Parando para pensar

A gente está careca de saber que ouvinte, quando pensa, pensa “ouvindo” sons. A priori, isso é o natural, porque desde cedo somos bombardeados com sons do mundo e usamos essa referência sonora para dar forma aos signos (não os do zodíaco, heim?) que não tem forma nenhuma no que toca pensamento e imaginação.

De vez em quando, alguém me perguntava como um surdo de nascença pensa, porque tem gente que realmente acredita que não foi condicionado a ser como é. No caso, pensando através dos sons. E muito babaca adora fazer piada dizendo que surdo não pensa, só porque é preguiçoso demais para perceber que 90% das coisas tidas como “naturais” são aprendidas desde o nascimento.

Para falar a verdade, não posso falar com precisão de como um surdo de nascença pensa porque afinal de contas, eu não sou uma. Adquiri a comunicação auditiva de forma natural, na idade natural, como qualquer ouvinte. Apenas calhou que essa comunicação foi interrompida uma hora. Mas a minha base já estava formada àquela altura do campeonato.

O problema é que perder a audição na pré-adolescência tem muito mais sequelas do que perder a audição já na idade adulta. Já perceberam que uma criança de 10 anos é capaz de perder completamente o sotaque, se mudar de país para outro com idioma nativo diferente, enquanto um adulto, em geral, mantém o sotaque da língua materna? Pois é…

Até bem pouco tempo atrás, se me perguntassem como eu pensava, eu diria que pensava em sons. Afinal, o meu “idioma materno” é o português falado.

Quando fiz o Implante Coclear e voltei a ouvir proximamente (esse termo existe?) da audição natural, me dei conta que, na real, eu parei de “ouvir mentalmente” os fonemas (sons) para “ouvir-vendo” os grafemas (letras). Ouvir-vendo pode soar absolutamente bizarro e explicar isso é confuso, porque não existe como eu fazer uma referência exata de comparação. É algo sinestésico, unindo dois sentidos distintos, criando uma espécie de som-visual. Não é exatamente que eu visualizasse as letras, eu as ouvia, mas ouvia diferente do som como ele é.

Fui percebendo isso aos poucos, junto com a Aline, minha fonoaudióloga. A gente percebia que, quando ela colocava uma lista de palavras na minha frente (as tais pistas visuais das quais sempre falo) eu consiga entender muitissimo melhor e mais rapidamente aquilo que ela dizia, do que se ela colocasse desenhos ou objetos como pistas visuais. Eu simplesmente “ouço-vendo” grafemas!

Outro dia, antes de viajar, estava conversando com o Edu em francês e tomei um baita susto. Tudo porque o francês é um idioma que eu aprendi já ensurdecida. Aprendi a reproduzir alguns sons que não tem em português por assimilação visual. Sei onde colocar a lingua, sei como por os lábios, sei como eles devem parecer e sei que eles tem sinais gráficos específicos (para descobrir, dê uma olhada nos símbolos fonéticos de qualquer dicionário bilíngue) e, apesar de me dizerem que soa perfeitamente como deve ser, eu não tinha noção auditiva de como ele era. Daí, neste dia, eu ouvi o som pela primeira vez! E foi um susto, porque o som não correspondia à imagem visual-auditiva que eu tinha como referência.

Foi a partir daí que eu comecei a me dar conta da evolução pessoal pela qual estou passando. Ontem, na consulta semanal de fonoterapia, eu empacada de ouvir uma palavra porque, mesmo compreendendo perfeitamente o som, ela não correspondia à minha imagem-sonora mental baseada no grafema. Por isso, eu rejeitava aquilo que o cérebro conseguia identificar, simplesmente porque não era o que eu achava que deveria ser.

Ouvir, para mim, não é um mero reaprendizado no que toca ao som, mas reaprender a própria maneira pela qual eu penso.  Reaprender a ser quem eu sou. Refazer padrões mentais.

Pode parecer cansativo, para quem está de fora. Mas, eu já tive que fazer isso uma vez, por imposição da vida, quando a audição me foi roubada, aos 10 anos de idade. Hoje, faço isso por escolha pessoal, portanto, falo do fundo do meu coração: uma reeducação pessoal que vale a pena.

Bejinhos sonoros,

Lak

12 palpites

  1. Eliane disse:

    Olha talvez surdo não pense mas MEDITA, o que é muito mais profundo!
    mas, sabe dúvido que uma pessoa surda seja desprovida de curiosidade.
    Na verdade pensar me parece tb estar ligado a curiosidade, a descoberta. A partir do momento que o surdo vê deve causar um movimento de idéias internamente e acredito que a isso damos o nome de pensamentos.
    Como vc falou tudo faz parte de um aprendizado, sabe que mesmo os signos do zodiaco se a pessoa tiver algum tipo de informação a respeito pode imaginar as constelações.
    Mas isso de fazermos uma idéia é muito interessante mesmo, as vezes lemos um livro e se não conhecemos o autor, fazemos uma idéia que poderá se modificar de imediato se tivermos a oportunidade de conhecê-lo.
    Esse seu blog nos faz refletir e muito. Amo imensamente essa troca que ele nos proporciona e, nos faz pensar o que não haviamos parado pra perceber até então.”Pensamento faz barulho”, sabe que tenho uma idéia de movimento e não exatamente de barulho…E movimento nem sempre é barulhento por vezes pode ser até bastante silencioso.
    beijinhos, esses sim calorosos e barulhentos…ou melhor estalados 😛

