O que define o sucesso?

Outro dia, estava numa palestra de uma médica especializada em implante coclear e ela dizia que a definição de sucesso do IC não era dado pela audiometria, mas pela adaptação e satisfação do paciente em relação ao aparelho.

Isso me deixou pensativa pelo resto da palestra dela e influenciou muito no meu discurso, na palestra seguinte, pois eu falei logo depois dela.

Na verdade, tenho pensado muito nessa questão desde então. Teria feito muita diferença ouvir isso logo que procurei o implante coclear em 1999. Mas, naquela época, o sucesso do implante ainda era definido pela audiometria. IC era indicado para poucos casos: ou crianças nascidas surdas ou pessoas recém ensurdecidas. E eu não era nenhum dos dois. Naquela época, o sucesso do implante se media exclusivamente pela discriminação auditiva da fala, sem apoio da leitura labial. E somente casos promissores tinham direito de tentar a sorte nessa “loteria”.

Demorou uns bons anos para que eu retornasse aos planos de fazer IC. E quando voltei, a primeiríssima coisa que escutei foi: “Você tem muito tempo de privação sonora. Você não fez reabilitação auditiva. Você não vai ouvir bem com o IC.” Ouvi isso dos médicos – que eram vários na mesma consulta – e ouvi algo similar da fono: “Nem espera falar no telefone que isso não é para você.”

Hoje, depois de 7 anos como divulgadora dessa tecnologia que uso e que amo, quase 4 deles aproveitando o máximo que o IC oferece, eu concordo em parte com essa postura dos médicos, inicialmente. Concordo porque a maioria das pessoas entende sucesso = 100% de discriminação auditiva. E não custa nada baixar um pouco a expectativa da galera. Mas eu também falo do prazer de ouvir pequenos sons do dia a dia, que nos preenchem e nos alegram diariamente. E falo que vale a pena tentar e descobrir.

Quando eu estava na dúvida se fazia ou não o IC, só dois profissionais realmente me incentivaram de verdade. Uma delas foi a fono Raquel Stuchi. A gente mantinha um contato cordial, porque na época eu trabalhava com fotografia e a Raquel queria umas dicas. Mas, de vez em quando ela me perguntava do IC. E ela dizia sempre: “Vale a pena você tentar. Você vai ouvir mais do que com AASI. Você vai ter oportunidade de escutar um monte de sons novos. E mesmo que você não consiga falar no telefone, o que você tem a perder?” Foi um incentivo tão importante, que quando fiz o IC, foi pra ela que eu agradeci de verdade pelo apoio por tanto tempo até eu implantar.

O outro profissional que me incentivou foi o médico Dr. Koji. Lembro que ele era sempre muito otimista nas consultas. A questão é que sendo paciente do SUS, raramente eu conseguia uma consulta com ele. Quando decidi que faria via convênio, aí todas as consultas era com ele e eram fantásticas. Ele nunca prometeu sucesso na discriminação auditiva, mas prometia que era uma experiência que valia a pena. Lembro que numa das consultas finais antes da cirurgia, eu falei “Mas, poxa, vou perder o restinho da audição que eu tenho” (que não era nada, viu?) e ele respondeu “Mas você vai ganhar muito em troca! Não acha que vale a pena tentar?”. Promessa que se cumpriu de uma maneira que sou incapaz de descrever.

Hoje, olhando para trás,  penso que esses dois foram muito visionários e corajosos. Porque em 2007/2008/2009 o protocolo ainda não era de “o sucesso depende do entusiasmo do paciente”. Mas eles acreditaram no meu caso o suficiente para que eu também acreditasse.

O implante coclear não é uma régua que pode ser usada para definir o sucesso ou fracasso auditivo de alguém. Ele é uma tecnologia criada para permitir que um deficiente auditivo profundo ouça o mais próximo possível de uma audição natural. Mas, o que define a qualidade/quantidade de som é o organismo onde ele é inserido. Depende de diversos fatores, como condição fisiológica (uma cóclea em bom estado, um nervo auditivo sem atrofia, um córtex auditivo com capacidade de discriminar sons) e fatores emocionais: força de vontade, interesse, disposição…

Mas definir o sucesso é mais uma questão pessoal do que uma equação de fatores. Se o usuário gosta de usar, se se sente confortável com o processador, se ele fica feliz com os resultados que tem, se ele acha que melhorou a vida dele de alguma forma, se ele se sente mais completo com o IC, tudo isso representa um caso de sucesso. E é muito bom ver que os profissionais estão reconhecendo essa questão sentimental também.

Falar no telefone, por muito tempo, foi um dos medidores do sucesso do IC. Mas, hoje em dia, com tanta alternativa de comunicação escrita via celular/internet, dá pra ser muito feliz sem isso!

Resumo da ópera: quem faz o seu sucesso (ou fracasso) é você! Sejamos protagonistas das nossas vidas e não meras vitimas do acaso!

Beijinhos sonoros,

Lak

2 palpites

  1. Fstima Azevedo disse:

    Gostei mto dessa.Foi o dr Koji q fez o meu IC mas convidado pelo meu medico,que coincidentemente usou os mesmos argumentos q dr Koji p a realização do meu IC E mto importante a maneira com q o profissional aborda a questao com o paciente Vc fez uma abordagem mto boa Aconteceu comigo parecido,e cada dia vou tendo novas desc obertas ao ler seus relatos Não me sinto mais sozinha