Uma história de amor…

Outro dia, alguém reclamou comigo que eu não coloquei no livro como conheci meu marido.

Eu até falei do meu casamento, mas contei sobre a festa mesmo, não sobre o relacionamento em si.

É porque o livro é minha biografia, mas sob a temática de como a surdez conduziu momentos específicos. Se eu contasse ela como foi, contando sobre tudo, ficaria muito chato de ler. Minha vida é bem comunzinha.

Mas, já que as pessoas tem curiosidade, compartilho então nossa história aqui no blog.

Era março de 2005, eu estava solteira havia um ano, depois de terminar um namoro de 5 anos com outro rapaz muito bacana, mas que não era a pessoa certa na minha vida.

Até cheguei a sair com outras pessoas, tive uma paixão forte que não vingou e a vida seguiu.

No final de fevereiro, eu comecei a ter uma crise muito forte de insônia. Desde que perdera a audição durante o sono, tive dificuldade de dormir. Mas, nessa época, a insônia agravou muito e eu só conseguia dormir cerca de 2, 3hs por noite. Que muitas vezes nem eram noites, às vezes eram no meio do dia mesmo e eu ficava a madrugada toda acordada.

Calhou que nessa época tinham lançado o Orkut e essa rede social acabava sendo a maneira de me distrair durante a madrugada…

Um belo dia, entrei numa comunidade boba, chamada “Perguntas sem respostas” que tinha uma turma bem participante, que conversava sobre bobagem o dia todo.

Lá pelo terceiro ou quarto dia que acessei a tal comunidade, caí nas graças de uma das panelinhas (eram duas) e acabei ficando amiga de todo mundo…

De vez em quando, o Edu aparecia na comunidade, dava umas respostas irônicas e afiadas para quase tudo e eu achava ele chato pra caramba, mas como o povo da panela tratava ele super bem e parecia gostar dele, o jeito era fazer de conta que não achava ele assim tão mala.

Mas, confesso, ele era mala para caramba e vivia me esnobando sem motivo. Eu já tinha praticamente todo mundo no MSN, mas quando perguntei se ele queria conversar por esse saudoso programa, ele disse que não, porque já estava saindo e continuou comentando na comunidade um tempão. E eu pensei “Que cara chato! Não entendo como as pessoas gostam dele!”

Alguns dias depois, estava conversando com outra pessoa no MSN e ele perguntou se podia incluir um amigo no chat. Falei que sim e, tchananam, era o moleque mala que vivia me esnobando.

Só que neste dia, descobri que ele era uma pessoa bem legal. E tinha opiniões bem parecidas com a minha. E a conversa fluiu maravilhosamente bem por horas. Alguma hora  – não lembro qual foi a motivação para abordar esse assunto –  comentei que tinha deficiência auditiva. O que levou a gente a ter o seguinte diálogo:

Ele: – Você ouve alguma coisa ou não ouve nada?

Eu: – Praticamente nada.

Ele: – E você lê lábios?

Fiquei meio em choque dele me perguntar isso, em vez de perguntar se eu falava por língua de sinais, como 99,99% da humanidade o faria. Mesmo chocada, respondi: – Sim, leio.

Ele: – E você fala normalmente?

Eu: – Sim, embora tenha sotaque.

Ele: – Que legal!

Confesso que não aguentei e acabei comentando que ninguém nunca tinha perguntado as coisas dessa forma.  E ele respondeu “é que acho legal gente que consegue fazer leitura labial.”

Obviamente, de mala ele passou a ser a pessoa mais legal do universo. Mas, claro, eu só via ele como amigo, porque tenho 5 anos a mais que ele e, naquela época, ele era uma criança de 23 anos.

O tempo foi passando, a gente começou a conversar todos os dias, várias horas por dia. E eu ia confirmando que ele era realmente uma das pessoas mais legais que eu já tinha conhecido. E até comentei com a minha mãe (eu lembro nitidamente dessa conversa) que se existia uma pessoa tão legal assim, era possível que houvesse outra igual pra namorar comigo HAHAHAHA porque eu realmente achava que a diferença de idade faria com que ele jamais se interessasse por mim e por isso mesmo, só via ele como amigo.

A gente não marcava de se conhecer pessoalmente, porque  ele morava em Atibaia (interior de São Paulo). Mas, como eu faria aniversário dali uns dias – sou de abril – comentei que pensava em reunir o povo do Orkut num barzinho e ele poderia vir a SP beber com a gente. Ele adorou a idéia e veio mesmo sendo em outra cidade.

Do momento em que Edu chegou no barzinho, até ele ir embora, eu acho que ignorei todas as pessoas do bar e devo ter sido a pior anfitriã do universo, porque a nossa cumplicidade foi imediata e a gente só conseguia conversar um com o outro.

