Telefone & Implante Coclear uma realidade possível

Na minha primeira consulta sobre o implante coclear, há 10 anos atrás (entrei para o programa do Hospital das Clínicas de SP em fevereiro de 2007), uma das primeiras frases que escutei da fonoaudióloga que atendia meu caso foi “Não tenha grandes esperanças de falar no telefone”. Confesso que, na ocasião, eu achei um pouco desanimador ela abordar justo esse tema na primeira consulta, quando eu ainda mal conhecia o implante e mal sabia quais as possibilidades que eu teria com ele.

Hoje, tantos anos depois, eu entendo a abordagem dela: a maioria das pessoas faz o implante com esse objetivo, ter total autonomia de discriminação auditiva, ao ponto de não depender da leitura labial ou qualquer outra pista visual ao ouvir uma mensagem falada. De fato, quase 90% dos candidatos ao IC com quem eu converso, me fazem essa pergunta “Você fala no telefone normalmente?”.  Por isso, na ocasião da primeira consulta, esse tema foi abordado pela fono.

Admito que falar no telefone nunca foi o topo da lista das minhas prioridades. Eu queria ouvir música (mas isso é algo que eu só confesso hoje em dia, antes eu não tinha coragem de admitir isso em voz alta), queria conhecer a voz do meu marido, queria ouvir a voz da minha mãe. E queria redescobrir o prazer de escutar o mundo. Sou assim, apaixonada pelos detalhes sonoros que a vida oferece. Mas, isso foi algo que eu só descobri DEPOIS de fazer a cirurgia. Antes dela, eu nem sabia direito o que eu queria com o implante, só queria sair da bolha de silêncio que a surdez me prendia.

O tempo passou, eu fiz o primeiro IC e, ainda sem um diagnóstico exato de por que minha audição com ele não é suficiente para eu ter discriminação auditiva, e não consegui falar no telefone. E isso nunca me importou muito, porque eu já estava acostumada a não usar o telefone. Tempo depois, fiz o segundo IC, depois de quase 26 anos de surdez sem discriminação da fala, eu tive oportunidade de falar no telefone.

Mas falar no telefone, para mim, não foi algo imediato. Foi um longo processo de aprendizado. As primeiras ligações que fiz foram para pessoas próximas. Eu tinha que pedir para elas falarem devagar, para elas repetirem, para elas terem paciência. E eu ficava cansada muito rápido. Uma conversa de 5 minutos já me deixava exausta pelo estresse que ela gerava.

Com o passar do tempo, com treino e dedicação, as conversas foram se tornando mais complexas, mais demoradas e fui deixando de me sentir tão estressada enquanto usava o telefone.

Admito que eu até hoje não tenho a naturalidade de um ouvinte para falar no telefone.  Envolve todo um processo de preparação prévio: estar em local mais silencioso, respirar fundo antes de ligar e já estar previamente preparada para pedir para repetir, se necessário. Ainda assim, para chegar no atual estágio levou tempo e exigiu treino.

Quem tem um pouco de discriminação e quer aprender a falar no telefone, pode pedir um treinamento específico para telefone, para a fonoaudióloga de reabilitação. Outra coisa que ajuda é ouvir  gravações em áudios mais de uma vez para confirmar se entendeu tudo. Ou escolher  áudios que tenham pistas visuais (por exemplo, transcrições). Ouvir rádio. Conversar por telefone com pessoas próximas por 5 minutos todos os dia.

É um treinamento constante e repetitivo, e não apenas auditivo, como também comportamental. Porque – longe de mim falar por todos os deficientes auditivos, mas falando de casos como o meu, que temos décadas de vida sem poder utilizar o telefone – não é só a audição que precisa se aprimorar, mas o comportamento de surdo. Sentir medo ou ansiedade diante de uma ligação telefônica é tão normal, que a gente sequer percebe como deixa essa ansiedade atrapalhar cada vez que chegamos perto de um aparelho de telefone.

Hoje, quatro anos depois de aprender a utilizar o telefone, eu ainda me pego com medo de atender uma ligação de número desconhecido. Ou de ligar para determinados lugares comerciais. Não porque eu tenha dificuldade, mas porque é um padrão de comportamento que ainda faz parte da minha personalidade. Eu não estou curada da surdez, apenas tenho uma ferramenta que me permite ouvir.

Ainda assim, eu passo por cima dos meus medos e ligo para os lugares que preciso. E já não me canso numa conversa longa. Esses dias, fiquei mais de 1h conversando com uma amiga por telefone e só desligados porque já era de madrugada.

Por outro lado, é importante lembrar que, hoje em dia, temos diversos recursos que substituem a ligação telefônica: email, chat, WhatsApp, vídeoconferência, etc. Ninguém precisa desanimar para fazer a cirurgia de implante coclear só porque os médicos não garantem a possibilidade de falar no telefone. Há casos e casos e alguns realmente não chegam nesse alcance auditivo.

Mas, se essa for essa a sua vontade, tenha em mente que pode ser possível. Estou querendo dizer que é garantido? Não, de forma alguma. Apenas que, em alguns casos,  tempo, paciência, treino, dedicação, podem fazer toda a diferença.

E independente de qualquer ligação telefônica, se você tem indicação para e vontade de fazer o IC, saiba que vale a pena. Nem que seja para ouvir apenas o som do mar ou o barulho da chuva!

Beijinhos sonoros

Lak

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