  2. Rogério disse:

    Acho que não pensa quem pensa que surdo não pensa.
    Assunto complicado hoje, me faltam referências mínimas. Mas tem uma coisa que você disse que me fez traçar um paralelo: quando sou ‘apresentado’ a uma partitura, de imediato imagino a maneira física de execução ao instrumento. Já uma amiga, maestrina e arranjadora, pega a partitura e sai cantando, como se fossem velhas amigas. Ela tem o que chamamos no mundo musical de ouvido absoluto, e diz que ouve as notas impressas. Viajei muito na comparação?
    Pois é, hoje você me pegou. Um belo texto com um misterioso assunto.
    Grande beijo barulhento!

    • laklobato disse:

      ah, que nada, sua comparação foi legal. Na real, não dá pra explicar coisas que não são… óbvias, que são subjetivas demais para que outra pessoa consiga entender… Fiz o que pude hehehehe
      Beijão

  3. Mariana disse:

    Apesar de ter nascido surda, mas não total [aí que tá], eu acho que pensava “ouvindo” também. “acho”… quanta segurança pra afirmar isso, hehe. Mas, enfim, também não posso dizer como surdo pensa… imagino que esteja associando algo à imagem… mas só quem sabe responder a isso é quem nasceu surdo total.

    “ouvir-vendo”, ahah. adorei! mas não sei se o teu “ouvir-vendo” é como o meu (sou meio tapada pra sacar, heh)… xô citar um exemplo meu para comparar, o qual adoro contar aos amiguinhos, ahah. 😳 eu ouvia muito meu pai falar um palavrão, mas nem tinha noção de como era muito feio falar palavrões [acho q toda criança é assim hehe]. e o palavrão era: “Puta que o pariu!” (me desculpe por isso, hehe), só que eu ouvia isso como se fosse uma palavra de uma língua estranha até que um belo dia, nos meus oito ou nove anos :P, eu tava folheando um livro enorme – só de curiosidade mesmo, eu nem entendia direito o livro, eheh -, que fala sobre a história de Chatô e lendo umas palavrinhas, e foi tão por acaso, reconheci imediatamente o palavrão ali de meu pai! ahah e aquilo soou tão claro pra mim, foi tipo: “aaaaaaaah, entendi!”, até disse para minha irmã que estava por perto: “agora sei como meu pai fala aquele palavrão” eheh e minha irmã que era muito certinha na época disse, me repreendendo por eu ter falado o palavrão: “vou contar a meu pai!”
    e era assim que eu aprendia. palavras que nunca ouvi? entendia melhor por escrito. ouvir-vendo é isso mesmo? ou parecido? 🙂
    adorei o post! quem não gosta de ler um texto que nos deixa pensativo, hum? por isso que não abandono o teu blog, é sempre uma delícia. :p

    Bjs

    • laklobato disse:

      Mari, é bem provável que você ouça os grafemas também, exatamente por causa do seu exemplo de só conseguir entender a palavra depois de vê-la escrita. Não é uma visualização, mas um “som” mental diferente do fonema. Mas, claro, também é uma suposição.
      O Raul, que é surdo de nascença, mas oralizado, diz que também tem essa relação com os grafemas (não sei se ele visualiza ou se ‘ouve’) e, por conta disso, ele decora a palavra na sua forma escrita e dificilmente erra a grafia dela, coisa que ouvinte faz com sons similares. Incrível, né?
      Beijão

  4. fabiana disse:

    Lak achei o assunto meio “compricoso”. Pensar é tão automático que nunca havia parado pra pensar se tem som ou não. Agora lendo, estou com uma música na cabeça e tentei me imaginar sem ela.
    Vou prestar mais atenção em meus pensamentos.
    Bjss 😛

    • laklobato disse:

      Mas, pra mim, também é, tanto que só pude ter noção disso quando comecei a ouvir com o implante e perceber que os fonemas são bem diferentes dos grafemas hehehe
      Beijos

  5. Maíra disse:

    Sabe que fiquei confusa? Vc quis dizer que antes vc visualizava a palavra para pronunciá-la? E hoje, ao perceber o som, vc percebe que essa pronuncia não era do jeito que vc imaginava?

    • laklobato disse:

      Não, não era exatamente visual, era sinestésico. Eu realmente OUÇO, mas não os fonemas, os grafemas.
      E hoje, quando ouço os fonemas, em dou conta que o som não é igual ao dos grafemas.
      Entendeu? Nem eu…
      Beijos

  6. Giseli disse:

    Hum, admito que foi um pouco difícil sacar o que tu quis dizer hehe. O que faço (não sei se você faz assim) é que, quando leio uma palavra ou frase que sei que a pessoa vai dizer, eu meio que faço umas “simulações” dos sons na cabeça e quando vai falar, tento corresponder com a simulação, se você me entende.
    Também entendo muito mais rapidamente se ver as palavras ou se a pessoa soletrar a palavra. Não consigo aprender palavras novas sem ver como se escreve, até agora dependo muito do modo visual para aprender as coisas do mundo.