Daí a festa acabou, ele foi embora e a gente continuou se falando pelo MSN, até que alguém se declarou para alguém, ele veio de novo para São Paulo, a gente saiu uma, duas vezes, começou a namorar, foi morar junto (rápido assim mesmo, foi questão de semanas) e nunca mais se desgrudou.

Não é um conto de fadas nem tem drama suficiente para abalar as estruturas. É uma relação com altos e baixos, que dá certo a maior parte do tempo, mas algumas horas a gente bate de frente por opiniões diferentes e tal.

Nós, na Pedra Grande, em Atibaia, logo no comecinho do namoro.

Nós, na Pedra Grande, em Atibaia, logo no comecinho do namoro.

Mas de todas as coisas que mais se destacaram no Edu, foram duas coisas bem relacionadas a surdez. Uma delas é que nunca ele teve qualquer atitude preconceituosa em relação a surdez. Simplesmente não ocorre. E olha que não sei de outra pessoa que seja capaz disso. A outra é que ele sempre apoiou todas as minhas decisões em relação ao implante. Quando entrei no programa, quando saí, quando entrei de novo, quando saí de novo. Quando fiz a primeira cirurgia (ele nem dormiu, ficou acordado comigo a noite toda), quando fiz a segunda (ele brigou comigo o tempo todo, porque eu não queria ficar deitada, até hoje fala para as pessoas que toquei o terror no hospital).

Sobretudo, tenho dificuldade de compartilhar histórias sobre o Edu porque ele é uma pessoa reservada. Mas também porque as pessoas gostam de fortes emoções e somos o casal coadjuvante das sitcoms, que vive uma história de amor branda, que se contrapõe com os dramas do casal principal.  Somos os antagonistas dos melodramas românticos.

Mas, hoje decidi contar, porque acho que o mundo precisa começar a perceber que a leveza não é um defeito, mas uma forma bonita de se contar uma história.

Beijinhos sonoros,

Lak

p.s. Depois que conheci Edu, nunca mais tive insônia.

 

14 palpites

  1. Regiane disse:

    Linda historia de amor.. que assim seja sempre..

    Eu tbm conheci meu marido na internet.. bate papo.. ha 7 anos atras!! E ele tbm nunca teve precoonceito ou vergonha dee mim.. na vdd ele sempre apoia!! 🙂

  2. Ana Clara disse:

    Lak!!! Sua história com o Edu é umas das coisas mais fofas que já vi! Achei lindo ver essa cumplicidade de vocês no dia em que te conheci pessoalmente! Amei saber da história completa! Bjuss

  3. Antonia Carvalho disse:

    Que bacana a história de vocês, Lak! Acho que amor tem que ser assim, tem que nos fazer bem ! Beijinho pra você e pro Edu! 😀

  4. Cristiane disse:

    ALMA GEMEA! Pura energia, linda história!!

  5. Ana Lúcia disse:

    Lak é bom demais quando encontramos um parceirão pra tudo na vida. Você falou uma coisa que eu assino embaixo, quando disse que o Edu nunca teve uma atitude preconceituosa em relação a surdez, eu com o meu marido também foi assim. E agora que estou no processo de avaliação do IC, contei com o apoio dele integralmente e é muito bom ter um companheiro assim ao meu lado. Aproveitando, quero dividir com você uma alegria, fui indicada semana passada pra fazer o IC, estou muito, muito feliz!! Foi aqui, no seu blog que tomei contato com IC, essa tecnologia maravilhosa que nos permite viver tantas alegrias sonoras. Beijo!

  6. Paula Pfeifer disse:

    Ahhhh, eu lembro do que pensei quando conheci vocês, juntos. Disse pra mim mesma que um dia queria encontrar alguém que me olhasse com aquele olhar de orgulho que ele te olhava, com aquele brilho nos olhos e aquela cumplicidade linda.
    Casal mais fofo ever!

  7. Luciana disse:

    Lak, adorei a sua história. Eu também conheci meu marido no Orkut, numa dessas comunidades bobinhas. Ele escrevia muito bem e eu gostei muito de algo que ele disse na comunidade e puxei conversa. Nos conhecemos pessoalmente mais ou menos um ano depois desse primeiro contato e em três meses estávamos morando juntos. Também vivemos uma vida bem comum e nos damos bem na maior parte do tempo rsrs. Ema coisa legal que você passou com seu texto é algo que eu e meu marido descobrimos com a nossa relação, que o amor às vezes simplesmente acontece, sem muitos rodeios, sem muito preparo, sem muito conhecer, entender, complicar.

    Obrigada por contar essa parte da sua história também. Gostei de conhecer.

    Beijos.