouviu, não é fácil aprender a ler os lábios de uma hora para a outra. Não é fácil se adaptar à prótese auditiva ou ao implante coclear. Tecnologias auditivas tem imensuráveis qualidades, mas são limitadas se comparadas à audição natural. Por isso, é necessário aprender a ouvir com ela. Aprender a se comportar uma aula: por exemplo, é sempre recomendado que pessoas com deficiência auditiva que usam leitura labial ou próteses auditivas se sentem nas primeiras fileiras, para facilitar a visão dos lábios do professor e/ou para que o volume da voz dele chegue até o seu aparelho/processador de som. Aprender a se comportar numa reunião de trabalho (onde ninguém tem boa vontade para ficar repetindo cada vez que você não entende). Ou aprender a se distrair sem ouvir música. Ou aprender qual a melhor forma de ouvir música com uma prótese auditiva. Aprender a como se colocar de volta no mundo. E aprender a se enxergar de novo, dessa nova forma. Não é uma tarefa simples redefinir a própria identidade.

Vocês já devem ter ouvido falar nos 5 estágios do luto: Negação, Raiva, Barganha, Depressão e Aceitação. O que as pessoas nem sempre tem consciência, é que as emoções não são um videogame. Nossas emoções são vividas de forma embaralhada. Às vezes, a gente passa por um estágio e acha que acabou. Mas daqui um tempo, passa por ele de novo. Diferente do que pregam nesse momento de soluções instantâneas em que vivemos, pode levar MUITO tempo para chegar no Estágio de Aceitação.

É preciso dar tempo para o coração curar a ferida da perda. É preciso dar tempo para buscar ajuda. É preciso dar tempo para se acostumar com um novo você.  E mesmo depois de passado esse momento de curar, vai ter momentos em que você vai fraquejar, que você vai se lamentar, que você vai dizer que preferia como era antes. Tudo isso faz parte e é normal.

Até o momento em que esse texto é escrito – porque a gente nunca sabe o dia de amanhã – a surdez não tem cura. Mas a ferida da alma pode ter.  Quando a gente respeita o nosso momento de luto, quando a gente busca alternativas que nos ajudam na comunicação, quando a gente busca a mão amiga de quem já passou por esse processo e quando a gente busca apoio profissional. O processo é longo, mas é possível para quem tem fé em si mesmo e na vida.

Beijinhos sonoros

Lak

15 palpites

  1. Marisa Ap. de Carvalho Martins disse:

    Exatamente : a cura do emocional leva tempo…..Este texto é mto completo ,forte conteúdo>Parabéns!

  2. Alice Lewi disse:

    Lak, sou psicóloga e usuária de AASI. Parabéns pelo post muito bem escrito falando da dor emocional e do processo de luto pela perda da audicao. Acredito que nao há exatamente uma cura para essa ferida, mas falar sobre isso com um profissional ou mesmo com pessoas que vivem a mesma experiência ajuda no processo de elaboração e abre caminho para lidarmos com essa dor de uma maneira mais saudável e criativa. Como diz o ditado, o que nao me mata me fortalece.

    • Lak Lobato disse:

      Eu acho que dá pra chegar no estágio da aceitação. Em que a ferida já não incomoda tanto, não paraliza tanto. E que a dor dá lugar a outros sentimentos. Beijinhos

  3. Gisele Barros Gisele Barros disse:

    Como é bom ver que tem pessoas especiais que nos entende! Com certeza é horrível nascer surdo, Mas ficar progressivamente como eu, ou subtamente como muitos, realmente nos deixa sequelas emocionais profunda! Obrigada Lak! Beijos!

  4. Nunca cheguei a ouvir 100%. Mas tbm tive perda progressiva, genética. Complicado.

  5. Durmi e acordar não ouvindo e de quebra começa e ouvir um barulho “ensurdecedor” de maqhinha de lavar torcendo dentro da nossa orelha e uma sensação em desespero e querer durmi mais ainda pra ver se esquece de tudo.Nunca me recuperei mas não gosto de lembrar.

  6. LUIZ ANTONIO ALVES TELES disse:

    Gostei muito do texto e me enquadro na surdez progressiva, e chegou a um tempo que eu não escutava nada e a minha caia no chão e ela vinha arrastando do quarto dela que é longe até o meu quarto e puxando o lençol da cama para eu acordar e puder levantar ela novamente do chão e depois disto achei que era melhor fazer o i.c. mais quando fiz para poder escutar ela melhor, mais foi por pouco tempo pois ela faleceu e daí veio a perda do aparelho do I.C. a luta com o Advogado e nada ainda está resolvido e com isto: o luto e sem o I.C. iria me deixar louco, então com a ajuda de amigos que fizeram uma vaquinha e pude comprar um novo aparelho Opus2. Agora estou melhor a cada dia. Obrigado Deus pois mais esta oportunidade de ouvir de ter encontrados amigos do I.C.

  7. Cristina disse:

    Sou de Bragança /Portugal e o meu filho teve uma surdez adquirida aos 3anos mas com essa idade ele não se recorda de nada. Mas para nós pais foi mto difícil porque o João falou, veio a revolta /……/……e a aceitação no fim. Pura verdade o que escreveste laje. Bjinhos

  8. Natália disse:

    Nem sei o que dizer.. ainda estou no luto. Obrigada pelo texto.

  9. Puxa, como foi bom saber que tem outras pessoas com problemas iguais ou semelhantes aos meus,,Me enquadro na progressiva
    Hj sou recenimplantada com uma cirurgia meio complicada, e nao estao respeitando esse luto!! Há sim, um sentimento de negaçao,luto, como foi mto bem descrito… e infelizmente nao respeitado por quem deveria respeitar,fazendo com que. a dor demore ainda mais a passar Cura? Nao creio, aceitaçao? Difícil, há sempre uma esperança alimentada esperando um respeito e solidariedade que nem sempre acontece ou nao o suficiente